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23 de Março de 2014 - 06:00

Por Jorge Arbach

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Nasci em Volta Redonda.

A cidade de aço!
Da imensa Companhia Siderúrgica Nacional.

Sou filho de imigrantes sírios!

Minha infância eu passei recolhido.
Sempre enfermo, acamado!

Crises respiratórias me colocavam entre a vida e a morte.

O início da noite era o início da agonia,
que se arrastava até o raiar do dia.

A asfixia, era a minha indesejável companheira noturna.

Sem ar, sem voz!

Sobreviver! Era o apelo!

Já, naquele amanhã de 64,
algo estava diferente.

Estava com 11 anos.

Indo para o colégio.
Soldados e tanques nas ruas.

As vias do futuro foram fechadas.

Quando iniciei meu trabalho de ilustrador
os generais já estavam no poder.

Jovens eram presos e torturados.
Artistas reprimidos e calados.
Trabalhadores perseguidos e acusados.
Políticos cassados e banidos.
A imprensa vigiada e censurada.

Minhas fontes de informações
estavam nas publicações alternativas.

E não era através dos textos.
Mas pela algazarra silenciosa dos desenhos.

Descobri que ali era possível opinar, ser explícito.
Fui descobrindo a força que carregavam os desenhos.

A imagem era mais imediata que a palavra
Eram ágeis e poderosas.

Usando subterfúgios gráficos, conseguia-se opinar.
Falava-se da opressão sem precisar descrevê-la.

Descobri que as metáforas visuais
eram armas poderosas.

Elas seriam a voz que sempre me faltou.
O ar que ambicionava desde a infância.

Desenhar, a partir daí, não seria mais um prazer
... mas uma necessidade.

Anos 70.
Agora, já com 20 anos!

Pra frente, Brasil!
90 milhões em ação!

Nos porões, seres humanos sofriam.
Era preciso participar dessa resistência.

Estava decidido que o desenho seria a minha voz.
E por ela também seria a voz dos demais.

Esse era o meu caminho!

As páginas dos jornais seriam a minha trincheira.
E a ilustração, a minha arma!

Emitir opinião se transformou
em ato demasiadamente perigoso.

O golpe militar politizou meu idealismo e a minha arte.

Conduziu-me para uma militância, arriscada,
mas com importante significado social e político.

A pena precisava correr...
para escapar do ufanismo,
e driblar a alienação!

Mas,como ser patriota,
Sem poder amar sua terra e sua gente?

Tantas vidas se perderam,
numa terra que convivem beleza e miséria.

É preciso continuar resistindo.
Sempre!

Pois, o preço da liberdade
é a eterna vigilância.
 

21 de março de 2014

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