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19 de Março de 2014 - 07:00

ENTREVISTA/ José Murilo de Carvalho, historiador e cientista político

Por Fernanda Sanglard*

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José Murilo de Carvalho, historiador e cientista político
José Murilo de Carvalho, historiador e cientista político

"De um lado romantismo, de outro, paranoia." É assim que um dos maiores historiadores do Brasil define a polarização política vivida pelo país em 1964. Professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Brasileira de Ciências, José Murilo de Carvalho ainda polemiza tal desenho social ao afirmar que nenhum desses lados, representados pelos militantes de esquerda e pelos militares golpistas, respectivamente, tinha verdadeira intenção de promover uma democracia liberal. Se de um lado havia a utopia da revolução socialista, do outro existia a tendência de considerar qualquer crítico do regime como inimigo que merece ser eliminado. Para o mineiro de Andrelândia, Minas Gerais passou a ter papel mais ativo nessa história graças à postura impulsiva do general Olympio Mourão Filho, que, de um rompante, decidiu colocar as tropas na rua e imprimiu o nome de Juiz de Fora como a cidade de onde o golpe partiu. Na época com 25 anos e estudante do curso de sociologia e política da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, José Murilo diz ter recebido pelo rádio a informação sobre o episódio, em um contexto de intensa politização dos universitários. E é justamente para relembrar os 50 anos do golpe de 1964 e promover contextualização histórica e política que ele fala à Tribuna.

 

Tribuna - Os militares preferiam chamar o golpe de "revolução". Qual é a diferença?

José Murilo de Carvalho - Ambos rompem os parâmetros legais. A revolução o faz com movimento que vem das bases para promover reformas; o golpe, mesmo com apoio de baixo, é promovido por cúpulas e visa impedir reformas.

 

- Muitos estudiosos, inclusive o senhor, defendem a utilização do termo "golpe civil-militar", confirmando que a ação dos militares teve amplo amparo da sociedade civil. Qual era a conjuntura da época que justificava tamanho apoio ao movimento?

- Em 1964, houve inequivocamente apoio civil, o que não se deu em 1968 com o AI-5. Desde a renúncia de Jânio (Quadros), em 1961, o país entrou em processo de crise permanente. Estávamos em plena atmosfera de Guerra Fria, e a ameaça comunista foi amplamente usada pelos golpistas para mobilizar uma população ainda predominantemente católica que acreditava piamente no que se lhe dizia. Em BH, mulheres agitando terços impediram um comício do Brizola.

 

- Na época, as pessoas tinham consciência de que o golpe culminaria em ditadura?

- Não. Toda a liderança civil acreditava que os militares fariam como fizeram em 1945, 1954, 1955 e 1961: derrubariam o governo e repassariam o poder aos civis.

 

- "De um lado romantismo, de outro, paranoia." Foi assim que o senhor resumiu os dois lados que polarizavam os embates na época. Afirmou também que nenhum dos dois lados lutava pela democracia liberal. Isso quer dizer que nem aqueles que efetivaram o golpe nem os militantes de esquerda estavam dispostos a acatar um dos princípios básicos da democracia?

- Chamo de democracia liberal um governo representativo baseado na competição eleitoral livremente exercida. Os golpistas não aceitavam um presidente legitimamente eleito; a maioria da oposição de esquerda queria um sistema que não previa a livre competição eleitoral.

 

- Qual foi o papel de Minas Gerais no golpe?

- Minas era governada por Magalhães Pinto, da UDN, homem de centro e candidato a presidente nas eleições de 1965. Hesitou até às vésperas do golpe em tomar posição pública a favor. Mas sua polícia já fez vistas grossas quando um comício de Brizola, em BH, foi impedido por opositores em 25 de fevereiro de 1964. Minas entrou mais na história pela decisão abrupta do general Mourão Filho de mobilizar suas tropas em 31 de março. Surpreendeu os outros conspiradores que foram obrigados a apoiá-lo.

 

- Em que conjuntura o general Olympio Mourão Filho decidiu "antecipar" o golpe e autorizar que as tropas deixassem Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro?

-Mourão Filho era tosco e temperamental. Autointitulava-se "uma vaca fardada". Ao ouvir o discurso de João Goulart aos sargentos no dia 30 (de março), decidiu por conta própria por as tropas na rua.

 

- Como o senhor explica a falta de resistência ao golpe pelo dispositivo militar que apoiava o Governo João Goulart?

- Foi decisivo o apoio do II Exército (ao golpe) e a ordem de Goulart para que o I Exército não lutasse. Mais, o dispositivo militar era uma fantasia. A falta de rigor contra os marinheiros rebelados e o apoio aos sargentos converteu os militares legalistas ao golpe.

 

- Em relação à Justiça de transição, em que sentido o senhor avalia que o Brasil avançou nos últimos 30 anos e o que o país ainda deixa a desejar?

- Os progressos foram muito lentos. Em descompasso com outros países da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai, só em 2001 se começou a falar em compensação às vítimas (no Brasil). Só em 2011 se criou uma comissão da verdade. Falar em julgamento dos culpados ainda é tabu.

 

- Qual é a importância da instalação da Comissão da Verdade?

- Foi um avanço na direção de pelo menos se estabelecerem os fatos. As dificuldades que tem enfrentado mostra nosso profundo conservadorismo.

 

*Fernanda Sanglard é mestre em comunicação pela UFJF, pesquisadora de comunicação e política e doutoranda pela UERJ.

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