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28 de Março de 2014 - 06:00

Exposições no CCBM dialogam com as ditaduras do passado e do presente

Por RENATA DELAGE

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Passado e presente convivem de maneira harmoniosa nas fotografias de Vânia Marinho
Passado e presente convivem de maneira harmoniosa nas fotografias de Vânia Marinho
Tom Rodrigues partilha a sensibilidade em detalhes
Tom Rodrigues partilha a sensibilidade em detalhes
Trabalho de Gopala Deva faz referências ao cerceamento da liberdade
Trabalho de Gopala Deva faz referências ao cerceamento da liberdade

Qual é o lugar da criação autoral? A relação entre a censura e a massificação cultural vivenciada na atualidade é uma das discussões que pretendem ser suscitadas, neste fim de semana, pelo "Liberdade de expressão - Política com arte". O evento relembra os 50 anos do golpe militar que instaurou o regime ditatorial no país, bem como a censura que calou e interferiu na produção artística de um período e ainda afeta o contexto atual, cerceado por outros tantos tipos de censura.

Entre as diversas atividades promovidas pelo grupo de juiz-foranos - que atuam em diversos setores culturais na cidade -, estão duas exposições abrigadas, até o dia 4 de abril, pelo Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM). Contando com pesquisa e organização de Luciano Mendes, Fábio Machado, Bárbara Vital e Hussan Fadel, "Cacos de uma memória oculta" reúne cópias de jornais locais da época e de processos instaurados pelo Ministério Público julgados na cidade, nos quais são citados, por exemplo, Leonel Brizola e Dilma Rousseff. "Aqui ficava o tribunal do Exército, que atendia a todo o estado", observa Hussan Fadel.

A exposição documental organizada pelos historiadores e pela socióloga pôde reunir, segundo Fadel, um pouco de suas pesquisas acadêmicas sobre o assunto, ao mesmo tempo em que chama a atenção do público para a importância das fontes primárias, às quais qualquer cidadão pode ter acesso.

Já a exposição "O olhar capturado como linguagem" - que reúne fotografias de Tom Rodrigues, Gopala Deva e Vânia Marinho - volta seu foco à produção autoral, ao olhar que pode se valer de toda a liberdade para se transformar em linguagem artística. Ainda que pautados por uma temática livre, os fotógrafos unem a proposta estética a um posicionamento crítico, retratando a cidade ou apenas detalhes dela.

As imagens cedidas por Tom Rodrigues chegam ao público como uma "partilha do sensível". Marcas, sombras, registros que deixam, de alguma forma, sua essência atrelada ao nosso modo de ser, ver ou pensar, são explorados pelo fotógrafo. "Busquei partilhar imagens feitas ao longo de alguns momentos que podem nos tocar, nos sensibilizar", reflete. Para fugir da obviedade de algumas figuras que possam nos vir à cabeça quando se fala em ditadura, o autor trabalha com detalhes e, em alguns casos, com representações abstratas.

Os registros de Vânia Marinho não foram capturados de forma planejada, mas como resultado estético de suas observações em passeios pela cidade. Nas fotografias, passado e presente dialogam a todo tempo. "É possível haver uma convivência estética em Juiz de Fora. Cada pessoa vai enxergar as fotografias de uma maneira diferente, mas minha intenção é destacar a beleza nos cenários compostos por construções antigas e novas, lado a lado. Não é preciso impedir a modernização, mas ela pode se dar sem que seja necessário apagar os traços da história local", diz a fotógrafa.

Gopala Deva traça uma trajetória que leva, por meio de seus trabalhos, a referências quase sempre bem diretas do cerceamento da liberdade. Em preto e branco, linhas ou listras obtidas nos registros pela cidade nos remetem a grades. "Há um paradoxo na vida social que tende para algo das estruturas totalitárias, já que muitas vezes abrimos mão da nossa individualidade, somos influenciados por uma ditadura da mídia, da opinião. A expressão artística surge sempre como uma ameaça a essa ordem", avalia Deva.

A despeito das limitações técnicas - as fotos de sua autoria foram feitas pelo celular -, há que se exaltar a agilidade proporcionada pelas novas tecnologias e, sobretudo, o seu poder de alcance. "A internet, as redes sociais, como o Instagram, permitem a socialização de diversos processos antes restritos a poucos", diz. Deixando de lado os discursos meramente revolucionários, o fotógrafo busca a reflexão que aponta para a ditadura das grandes corporações, que substituem, hoje, as fronteiras que antes eram basicamente territoriais. "Estamos imersos numa sociedade de consumo, não há como negá-la, mas o maior problema se dá pela transformação do próprio homem em objeto de consumo", finaliza.

 

O OLHAR CAPTURADO COMO LINGUAGEM

 

CACOS DE UMA MEMÓRIA OCULTA

 

De terça a sábado, das 9h às 21h, e domingos, das 10h às 21h. Até 4 de abril

 

CCBM

(Av. Getúlio Vargas 200)

 

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