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21 de Março de 2014 - 07:00

Almirante Cândido, que ordenou que trem fizesse barreira para Mourão, foi preso e exilado; capitão Lauro foi reformado

Por Hélio Rocha

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Edson Nogueira da Silva
Edson Nogueira da Silva
Joaquim ajudou a levar a tropa até o Rio de Janeiro
Joaquim ajudou a levar a tropa até o Rio de Janeiro
Lauro de Almeida Mendes
Lauro de Almeida Mendes

No dia 1º de abril de 1964, as tropas do general Olympio Mourão Filho chegaram ao Rio de Janeiro trazendo soldados e oficiais do Exército Brasileiro que se alojaram no Estádio Mário Filho, o Maracanã, no Centro da capital fluminense, transformando-o numa verdadeira unidade militar. O objetivo inicial não era estar ali, mas chegar à Avenida Getúlio Vargas, onde as tropas seriam unidas a outros grupos de militares. Um almirante da marinha, entretanto, convocara uma repartição de ferroviários a fechar as vias de acesso das tropas ao seu destino final, atravessando um trem pela linha férrea que trespassava as ruas da região, obrigando a parada dos soldados no maior estádio do Brasil. Na mesma época, no interior de Mato Grosso, um capitão do Exército se opunha à quebra da ordem constitucional e, por isso, era perseguido por lideranças dentro da organização. Estas histórias revelam que, embora o endosso dos militares ao Golpe de 1964 seja até hoje majoritário, houve oficiais legalistas que se opuseram à deposição do ex-presidente João Goulart (Jango, 1961-1964). As testemunhas do Golpe Militar de 1964 entrevistadas pela Tribuna narram essas histórias de bastidores dentro das Forças Armadas.

O ferroviário aposentado Edson Nogueira da Silva, 82 anos, que deixara Juiz de Fora para trabalhar como encarregado geral da estação de cargas de Praia Formosa, pela Estrada de Ferro Leopoldina, narra o episódio envolvendo a reação do almirante Cândido Aragão à marcha de Mourão. Sindicalista filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Edson convivia cotidianamente com ferroviários, aeroviários e marinheiros sindicalizados, entre eles o cabo José Anselmo dos Santos, que liderara, meses antes, uma greve de mais de dois mil marinheiros que se reuniram em assembleia no Sindicato dos Metalúrgicos, também no Rio. O ex-ferroviário conta que no dia 1º de abril o clima na estação, tanto entre os civis quanto para muitos militares, era de agitação e repúdio à possibilidade de que um golpe militar depusesse Jango. "Cândido Aragão, que comandava a unidade militar próxima à estação, ordenou ao cabo Anselmo que viesse até nós, ferroviários, e pedisse para que atravessássemos um trem sobre a via mais próxima, por onde Mourão teria de passar para se juntar a outros militares na Avenida Getúlio Vargas, no Centro do Rio."

Edson conta que coube ao maquinista José de Souza a tarefa de cruzar o trem sobre a Rua Francisco Bicalho, por onde passariam as tropas de Mourão. "Nós atravessamos o trem e, de fato, os soldados não puderam passar. Um major se dirigiu a nós e disse que nós iríamos abrir caminho 'de qualquer jeito', mas não houve endurecimento. O Exército chamou Mourão de volta e, segundo ficamos sabendo, houve um encontro entre os generais, em que foi informado a Mourão que os planos dos militares seriam concretizados. Depois disso, ele foi redirecionado para o Maracanã." Para o ex-ferroviário, pairam suspeitas quanto ao que garantira a Mourão a certeza de que o Golpe Militar de 1964 teria êxito. Ele associa o episódio ao apoio norte-americano à ação dos militares, revelado por gravações de arquivos recém-abertos dos Estados Unidos. "O embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, já tinha colocado as forças do país à disposição, e a 7ª Tropa Americana já estava a postos na costa brasileira."

O movimento na estação de cargas para impedir o avanço de Mourão malograra. O almirante Cândido Aragão foi preso e permaneceria incomunicável pelos próximos quatro meses. Devido aos maus tratos recebidos na prisão, Aragão perderia a visão de um olho. Em agosto, seria exilado no Uruguai. José de Souza, da mesma forma, foi levado pelos militares ao Dops/RJ, na Rua da Relação, no dia 8 de abril de 1964. No dia 17 de abril, segundo a versão oficial da época, cometeu suicídio jogando-se pela janela do terceiro andar do Dops. Para Edson, no entanto, o fim do colega foi outro. "Ele foi assassinado, jogado do oitavo andar do prédio. Foram as primeiras baixas entre nós. Eu fui perseguido também. Fui preso, sofri maus tratos na prisão e perdi meus dentes em função da agressão que sofri de um militar."

 

Militares já se preparavam para reação

Antes mesmo de as tropas de Mourão marcharem para o Rio, os militares já estavam se preparando para uma possível reação dentro das Forças Armadas. Joaquim Gomes de Faria, 68, era soldado, servia no pelotão de transporte da 4ª Região Militar e notara uma movimentação diferente nos quartéis nos primeiros três meses daquele ano. Segundo ele, as unidades punham o aparato militar cada vez mais em treinamento. "Era uma época muito intranquila, de prontidão permanente. A gente pouco aparecia em casa", narra Joaquim, hoje comerciante. No último dia de março, viera a notícia de que os soldados deveriam estar preparados para combater se fosse preciso. "Não se sabia direito o porquê. Em alguma unidade foi dito que nós partíamos para um 'movimento revolucionário', embora não soubéssemos bem do que se tratava. Outras unidades não comunicaram nada. Saímos na expectativa de combater."

Faria narra que, no caminho até a capital fluminense, quando os soldados estavam para cruzar a divisa de Minas Gerais, o comando foi informado que alguns militares de unidades do Exército fluminenses se aproximavam na direção contrária. Temendo ser uma tropa legalista que já soubesse das intenções do general Mourão, foi dada aos soldados ordem de se prepararem para combater. "Nós assumimos posição, colocamos minas sobre uma ponte sobre o Rio Paraibuna. Aguardamos as tropas e esperamos que houvesse endurecimento. Quando elas chegaram, porém, eram soldados que estavam se unindo a nós." Depois do episódio, o comboio seguiu em direção ao Rio, onde chegou, segundo o ex-soldado, sem maiores problemas, sendo encaminhado para o Maracanã. "Ficamos lá por umas três semanas. O Maracanã ficou parecendo uma unidade militar. Não me recordo de um tiro disparado. Tudo correu tranquilamente. Houve até mobilização popular para manter nossa ocupação. Pessoas que levavam comida e bebida.

 

Capitão é reformado por defender a Constituição

Outra história de perseguição, já nas primeiras semanas após o Golpe Militar de 1964, é narrada pelo professor aposentado da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Lauro de Almeida Mendes, que na época era capitão do Exército, egresso da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Lauro chegou a ser preso e foi reformado nos primeiros meses após a tomada do poder pelos militares, mas recorda ter enfrentado problemas com o comando do Exército já em 1961, quando o então presidente Jânio Quatros (1961) renunciara ao cargo. "Eu servia na Artilharia Divisionária 4 (AD4) de Pouso Alegre, vinculada à 4ª Região Militar. O general que comandava a unidade reuniu, à época, todos os oficiais, e perguntou quem nós achávamos que devia suceder o presidente. Convicto, eu respondi: 'segundo a Constituição sobre a qual fiz meu juramento, tenho de dizer que é o vice-presidente'. Acho que, naquele instante, selei tudo de ruim que aconteceria a partir de então."

Lauro conta que, anos depois, servia em Nioaque (MS), município que à época pertencia a Mato Grosso. Estava num trem a caminho de Corumbá (MT), para buscar suprimentos para sua unidade, quando soubera da tomada do poder pelos militares no Rio. Ele diz que não foi a favor da decisão. "Todas as vezes em que se quebra a ordem constitucional, o mau critério impera, sobretudo por meio de pessoas insensatas que dispõem do uso da força. O núcleo do Exército sempre foi muito correto, mas uma série de zangões passou a fazer o que há de mais baixo naquele tempo."

Pouco após o Golpe Militar de 1964, a 9ª Região Militar, à qual estava vinculada a unidade militar de Nioaque, passara ao comando do general ao qual Lauro fora subordinado em Pouso Alegre, sul de Minas. A partir de então, o capitão presenciou perseguições políticas e, em virtude da resposta que dera ao comandante em 1961, foi preso e, meses mais tarde, reformado. "Conheci um médico, que era considerado um subversivo na região. Ele conversou comigo algumas vezes, mas o assunto não tinha conteúdo político. Ele foi preso, e um major da minha unidade me disse para não ter intimidade com ele." Após a prisão do médico, Lauro relata ter sido observado com frequência pelo major, até que um dia foi chamado pelo comandante e recebeu a notícia de que responderia a um inquérito militar. O inquérito foi conduzido pelo oficial superior que o observava. "Ele insinuou que eu era comunista. Eu disse que não, mas que, se ele quisesse, poderia me chamar de legalista."

Após o episódio, o oficial foi preso e enviado a uma unidade em Aquidauana(MS), que à época pertencia a Mato Grosso. Lá, permaneceu enclausurado por algumas semanas. A esposa Ivanir Vieira Mendes foi às unidades militares buscar notícias do marido, presenciou maus tratos de soldados a prisioneiros e só conseguiu falar com Lauro mediante supervisão de outros oficiais. "Em virtude das suspeitas, estava incomunicável", conta Ivanir. Pouco depois, ele foi solto e respondeu a julgamento em liberdade. Mais tarde, foi transferido para Juiz de Fora, mas dias depois foi reformado pelo Exército e privado de sua carreira militar. Entre o Golpe Militar de 1964 e a ruína da carreira do capitão Lauro de Almeida Mendes, no dia 6 de outubro de 1964, transcorreram seis meses. Acolhido por professores da UFJF, entre eles o ex-reitor José Passini, o militar conseguiu cursar matemática e pós-graduar-se em física, tornando-se professor do Instituto de Ciências Exatas (ICE) da universidade, onde lecionou por 37 anos. Após a anistia, promulgada pelo presidente João Batista Figueiredo (1979-1985) em 1979, Lauro moveu processos para recuperar suas patentes militares e, hoje, é coronel reformado.

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