Publicidade

26 de Março de 2014 - 07:00

Sueli Costa e Gilvan Procópio traçam o cenário literário e musical de Juiz de Fora no período governado pelos militares

Por Marisa Loures

Compartilhar
 
Gilvan Procópio foi colaborador de diversas publicações na cidade...
Gilvan Procópio foi colaborador de diversas publicações na cidade...
Sueli Costa teve músicas censuradas durante a ditadura
Sueli Costa teve músicas censuradas durante a ditadura

A cantora e compositora Sueli Costa estava sentada em uma churrascaria da Rua Halfeld, comemorando com o amigo João Medeiros a notícia de que, pela primeira vez, uma de suas músicas seria gravada - e pela cantora Nara Leão -, quando foi avisada que poderia ser presa. O lugar era frequentado por olheiros do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). "Fiquei sabendo através da coluna de música do 'Correio da manhã'. O João trabalhava no Rio e veio correndo para Juiz de Fora comemorar comigo. Chegando lá, o Sidivan (empresário local) sentou com a gente. Os homens do Dops fizeram sinal para ele sair da mesa, dizendo que, dali a pouco, eu seria presa", comenta a compositora, salva por um apagão. "O Sidivan saiu, foi para o bar da frente e chamou o João ao telefone. O João me disse para sair cinco minutos depois dele, e a luz da cidade apagou. Nunca corri tanto. Fomos nos encontrar novamente na Rua Floriano Peixoto esquina com Getúlio Vargas."

Personagem atuante na cena musical dos anos ditatoriais, Sueli Costa rememora ao telefone com a Tribuna os tempos duros, porém, de muita ebulição criativa para sua geração. Uma época embalada pela poesia de Vinícius de Moraes e Tom Jobim e também pelo discurso engajado de Caetano Veloso.

Nas páginas dos jornais, a literatura também usou seu espaço para fazer frente ao regime. O hoje professor da Universidade Federal de Juiz de Fora Gilvan Procópio Ribeiro engrossava a lista de militantes escritores. Ao lado de José Paulo Netto, Eugênio Malta, Nilo Batista, José Cláudio Botelho, Décio Lopes e Rogério Bitarelli Medeiros, Gilvan escrevia para o suplemento "Arte e cultura", do "Diário Mercantil". Já como diretor de um centro de cultura da universidade, criou a revista "Barbrazil". Apesar de não ter chegado ao quarto número, a publicação foi para além das fronteiras brasileiras.

 

 

'Quero ler o coração dos comandantes'

Intitulada "Por exemplo você", a canção de Suely Costa que rendeu uma comemoração no bar, foi composta em 1967, às vésperas da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI5), sendo concebida sem qualquer pretensão ideológica. "Se eu fosse presa, poderia ter sido compositora de uma música só. Cismaram com a minha cara. Acho que era porque eu era uma mulher no meio da noite tomando whisky. Hoje, estou fazendo 46 anos de música gravada." Carioca de nascimento, a compositora veio para Juiz de Fora ainda criança. Aqui iniciou a carreira, fez faculdade de direito e compôs os famosos grupinhos de artistas que se reuniam na sua casa no Alto dos Passos, em bares e na Galeria Celina para tocar e jogar conversa fora. Pensar alto era quase um pecado mortal. "Tínhamos que ter um certo cuidado. Era impossível não se envolver com o que estava sendo vivido, mas não tínhamos intenção de fazer militância. Meu negócio sempre foi fazer boa música e estar ao lado de coisas bonitas. Era uma época boa, as artes estavam florescendo. Muita bossa nova e harmonias bem feitas."

Sueli musicou "Cordilheira", de Paulo César Pinheiro, considerada, por muitos, uma das mais belas canções do período contestatório do Brasil. A música era para ter sido interpretada por Erasmo Carlos, porém, foi proibida. Ela só foi liberada em 1979, ano em que Simone a colocou no álbum "Pedaços". "Eu quero ter a sensação das cordilheiras, desabando sobre as flores inocentes e rasteiras. Eu quero ver a procissão dos suicidas, caminhando para a morte pelo bem de nossas vidas. Eu quero crer na solução dos evangelhos, obrigando os nossos moços ao poder dos nossos velhos. Eu quero ler o coração dos comandantes, condenando os seus soldados pela orgia dos farsantes", decretou a letra.

A jovem estudante não podia chegar em casa com uma rosa vermelha, e a mãe já pensava se tratar de envolvimento com o comunismo. "Ela ficava apavorada", acredita Sueli, lembrando de outras criações, cujo conteúdo, mesmo inofensivo, a colocou em mais uma enrascada. A falta de conhecimento cultural fez com que os ditadores vissem protesto onde não havia. "Altos e baixos" foi censurada por citar um ansiolítico. "Do risco em teus cílios. Foram discos demais, desculpas demais. Já vão tarde essas tardes e mais tuas aulas. Meu táxi, whisky, Dietil, Diempax. Ah, mas há que se louvar entre altos e baixos. O amor quando traz tanta vida. Que até pra morrer leva tempo demais", diz a canção. "Não tinha nada demais. A minha mãe tomava diempax." A composição, que relata a cena de agressão entre um casal, entrou para o disco "Essa mulher", de Elis Regina, em 1979. "A Elis (Regina) foi lá em casa pessoalmente para pedir autorização para gravar."

 

 

'O fascismo está na ordem do dia'

Gilvan Procópio tinha lá seus 15, 16 anos quando "acordou" para uma nova maneira de enxergar o mundo. "Minha trajetória de vida sofreu uma guinada naquele momento. A minha família é de antigos proprietários rurais, descendentes da aristocracia rural do século XIX. Antes do Golpe Militar de 1964, eu era 'americanófilo' doente. O próprio impacto do golpe me fez derivar, gradativamente, para uma posição mais de esquerda, me fez abandonar as origens de alguma forma. Mais do que minha maneira de escrever, mudou minha maneira de ser", relata o professor, para quem a produção literária esteve sempre atrelada ao engajamento político. "Ainda que fosse um poema de amor. Dentro do movimento estudantil, participei de vários movimentos de rua, tanto de deitar no meio da Avenida Rio Branco e impedir o trânsito, até ocupar o prédio da reitoria (onde hoje é o Museu de Arte Murilo Mendes)."

Redigidos aqui no município, os textos para o "Diário Mercantil" eram enviados para edição do artista plástico João Guimarães Vieira, o Guima, no Rio de Janeiro. O grupo de escritores era composto, em sua maioria, "por jovens de 20 e poucos anos, com a cabeça nas nuvens, que pensava em mudar o mundo do dia para a noite". Gilvan conta que saia de tudo, crítica de cinema, artigo político disfarçado, poesia e teatro. "De alguma forma, passávamos um recadinho para quem quisesse entender." Nem sempre era fácil driblar os olhos da censura. "O Marechal (Emílio Garrastazu) Médice era chamado de Mal Médice. Mal é a abreviatura de marechal, mas mandavam cortar. É evidente que, se dessem uma brechinha, a gente deixava passar alguma crítica. Alguns textos eram muito sofisticados para serem entendidos."

Aos poucos, o regime foi ficando mais apertado, obrigando os jovens escritores a mudarem o rumo da contestação, claro, sem deixar de lado a escrita. "Passamos para a arregimentação de pessoas. Reuníamos na casa de algumas pessoas para as discussões do Comitê Brasileiro pela Anistia. Distribuíamos as ações para cada um, como pichar um muro. Um advogado ficava de plantão no caso de nos acontecer qualquer problema. Tinha dona de casa, coronel do Exército na reserva, todos os matizes de esquerda estavam lá dentro. As coisas foram exigindo um outro tipo de postura. Entrei para a sala de aula em 1973, e ela passou a ser um outro campo de batalha, de resistência."

Foi na década de 1970 que Gilvan e o jornalista Jorge Sanglard, entre outros, partiram para a "Revista Barbrazil". Seguindo os moldes da imprensa alternativa, publicavam artigos, charges, poemas, contos. A publicação era enviada pelos Correios para todo o país. Um belo dia, segundo Gilvan, a equipe de redação recebeu uma carta da Biblioteca do Congresso de Washington, nos Estados Unidos, solicitando um exemplar. "Nunca passou censor por lá. Já era a época da distensão. Graficamente não era essa maravilha, bem tradicionalista mesmo, mas tinha conteúdo. Nossa linha editorial era contra a ditadura. Saía quando podia. O quarto número não chegou a ser publicado por falta de verba."

Gilvan não chegou a ser detido, mas teve pessoas próximas envolvidas nessa situação. Sua ex-esposa, a professora de história Maria Jose Feres, passou um dia todo na Polícia Federal. "A ditadura conseguiu unir pessoas que partilhavam de ideais mais ou menos comuns. De repente, quando acaba, as pessoas se dispersam. Aí fica muito complicado. Dá uma sensação de falta, de ausência de algo que você não sabe o que é", reflete o professor, sabedor de que é preciso, ainda hoje, "forjar um pensamento crítico, trabalhar na mesma direção". "Ainda que a ditadura tenha acabado, o fascismo está no ar, e a qualquer momento pode cair em cima da gente com muita força de novo. Vamos dar um curso no mestrado e doutorado focando exatamente esta questão: o fascismo está na ordem do dia? Estão acontecendo coisas muito preocupantes aí. Quando você começa a achar que amarrar um sujeito pelado no poste, com uma corrente de bicicleta, porque ele roubou alguma coisa é normal, isso é sintoma de que alguma coisa muito séria está por trás."

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você aprova o retorno de Dunga para o comando da Seleção Brasileira?