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30 de Março de 2014 - 06:00

Laurita, filha do general, revela à Tribuna a maior obstinação do seu pai: "livrar o país do comunismo", uma articulação que começou em 1962, após ele presenciar um discurso do então governador Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul

Por DANIELA ARBEX

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O general visita Xingu em 1957
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Mourão, que media 1,67m, acumulou inimigos na carreira
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De múltiplas facetas, militar gostava de música. Além de violino, tocava piano
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"Se prepare para vir ao apartamento mais jeca da Avenida Atlântica", diverte-se a mulher do outro lado da linha, no último de uma dezena de telefonemas dados para a marcação dessa entrevista - a primeira tentativa ocorreu há três meses. E é a meio quarteirão do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, que reside uma das principais testemunhas da história do país: Laurita Mourão de Irazabal, 88 anos, filha do general Olympio Mourão Filho, o homem que desencadeou direta ou indiretamente as duas ditaduras do Brasil. A primeira, em 1937, quando Getúlio Vargas deu um Golpe de Estado municiado pelo Plano Cohen, documento redigido pelo então capitão Mourão, vazado pelos militares para a imprensa e utilizado pelo Governo civil como a descoberta de uma das "piores ameaças comunistas contra o Brasil". O resultado foi a aprovação, pelo Congresso, do Estado de Guerra, a suspensão dos direitos constitucionais e o cancelamento das eleições presidenciais de 1938. A segunda, em 31 de março de 1964, há 50 anos, quando Mourão marchou de Juiz de Fora, com as tropas da 4ª Região Militar, em direção à capital fluminense, para concretizar o que chamou de revolução, cuja conspiração começou a ser feita por ele quase dois anos e meio antes em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Ao localizar Laurita no apartamento de sete quartos da Atlântica - que de jeca não tem nada, à exceção de um relógio de led importado de Punta del Leste, no Uruguai -, a Tribuna teve acesso a fotos inéditas do arquivo da família e informações exclusivas da biografia do general que, mesmo desacreditado por seus pares, alterou os rumos da nação.

Numa tarde de revelações, a funcionária aposentada do Itamaraty e autora do livro "Mourão, o general do pijama vermelho" dispensou os rótulos que marcaram a trajetória de seu pai: nem traidor da pátria, nem herói, muito menos inocente útil. Para ela, apenas alguém que, "louco ou não", lutou por suas convicções. A mais obstinada delas: livrar o Brasil do que considerava uma ameaça comunista. "Defino o Mourão como um patriota. Ele não deu nenhum golpe. O que o Mourão pretendeu fazer foi evitar que o Brasil se tornasse o que ele achava, uma segunda Cuba. Quando o general chegou ao Rio de Janeiro e foi ao Ministério da Guerra entregar a revolução de bandeja, encontrou o ministro dormindo. Costa e Silva recebeu Mourão de cueca. Meu pai disse a ele: aqui está a revolução, agora vocês cuidem dela. Ele fez a parte dele, que foi terminar com os desrespeitos à ordem pública e às Forças Armadas. Foi uma ação histórica. Louco ou não, saiu com a tropa para fazer uma revolução sem um tiro."

Ao contrário do que tem sido divulgado, de que a ação militar de Mourão, em 64, foi um arroubo de véspera, documentos escritos pelo próprio general - cujas memórias foram guardadas e publicadas em 1978 pelo historiador Hélio Silva, no livro "A verdade de um revolucionário -", indicam que as articulações contra o Governo foram iniciadas bem antes: em 1962, época em que o militar comandava a 3ª Divisão de Infantaria, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul (RS). Foi lá, após participar de uma convenção com o então governador do RS, Leonel Brizola, em 7 de janeiro de 1962, que Mourão diz ter acordado para "o perigo comunista". "Brizola ocupou grande parte da convenção para expor seus gráficos de administração. "(...) Fui para a minha casa dormir, absolutamente disposto a começar uma contra-conspiração, para impedir que loucos furiosos transformassem esse país numa fogueira. Eu ia dormir, mas fiquei acordado desde aquele momento. E não parei desde aquele dia de trabalhar contra eles. Prometi-me que eles me teriam pela frente", assegurou o general, conforme registro em seu diário, feito após o jantar oferecido aos dois na casa do general Osvino Ferreira Alves. Segundo Mourão, o político teria declarado sua intenção de realizar campanha para a volta do presidencialismo e a realização de reformas de base, entre elas a reforma agrária. Defensor do parlamentarismo, Mourão acusava o presidencialismo de mergulhar o país na corrupção. Apesar de o general ter ajudado a garantir a posse do vice-presidente João Goulart (Jango), em 61, após a renúncia de Jânio Quadros, o militar passou a considerar que a permanência de Jango no poder era uma ameaça nacional.

"Meu pai estava horrorizado com o que estava acontecendo no Brasil, porque no Sul começou a escutar que o Brasil seria transformado em uma república sindicalista. Vendo tudo isso, começou, pelo lado dele, a conspirar. Conversava com o Sílvio Heck, (ex-ministro da Marinha em 61), e outros generais que, no fundo, odiavam o Mourão e morriam de rir dele, porque o mundo é dos altos, e ele era muito baixinho (media 1,67m). Além disso, tinha um passado com o Plano Cohen. Mas a grande verdade é que ele conspirou no Rio Grande, em Santa Catarina, São Paulo, Rio e Minas. Era contra a política que Jango estava desenvolvendo. Havia uma conspiração de cada lado", destacou Laurita.

 

Proximidade com o Rio foi decisiva para a ação

Disposto a defender suas ideias, Olympio Mourão teve a sua primeira reunião conspiratória em 8 de janeiro de 62, no Rio Grande do Sul, um dia depois do jantar com Brizola na casa do general Osvino Ferreira Alves. "Tive a primeira conversa com Ramão Mena Barreto, meu chefe de Estado-Maior. (...) Expus-lhe claramente o que pensava. Eu andara, na véspera, meio indeciso se falaria ou não, por não saber o que pensava o Ramão de uma conspiração aberta contra o governo. Foi um momento difícil. Mas uma coisa eu sabia. Ramão é absolutamente contra o comunismo. A única dificuldade seria acordá-lo", revela o general, nos documentos entregues ao historiador Hélio Silva.

A própria Laurita foi avisada pelo pai que uma revolução estava por vir em novembro de 1963, quando ela e a irmã Lea, vieram com com os 11 netos de Mourão visitar o avô em Juiz de Fora. O general assumira o comando da 4ª Região quase dois meses antes, em 28 de agosto de 1963. A então funcionária do Itamaraty estava ao lado do pai, quando ouviu a notícia do assassinato do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Era o dia 22 de novembro de 1963. "Neste dia, meu pai perguntou quando eu iria voltar para a Espanha, pois eu morava em Madri. Respondi que iria no navio espanhol Cabo de São Roque no dia 13 ou 14 de dezembro. Então ele me disse: Você toma um avião, porque a revolução está saindo. E se houver revolução, você não sai do Brasil, porque vai parar tudo. É melhor ir embora", aconselhou. Ao rememorar a conversa naquela data, Laurita acrescentou que o general confirmou a intenção de retirar João Goulart do poder.

Outra revelação da filha de Mourão ajuda a explicar o verdadeiro papel de Juiz de Fora no Golpe de 64. Para ela, a cidade foi importante na deflagração do movimento militar pela sua proximidade geográfica com o Rio. "O golpe só foi possível porque Mourão estava em Juiz de Fora. De São Paulo, ele nunca poderia ter saído com as tropas. Como eles tiraram o Mourão dali e o mandaram para comandar a 4ª Região Militar, a cidade acabou sendo um acesso para ele, em função da proximidade com o Rio e da boa estrada. Ele aceitou vir e viu. De lá eu saio. E saiu."

Em seu diário, publicado por Hélio Silva em 1978, o general revela o seu estado de espírito na madrugada do dia 31 de março de 64 após, revoltar, por telefone, as tropas da 4ª Região. "Levei bem uns cinquenta ou cinquenta e cinco minutos dando as ordens. Eu estava de pijama e roupão de seda vermelho. Posso dizer com orgulho de originalidade: creio ter sido o único homem no mundo (pelo menos, no Brasil) que desencadeou uma revolução de pijama. Subi as escadas e bati na porta do Neder (amigo da família) que dormia como um santo. Disse-lhe: acabo de revoltar a 4ª Divisão de Infantaria e a 4ª Região Militar. Eu era um homem realizado e feliz. Não pude deixar de ajoelhar-me no banheiro e agradeci a Deus minha felicidade; havia chegado a hora de jogar a carreira e a vida pelo Brasil."

 

Plano Cohen comprometeu carreira de general

General de múltiplas facetas, Mourão se intitulava "uma vaca fardada". Serviu fielmente ao Exército, mas, também, revelou-se uma pessoa seduzida pelo poder, estando muito próximo dos que comandavam a nação. Alcançou o generalato com o apoio de Juscelino Kubitschek, em 1956, quando este assumiu a Presidência da República. Aliás, Mourão e Juscelino eram filhos da mineira Diamantina: o general, nascido em 1900, e o presidente, dois anos depois.

Embora o general negue na maioria dos seus escritos ter qualquer ambição política, ele demonstra profunda frustração por não ter sido nomeado chefe do I Exército, logo após comandar o Golpe de 64, o qual mergulhou o país no regime militar. Ainda na madrugada do dia 1º de abril de 1964, ele se queixa com o próprio Costa e Silva de ter sido preterido para o cargo ocupado pelo general Otacílio Terra Ururahy.

"Estou satisfeitíssimo, porque tudo terminou bem e cumpri o meu dever. Somente estranhei você ter nomeado o Ururahy para um comando que me pertence pelo regulamento. Se ele fosse general de quatro estrelas, estava tudo bem. Costa e Silva, com aquela sua amabilidade característica e sua habilidade matreira, começou a me dar uma explicação de que tudo fora resolvido na base da hierarquia. Ele havia assumido aquele comando há poucas horas e tudo ainda estava muito confuso. Concordei e me despedi. Aí começou a desgraça do Brasil. Eu tirara a nação de um abismo e empurrara-o a outro", escreveu Mourão, cuja intenção inicial era entregar, em 30 dias, o poder a um Governo civil.

Como prêmio de consolação, a Mourão foi oferecida a presidência da Petrobrás, que ele recusara. Também recusou o cargo de adido militar na embaixada de Lisboa, em Portugal. Um mês após o golpe, no entanto, o Congresso o promoveu a general de Exército. O decreto foi publicado no "Diário Oficial" do dia 30 de abril de 1964. Apesar de isolado do poder, o militar recuperava de alguma forma o prestígio no Exército. Em função do Plano Cohen, ele foi considerado por quase duas décadas, não uma vaca fardada, mas ovelha negra entre os seus pares.

A controversa história do Plano Cohen acompanhou Mourão na carreira militar. Em 1937, Mourão recebeu de Plínio Salgado, o fundador da Ação Integralista Brasileira, partido de extrema-direita à qual o então capitão pertencia e cujo slogan era "Deus, pátria e família", a missão de "simular" uma revolução comunista no Brasil. Segundo seu próprio autor, tratava-se de um estudo baseado numa tradução de um artigo publicado em revista francesa. O tal "documento" pregava a violência, o assassinato de civis e o estupro de mulheres brasileiras e atribuía todos os atos indignos ao movimento de esquerda.

Após sua redação, Mourão confiou sua leitura ao general-de-brigada Álvaro Mariante, deixando o original em sua casa, em Copacabana, no Rio. No dia seguinte, os jornais e rádios anunciaram a descoberta do "plano comunista" e os impressos publicaram na íntegra o tal documento, usado por Getúlio Vargas para dar o golpe. "Plínio Salgado pediu a ele que fizesse um plano estratosférico, imaginativo do que seria o comunismo tomando o Brasil desde o ponto de vista logístico. Ele, então, sentou à máquina e foi fazendo. Os itens de 1 a 13 diziam que aquilo era fictício. A partir do 14 começava como fariam os comunistas matando mulheres, fazendo não sei o quê. O Mariante, então, entregou o documento ao general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, que era um f.d.p de muita categoria, e o documento foi usado por Getúlio, que mandou Mourão calar a boca", afirma Laurita Mourão.

Por causa do plano, Mourão chegou a ser hostilizado na Itália, durante a II Guerra Mundial, por oficiais brasileiros. Em 56, Mourão foi absolvido pelo Conselho de Justificação do Exército, já que não tinha sido o responsável pela divulgação do plano Cohen na imprensa. "Ele fez o documento Cohen e saiu com a tropa. É o autor de dois gestos que, na mentalidade dele, eram para o bem", acredita Laurita.

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