Publicidade

23 de Março de 2014 - 06:00

Artistas rememoram os duros Anos de Chumbo em Juiz de Fora; No período de intensa inquietação, a cidade fervilhou culturalmente

Por MARISA LOURES

Compartilhar
 
Com a ilustração da bandeira do Brasil, Arbach ganhou o prêmio Vladimir Herzog
Com a ilustração da bandeira do Brasil, Arbach ganhou o prêmio Vladimir Herzog

"Também as estórias não se depreendem apenas do narrador, sim o performam: narrar é resistir." Certamente, não foi ao acaso que o juiz-forano Fernando Gabeira escolheu essa frase de Guimarães Rosa para a abertura do livro "O que é isso companheiro?", obra na qual o jornalista conta a experiência vivida na luta armada nos anos 1960. Durante os Anos de Chumbo que cercearam a cena cultural do país, a arte, seja ela manifestada por meio do teatro, das letras, da música ou dos pincéis, de alguma forma, furou os entraves impostos pelos militares. Através dela, inúmeros artistas, alguns inconscientemente, fizeram coro na luta contra a opressão. Em Juiz de Fora, os momentos que sucederam o golpe de 31 de março foram marcados por intensa efervescência cultural. Nesta reportagem que integra a série "1964 - 2014 - 50 anos de golpe militar", a Tribuna traz os depoimentos de Carlos Bracher, José Luiz Ribeiro, Jorge Arbach e José Alberto Pinho Neves. Nos próximos dias, os relatos continuam com representantes da literatura e da música.

Ironicamente, um ano após a decretação do Regime Militar, nasceu o espaço que se tornaria símbolo da democracia artística e cultural em Juiz de Fora, a Galeria de Arte Celina, criada em homenagem à caçula do clã Bracher. Celina faleceu em 7 de março de 1965. "Era um local sem nenhum código repressor, de produção espontânea, natural, tudo produzido de forma aleatória. Era paixão pura", sentencia Carlos Bracher. Apesar da breve existência - 1965 - 1974, o local sediou exposições, curso de cinema francês e até espetáculos teatrais. Carlos se recorda, com orgulho, de ter trazido Paulo Autran para apresentação da peça "Liberdade, liberdade", de Millôr Fernandes, debaixo das barbas dos militares.

Para a profusão de ideias, não tinha limite de horário. A agitação corria noite adentro. "A Galeria Celina constituiu o lugar de sociabilidade desse tempo de inquietações e resistência, que abrigou múltiplas manifestações artísticas, algumas delas de contestação, principalmente, da supressão da liberdade de criação. Com enfática presença na cena cultural da cidade, a Galeria Celina subsistiu contemporânea a esse tempo político", ressalta José Alberto Pinho Neves, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Segundo Bracher, havia olheiro para todos os lados, mas isso não impedia que a juventude, poetas, intelectuais e "Juiz de Fora inteira" passasse por lá. "Sempre éramos abordados, mas papai era um homem muito honrado e querido. A figura dele nos dava respaldo. Depois fomos para a Europa, e a galeria fechou. Eram grandes tempos, pegava fogo."

Na opinião de Pinho Neves, o juiz-forano Arlindo Daibert foi quem "tangenciou esse tempo em alguns de seus trabalhos que permitem ressignificar o momento", como é o caso da obra em que o desenhista "registrou o presente" ao revisitar a tela "Tiradentes supliciado", de Pedro Américo. "Daibert empresta de Pedro Américo a cabeça do mártir (Tiradentes) e a perfila com outras cabeças revolucionárias, desse tempo político, maculadas pelo triângulo vermelho de 'Libertas quae sera tamen'", destaca o professor, lembrando, também, que o artista não passou imune à tesoura da censura. Mostra assinada por ele, com previsão de ser apresentada no saguão da reitoria da UFJF, foi vetada, sendo exposta na galeria do Pró-Música. Sobre os reflexos na cena atual do que era produzido culturalmente em Juiz de Fora durante o Governo dos militares, Pinho Neves é enfático: "Não vislumbro na cidade, nas artes plásticas, qualquer herança desse tempo."
 

 

Traços amadurecidos

"Você amadurece rapidamente, vê que não pode perder tempo, ser omisso. Percebe que o valor da vida é a própria vida." Emocionado ao ter que puxar pela memória para falar de um tema áspero, que marcou o início da sua carreira como artista gráfico, primeiro em veículos alternativos e, depois, nos jornais Tribuna de Minas e "Jornal do Brasil", Jorge Arbach prefere escrever para a reportagem o texto "A ilustração como arma". "Já, naquela manhã de 64, algo estava diferente. Estava com 11 anos. Indo para o colégio. Soldados e tanques nas ruas. As vias do futuro foram fechadas. Quando iniciei meu trabalho de ilustrador, os generais já estavam no poder. Nos porões, seres humanos sofriam. Era preciso participar dessa resistência. Estava decidido que o desenho seria a minha voz. E por ela também seria a voz dos demais. Esse era o meu caminho." (Leia o texto na íntegra no site da Tribuna).

Parecendo uma releitura da ilustração que mostra lápis e pincéis apontados para revólver e faca - imagem que elucida o título dessa matéria ("Criar é resistir") -, Arbach completa. "As páginas dos jornais seriam a minha trincheira. E a ilustração, a minha arma." Aos 61 anos, Jorge Arbach é arquiteto e professor da UFJF. No ateliê. acondiciona o vasto material produzido na época em que tinha um censor acompanhando, diariamente, sua produção nos jornais. Muitas de suas obras só foram publicadas tempos depois. Ele apresentava a proposta, mas era impedido de expor suas ideias. "Aprendi a me tornar íntegro mesmo nas adversidades."

Um de seus trabalhos apresenta uma página de jornal manchada por vários borrões, que podem significar manchas de sangue ou marcas de tiro. Esta só foi publicada em 2005, na revista "Caros amigos". Uma outra comove pela mensagem que passa: de dentro de um ombro de um militar, formando uma espécie de prisão, sai uma mão como se estivesse pedindo socorro. Com a criação de um desenho da bandeira do Brasil e um anagrama com a palavra "progresso", que virou "regresso", foi vencedor, em 1997, do Prêmio Vladimir Herzog, honraria recebida mais duas vezes. Esse trabalho foi publicado na "Caros amigos" e no "Jornal da Tarde." A falta de orientação e de valores é vista no registro de menores com tarja nos olhos. Já a truculência dos ditadores é claramente percebida no trabalho que mostra uma pessoa de botas militares pisando nos pés de outra descalçada.

"Era um aflorar de ideias e um aflorar profissional. Éramos jovens idealistas, querendo crescer com o trabalho, mas impedidos. O pior não era só ter censor, era o ideal não poder ser materializado", reflete o artista, cujo livro - "Penso, logo insisto" -, contendo coletânea de desenhos criados durante os anos de autoritarismo implacável, foi prefaciado pelo jornalista Yvanir Yazbeck. "Caiu a censura; os jornais iniciaram então um levantamento crítico dos erros passados e ressurgiram as grandes reportagens e artigos políticos - além do noticiário desimpedido do dia a dia. Da necessidade dos editores em ilustrar tão saudoso material opinativo, desprezando-se os retratos oficiais, abre-se um espaço considerável para os ilustradores e cartunistas, até então confinados no (então) divertido 'Pasquim', e em outros órgãos da imprensa alternativa como o 'Movimento' e 'Opinião'", sentenciou Yasbeck.

 

Teatro ideológico

Antes mesmo de ocuparem o Forum da Cultura, José Luiz Ribeiro e sua trupe bradavam, para quem quisesse ouvir, a sede de liberdade. Em 1968, sob o vigor do Ato Institucional nº 5 (AI-5), decreto que causou o endurecimento do regime, o Grupo Divulgação ousou driblar a censura com "Bodas de sangue", de García Lorca, e "Electra", de Sófocles. O caminho encontrado, quando vários artistas eram perseguidos por montar determinados autores, como Dias Gomes, foi contestar através dos clássicos. "Bravos filhos de Agamenon. Quantos males suportastes por amor à liberdade, eis enfim recuperada graças à bravura vossa", proclama um dos personagens de "Electra".

O ano era 1969, o palco era a Casa d'Itália. Tudo estava pronto para a apresentação de "Diário de um louco", do russo Nicolai Gogol, e o inesperado, ou, talvez, o já anunciado veto aconteceu. A peça foi proibida na noite de estreia. A liberação ocorreu duas semanas depois, porém, com alguns cortes. Na pele do protagonista Antonino Barnabé, José Luiz Ribeiro utilizou um lenço na boca nos momentos da fala censurada. "Quando começou essa censura, não havia gente preparada. Aos poucos, fomos falando através de signos. Nosso repertório tem toda uma mensagem subliminar", comenta Ribeiro.

No final da década de 1970, a censura não se limitava mais a receber os textos com antecedência, conforme confirma o documento expedido pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), por ocasião do pedido de autorização para a montagem de "Só o faraó tem alma", de Silveira Sampaio. "Tendo sido censurada em 3 de julho de 1978 e recebido a seguinte classificação: Imprópria para menores de 14 anos. Condicionada ao exame do ensaio geral. O presente certificado somente terá validade quando acompanhado do script devidamente carimbado pela D.C.D.P.".

Outro dos episódios sombrios da época, por pouco, não vira comédia. Um representante dos militares assistia aos espetáculos. Durante apresentação de "A morta" (1972), de Oswald de Andrade, o gravador do censor pulou de mão em mão na plateia até chegar à cabine da equipe técnica. Lá, o material foi apagado. O censor chamou um guarda e disse ter sido assaltado. Ribeiro conta que foi um dos períodos mais duros da história. "Era um momento de gente matando gente, soldado matando terrorista e o contrário."

Também desses anos são as montagens "Pequenos burgueses" (1969), de Gorki; "A visita da velha senhora" (1970), de Friedrich Durrenmatt; e "Escola de mulheres" (1970), de Molière. Embora o momento fosse de tensão e medo, deixou rastros positivos e um quê de melancolia por tamanha ebulição criativa. "Hoje temos a liberdade, mas, no momento em que estamos vivendo, nem a cultura universitária é mais universitária. A ausência desse lastro machuca muito. Temos que fazer espetáculos mais explicativos. Abrir o olho da sociedade. Os 48 anos do Divulgação também são resultado desse período. Hoje, os atores entram e saem do teatro de uma forma enlouquecedora. A questão ideológica acabou."

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você é a favor de fechamento de pista em trecho da Avenida Rio Branco para ciclovia nos fins de semana?