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16 de Março de 2014 - 06:00

Repórteres, fotógrafos e radialistas lembram como foram os primeiros dias de trabalho da imprensa após o general Mourão Filho anunciar o golpe

Por RENATO SALLES

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"A cidade parou a partir das 15 horas e tributou à tropa da liberdade a acolhida justa." A manchete publicada no "Diário da Tarde", no dia 7 de abril de 1964, relata o retorno das tropas militares a Juiz de Fora após a movimentação que derrubou o presidente da República, João Goulart (Jango), do cargo máximo da nação. A frase pode ser vista como uma síntese de como a imprensa local tratou o golpe orquestrado pelo general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, então sediada na cidade. Em 1º de abril daquele ano, ele marchou com suas tropas rumo ao Rio de Janeiro, com o intuito consumado de depor Jango. "A imprensa se aquietou, e a maior parte dos veículos teceu loas ao golpe. Essa foi a regra, mas também não significa que todos os jornalistas da cidade concordassem com o que estava acontecendo, mas sim que lutavam por sua sobrevivência", afirma Laerte Braga, à época com 18 anos e redator dos noticiários da Rádio Industrial.

Entre março e abril de 1964, os principais veículos da cidade eram os jornais "Diário Mercantil" e "Diário da Tarde", ambos do grupo Diários Associados, e a "Gazeta Mercantil", ligada à Associação Comercial de Juiz de Fora. Entre as rádios, destacavam-se a Sociedade (PRB-3), a Difusora e a Industrial. "A base da imprensa de Juiz de Fora estava nos Diários Associados. O grupo possuía dois jornais e uma emissora de rádio. Eles eram francamente favoráveis ao golpe e apoiaram imediatamente. Não houve oposição das demais organizações. Ainda assim, todos sofreram censura após a chegada dos militares ao poder" afirma o jornalista Wilson Cid que, em 1964, aos 24 anos, atuava nos veículos do grupo fundado pelo empresário Assis Chateaubriand.

 Manchetes anticomunistas

A harmonia entre a ação militar e o discurso da imprensa juiz-forana da época é evidenciado já nos dias que sucederam a partida e o retorno das tropas da Mourão Filho. Nas bancas, destacavam-se manchetes de cunho anticomunista e contrárias ao presidente deposto. "O general Mourão Filho sai em defesa do regime e instala em JF o QG da Força de Defesa da Democracia em Minas Gerais", destacou o "Diário Mercantil" no dia 1º de abril de 1964. O tom eufórico foi mantido nas publicações subsequentes. Em uma delas, a manchete "Congresso escolherá nome apartidário para a presidência da República", também publicada no "Mercantil", no dia 4, revela que a interpretação da imprensa era de que os efeitos do golpe não seriam permanentes.

"Não se imaginava que o golpe seria tão duradouro. O Castelo Branco, um homem honrado, assumiu a presidência com um discurso solene diante da nação de que em um ano seriam convocadas eleições livres. A decepção veio depois. No momento, o entendimento era de que aquilo era uma reação transitória dos militares", lembra Cid, citando o marechal Castelo Branco, o primeiro presidente a assumir o cargo depois do golpe militar, governando o país entre 1964 e 1967. Fotógrafo do grupo Diários Associados e com 28 anos na época, Roberto Dornelas lembra que o tratamento da imprensa refletia a opinião de grande parte da população da cidade naquele primeiro momento. "No retorno a Juiz de Fora, as tropas do Mourão foram tratadas a pão de ló. Eram como se fossem os heróis que iriam salvar o Brasil dos comunistas." O depoimento de Dornelas fica evidenciado na manchete do "Diário Mercantil", de 7 de abril de 1964: "A população de JF veio para a rua confirmar o seu não ao comunismo. O povo, em lágrimas e com flores, recebeu a tropa em liberdade."

Indício

O jornalista Wilson Cid lembra que, nos primeiros dias que sucederam a ação militar, os jornalistas juiz-foranos tiveram liberdade de atuação até mesmo nas dependências militares. "Ao contrário do que aconteceria depois, sobretudo a partir de 1968, no dia em que o general anunciou o golpe, tivemos absoluta liberdade. Foi criado um comitê de imprensa dentro da 4ª Região Militar. As informações todas eram transmitidas por nós, e pudemos acompanhar as conversas que culminaram na partida das tropas. A liberdade foi absoluta. Hoje, vemos que eles tinham interesse em divulgar e que não estavam fazendo favor nenhum." A afirmação é reforçada pelo depoimento do radialista Paulo Emerich, à epoca com 33 anos, atuando no Rádio Sociedade. "A rádio transmitiu direto da 4ª Região, com o general falando que a cidade estava em revolução. Qualquer pronunciamento tinha que passar por ele."

Entretanto, em seu depoimento, o próprio Cid deixa transparecer uma situação em que já se anunciava a censura que seria recorrente após o estabelecimento dos militares no poder. "Já no dia do anúncio, 31 de março, ocorreu um breve incidente. Às 19h, as emissoras de rádio local entraram normalmente com 'A Voz do Brasil'." Em retaliação ao programa do Governo federal, Mourão Filho ameaçou lacrar todos os transmissores. Logo, a transmissão foi cortada. A partir daí, com o passar do tempo, a tesoura da censura virou via de regra na imprensa nacional, com reflexos claros na mídia juiz-forana.

 

 

 

Redações vigiadas por militares

Os profissionais que atuavam na época atestam que era impossível para os jornalistas fazer qualquer tipo de resistência nas páginas dos periódicos da cidade. "Não havia como. Oposição todos faziam em conversas e reuniões. Mas pela imprensa não havia o que fazer. Logo a censura se acentuou. Principalmente com o golpe dentro do golpe, a partir da instituição do Ato Institucional nº 5 (AI-5)", afirma Wilson Cid. "Aí, mudou tudo. O jornal passou a ser controlado pelos militares. Sempre queriam saber o que iria sair no dia seguinte. Sempre procuravam se informar sobre o ambiente da redação. Tínhamos que obedecer à verdade deles", rememora o fotógrafo Jorge Couri, que aos 33 anos trabalhava para os dois jornais do grupo Diários Associados. Jorge lembra momentos em que a truculência militar o impediu de exercer seu ofício de forma tranquila.

"Já tentaram tomar meus filmes em várias ocasiões. Uma vez fomos chamados para ir à 4ª Região Militar. O general Mourão já havia morrido, e a 4º Região era comandada pelo general Malan (Alfredo Souto Malan). Era um encontro com outras autoridades militares, e fiz uma foto dele tomando café com uma imagem do Mourão ao fundo." A foto foi considerada ofensiva pelos oficiais que monitoravam o trabalho dos jornalistas. "Quando vi aquela cena, pensei: 'seja o que Deus quiser, mas não posso perder a foto'. Aí, um coronel bateu a mão nas minhas costas, dizendo que eu não havia cumprido o combinado. Ele me pediu o filme. Disse que não poderia entregar. Só entregaria à força. Estava vindo de vários serviços além daquele. Não podia perder o material. Pedi que ligasse para o editor. Se ele autorizasse, entregava. Mas queira ouvir a voz dele", lembra Couri, que acabou retornando escoltado para a redação.

"Estava detido, mas com a máquina na minha mão. Chegando ao jornal, ficou combinado que não íamos entregar o filme por conta das outras reportagens. Íamos revelar, e o trecho que estava a tal foto ficaria sob a responsabilidade do redator-chefe. Os militares queriam até entrar na sala escura, para acompanhar a revelação. Argumentei que não iriam ver nada e, se acendessem uma luz, poderiam estragar tudo. Eles ficaram na porta da sala." Ao final do imbróglio, a foto só foi publicada após a tesoura da censura. A situação é apenas um exemplo de como os olhos do censor estavam sempre abertos nas redações. "Embora não fossem necessariamente contra o Governo militar, os jornais sofriam dois tipos de censura. Um era o da própria empresa, que tinha seus interesses. A outra, a dos militares, que iam às redações para ler as matérias antes da publicação. Usávamos o expediente de sempre, no meio do texto censurado colocávamos trechos da "Ave Maria" ou receita de bolinho de bacalhau, por exemplo", afirma Wilson Cid, lembrando que, muitas vezes,. "Esperavam o jornal fechar na entrada da redação."

Cid lembra que os trabalhos mais observados eram os dos correspondentes de veículos dos grandes centros, que municiavam os jornais de circulação nacional com notícias da cidade e região. "Essa coisa de ser chamado para depor era natural. Um dia um jipe da marinha encostou na frente da redação e levou preso um colega nosso, por conta de uma matéria que ele havia feito como correspondente." Em alguns casos, a perseguição aos jornalistas ultrapassou as linhas dos jornais, com a demissão de profissionais alinhados com ideologias de esquerda, como ocorreu com Laerte Braga. "Perdi meu emprego na Rádio Industrial, pois sabiam da minha posição política (desde a juventude, Laerte militou no Partido Comunista Brasileiro, o PCB). Segui para a 'Gazeta Comercial'. Tive lá alguns problemas mas o dono da Gazeta era muito digno e aguentou apressão. Por outro lado, eu tentava não pesar a mão", conta.

 

Sinais de repressão antes do AI-5

O fotógrafo Roberto Dornelas lembra situações difíceis vivenciadas antes mesmo da chegada dos militares ao poder. A vinda de Miguel Arraes à cidade para um comício, em 15 de março de 1964, foi considerada uma provocação pelos grupos de direita. Então deputado federal pelo PSD, o ex-prefeito Olavo Costa foi um dos nomes que se posicionaram contra o evento organizado pelo então deputado estadual Clodesmidt Riani, principal liderança do PTB em Juiz de Fora. "Naquele dia, a truculência dos grupos militares já era visível. Era um evento que defendia o presidente João Goulart. Houve pancadaria generalizada", lembra Dornelas, que, na ocasião, fazia a cobertura para os jornais do grupo "Diários Associados".

Durante o comício que ocorreu na Avenida Getúlio Vagas, em frente ao extinto Cine Popular, o próprio Dornelas conta que foi vítima de excessos por parte dos militares presentes no local. "Estava com José Aureliano de Holanda que era repórter policial do 'Diário Associados'. Fazíamos a cobertura do comício. Antes de começar, estava tudo tranquilo. Porém, quando iniciaram os pronunciamentos, começaram os problemas", conta. O fotógrafo fez um registro histórico do momento em que Olavo Costa, em protesto contra a realização do comício, tentava forçar passagem contra o cordão de isolamento. "Depois dessa foto, levei uma baionetada. Se eu não pulo, poderia ter machucado. Tive que abraçar um tenente que estava lá para me proteger."

Por pouco, o fotógrafo não perde o registro histórico. "Na mesma hora, sabia que poderia ser censurado, arranquei o filme da máquina, entreguei na mão do repórter que estava me acompanhando e pedi para ele levar embora. Depois, tomaram minha máquina e tiraram o filme. Mas consegui salvar essa fotografia, que ocupou a primeira página em vários jornais do país." Após deixar os "Diários Associados", Dornelas acumulou experiências na extinta revista "Manchete", publicação que pertencia ao grupo liderado pelo empresário Adolpho Bloch. No retorno a Juiz de Fora, atuou como profissional da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em 1966, dois anos antes da intensificação da repressão por parte dos militares a partir da deflagração da Ato Institucional nº 5 (AI-5), o fotógrafo registrou excessos em uma manifestação estudantil em frente ao prédio da antiga Reitoria, na Rua Benjamim Constant. "A coisa já era pesada. Não iam dez soldados, mas sim um batalhão. Houve detenções. Os manifestantes e curiosos mais inflamados iam para dentro do camburão sem pena e sem dó."

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