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20 de Abril de 2014 - 06:00

Ex-sindicalista lembra que abriu mão da liberdade para permanecer no país e defender companheiros

Por RENATO SALLES

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Recorte do jornal "Diário Mercantil" mostra o momento em que Clodesmidt Riani se apresenta à 4ª Região Militar
Recorte do jornal "Diário Mercantil" mostra o momento em que Clodesmidt Riani se apresenta à 4ª Região Militar

No último dia 1º, o Ministério da Defesa comunicou à Comissão Nacional da Verdade (CNV) que as Forças Armadas haviam criado comissões de sindicância para investigar torturas e mortes em instalações militares durante a ditadura que se instalou no país após o golpe de 1964. Entre as unidades que serão alvo de investigação está o Quartel do 12º Regimento de Infantaria do Exército, em Belo Horizonte, uma das unidades onde Clodesmidt Riani, então deputado estadual cassado, esteve preso. Apesar de a sinalização de que haverá novas apurações, desta vez por parte dos próprios militares, Riani considera que sua história já foi contada e resgatada ao longo das últimas décadas. Um dos principais líderes sindicais do Brasil, ele não demonstra muita confiança de que a Comissão Municipal da Verdade, instalada pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) no início do mês, consiga levantar novos casos de abusos na cidade. "Não que eu saiba pela minha atuação na área sindical e partidária", afirma, aos 93 anos, antes de se colocar à disposição do grupo.

A vocação evidenciada para a defesa das causas sociais e trabalhistas já se manifestava nos posicionamentos de Riani dentro do movimento sindical de Juiz de Fora, ainda na década de 1950, quando disputou uma cadeira na Câmara de Vereadores. Nos anos que se passaram, o mineiro de Rio Casca alçou voos maiores, ocupando as presidências da Confederação Nacional dos Trabalhadores Internacionais (CNTI), do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e do diretório local do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o mesmo do presidente João Goulart (Jango), que acabaria deposto em abril de 1964. Chegou ainda a assumir mandato de deputado estadual por duas vezes antes de se cassado pelos militares. Tal atuação efetiva em defesa das classes operárias colocou Riani na lista dos primeiros nomes que tiveram seus direitos políticos suspensos nos dias que se sucederam ao golpe. Entre nomes como os de Jango, Luiz Carlos Prestes, Jânio Quadros e Leonel Brizola, era o 11º da relação. Ou o "ponta esquerda do time, como o próprio sindicalista definiu em março de 1984, em depoimento à Tribuna.

Um dia após Jango partir para o exílio no Uruguai, no dia 4 de abril de 1964, Riani foi preso ao se apresentar à 4ª Região Militar, em Juiz de Fora. A partir disso, enfrentou um interminável ciclo de detenções e transferências que se estendeu até março de 1971, passando por diversas unidades. Desde o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em Belo Horizonte até as penitenciárias de Frei Caneca e Cândido Mendes (Ilha Grande), ambas no Estado do Rio de Janeiro, onde presos políticos conviviam com alguns dos piores bandidos do país. Sereno, o ex-líder sindical lembra que, pelo menos em duas ocasiões, descartou manobras que pudessem evitar as prisões, preferindo agir de acordo com "suas responsabilidades".

 

Esforços para resistir eram ineficazes

"Após o golpe, tentamos resistir e organizar uma greve geral em defesa do presidente. No dia 1º, o doutor Jango me telefonou pedindo para não fazer a greve. Disse que não tinha mais jeito. Iam rir da luta. Aquele era nosso dever e obrigação. Mas não sabíamos direito o que estava acontecendo. Estávamos unidos. Fiz um discurso na Rádio Nacional pelos operários. Depois, seguimos para a UNE (União Nacional dos Estudantes), que estava tomada", declarou Clodesmidt Riani. Como a greve não se tornou efetiva, os esforços de resistência se apresentavam cada vez mais ineficazes. Em um cenário de repressão, Riani se abrigou na casa de um sobrinho, em Madureira, no Rio, nos dias que se sucederam, antes de retornar a Juiz de Fora no dia 4 de abril de 1964. "Minha esposa (Norma Geralda Riani) mandou minha carteira e documentos para que eu fosse para a Europa. Tinha essa oportunidade, já que era membro adjunto do Conselho de Administração do Bureau Internacional do Trabalho, com sede na Suíça (a função garantia a Riani imunidade internacional, o que foi ignorado pelos militares). Mas não aceitei essa possibilidade. Minha responsabilidade era aqui."

Após refutar a possibilidade de um exílio, Riani teve uma nova oportunidade de abrandar sua situação após se apresentar aos militares em Juiz de Fora. A negativa, resultou nas primeiras agressões físicas e psicológicas, que se repetiram em outras ocasiões. "Chegando lá, me colocaram em alpendre. Vieram três coronéis. Pediram que eu assinasse um documento afirmando que Jango e Brizola eram comunistas. Disse que não poderia fazer isso. Nenhum dos dois era comunista. Depois, dois oficiais me levaram para um lugar onde já havia várias pessoas presas. Foi terrível. Ali puseram os soldados para chutar o meu tornozelo. Em seguida, vieram por trás de mim e deram socos nos rins. Depois de registrados fomos levados para o Dops, em Belo Horizonte."

A partir daí, Riani vivenciou seguidas detenções e sofreu maus tratos e atos de tortura em algumas unidades. Enquadrado pela Lei de Segurança Nacional como subversivo, o sindicalista chegou a ser condenado a 17 anos. Em 1966, o Superior Tribunal Militar (STM) reduziu a pena para dez anos. No ano seguinte, mais uma vez a sentença foi revista para um ano e dois meses. Em 1969, um Inquérito Policial-Militar (IPM) condenou o sindicalista a mais dois anos de reclusão. Após um ano e meio, acabou libertado por bom com comportamento. "Devo ter ficado de seis anos a sete anos preso." Após viver o inferno nos porões da ditadura, o sindicalista retomou sua vida em Juiz de Fora e na Companhia Mineira de Eletricidade, que acabou absorvida pela Cemig na década de 1980.

Com a anistia, em 1979, o sindicalista retomou sua vocação política e sindical. Em 1980, tornou-se delegado do Sindicato dos Trabalhadores em Energia Hidrelétrica de Juiz de Fora. Dois anos depois, elegeu-se, mais uma vez, deputado estadual, agora pelo PMDB, reelegendo-se em 1986. Por meio de uma resolução de 1994, em ato simbólico, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) restitui os mandatos dos três deputados cassados em 8 de abril de 1964: Sinval Bambirra, Clodesmidt Riani e José Gomes Pimenta, o Dazinho. Para Riani, sua reabilitação como parlamentar é um reconhecimento dos equívocos que se tornaram regra após o general Olympio Mourão Filho deixar seu pijama vermelho em Juiz de Fora e seguir com suas tropas rumo ao Rio de Janeiro, no ato que deu início a 21 anos de excessos por parte do Governo militar.

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