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18 de Abril de 2014 - 07:00

Golpe foi catalisador para iniciação política de nomes como Tarcísio Delgado e José Luiz Guedes

Por Renato Salles

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Em 1964, Tarcísio Delgado assumiu o DA da Faculdade de Direito
Em 1964, Tarcísio Delgado assumiu o DA da Faculdade de Direito
José Luiz Guedes foi eleito presidente da UNE em 1966
José Luiz Guedes foi eleito presidente da UNE em 1966

A truculência que se instalou no Brasil a partir de 1964, com a tomada de poder pelos militares que depuseram o presidente eleito João Goulart, foi preponderante para o ingresso de dois nomes importantes no cenário político local. Entre tantos outros exemplos, o ex-prefeito Tarcísio Delgado (PSB) e o ex-deputado federal José Luiz Guedes (PCdoB) ainda militavam no movimento estudantil quando se viram no olho do furação que jogou o país em um hiato de 21 anos sob as rédeas dos generais. "Foi uma desgraça geral. O golpe nunca poderia ter havido. Foi a maior fria que o Brasil entrou. Perdemos mais que 21 anos. O país andou para trás. Decantaram o milagre brasileiro, mas a desigualdade aumentou", avalia Tarcísio, que ocupou a função de chefe do Executivo juiz-forano nos últimos anos do regime militar, entre 1983 e 1988, retornando ao cargo entre 1997 e 2005.

Em abril de 1964, aos 29 anos, Tarcísio era estudante da Faculdade de Direito em Juiz de Fora e acabou alçado à presidência do Diretório Acadêmico Benjamin Colucci após a intervenção dos militares. "Não fui um interventor. Acabei sendo escolhido quase que por unanimidade. Quando veio o golpe, os presidentes dos diretórios estudantis foram exonerados. O grupo que apoiava o presidente destituído me procurou, por minha posição mais equilibrada. Era contrário a política que estava sendo conduzida naquela época. Não aceitava o golpe, apesar de, por um momento, tê-lo admitido sentimentalmente. Imaginava que seria algo muito transitório. Não era tão bem informado. Tinha vindo da roça com 16 anos. Nos primeiros sinais de violência, me desliguei definitivamente."

A partir da intensificação de sua atuação no movimento estudantil, a carreira política de Tarcísio assumiu uma trajetória ascendente. Já em 1996, foi eleito para seu mandato como vereador, já militando nas hostes do MDB, que abrigava opositores ao regime militar, ocupando ainda cadeiras na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e na Câmara dos Deputados antes de chegar à PJF. "As pessoas não têm a menor ideia do que era fazer oposição naquela época. Era muito difícil, tanto como vereador quanto como deputado estadual e federal. Houve uma época em que não podia entrar em um colégio de Juiz de Fora para uma palestra. Cheguei a ser taxado de comunista sem nunca ter tido vínculo com o comunismo. Não podíamos fazer reuniões. Haviam olheiros nos diretórios do partido."

 

Peso eleitoral

Apesar de manter postura de oposição ao regime e de alguns desentendimentos com o comando militar, Tarcísio Delgado admite que nunca se sentiu ameaçado por sua atuação política. "Não tive medo de ser preso. Tinha uma característica diferente. Era duríssimo contra o regime, mas não contra a instituição. Dizia que o Exército brasileiro estava sendo contaminado por algumas pessoas." Apesar disso, ele credita às manipulações dos militares a derrota para Mello Reis, então na Arena, nas eleições de 1976. "Saí contra um candidato dos militares. Fui derrotado. Era franco favorito. Tinha sido eleito deputado com uma votação expressiva. Mas eles fizeram um desfile de máquinas e tratores na Rio Branco com presença do Geisel (Ernesto Geisel, presidente militar entre 1974 e 1979). Diziam que as máquinas eram para a Mendes Júnior (siderúrgica que se instalou em Juiz de Fora na década de 1970). Todo mundo achou que seria empregado. Falavam em geração de 35 mil empregos, mas nunca chegou perto disso."

 

 

'Ganhei uma família'

Assim como Tarcísio Delgado, a militância estudantil do ex-deputado José Luiz Guedes (PCdoB) sofreu uma grande reviravolta com a inauguração do regime militar. Entretanto, Guedes experimentou na pele a repressão da ditadura antes de ter sua primeira experiência política, desempenhando a função de deputado federal apenas a partir de 1983, após ser eleito suplente em 1982 pelo PMDB. "Senti o golpe como uma muralha. Era uma sensação de tristeza muito grande, mas, sobretudo, o sentimento era de que tínhamos que derrubar essa muralha. Tudo tem dois lados. O golpe teve esse lado de mobilizar muita gente", afirma Guedes, que, em 1964, era estudante de medicina na UFMG.

Antes de intensificar sua militância estudantil, já nos primeiros dias do golpe, em abril de 1964, Guedes foi coadjuvante de uma das primeiras ações de resistência de Juiz de Fora. "O Arnaldo Penna (advogado e ex-prefeito de Conselheiro Lafaiete entre 1989 e 1992) era presidente do DCE da UFJF. Ele tinha um protagonismo no movimento estudantil, e fizemos uma movimentação para que não fosse preso naquele momento. Ele estava refugiado no Seminário Santo Antônio. Tiramos ele de lá dentro de um furgão do depósito do meu pai", lembra.

A partir daí, foi a vez do próprio Guedes se tornar protagonista do movimento estudantil. Em 1966, foi eleito presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE). No mesmo ano, assumiu a direção da União Nacional dos Estudantes (UNE). "Minha vida mudou. Me casei (com a ex-vereadora Nair Guedes) nesse momento, no Rio de Janeiro. Foi uma militância familiar. Apesar de tudo, o golpe criou uma família para mim." O sentimento de família dentro da militância, entretanto, era constantemente ameaçado pelos excessos do sistema. Durante a ditadura militar, o ex-deputado chegou a ser preso por três vezes, uma delas no célebre congresso da UNE, em Ibiúna (SP), que acabou estourado pela repressão e com a prisão de centenas de estudantes. A queda das lideranças aconteceu em outubro de 1968, pouco antes da instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5), durante o Governo do general Costa e Silva, que conferiu aos governantes maior poder para punir arbitrariamente aqueles que eram considerados inimigos do regime.

"Fugi da prisão quando estava sendo transportado de Atibaia (SP) para Minas. Estávamos sendo transportados em dois ônibus. Abri a porta de emergência e saltei em um momento que um caminhão obrigou o ônibus a diminuir. O que ficou disso foi uma pancada na cabeça." Anterior ao congresso de Ibiúna, Guedes teve ainda experiências em Cuba, onde esteve para um treinamento de guerrilha. "Isso reforçou minha crença política." Depois da fuga, vivenciou a resistência camponesa no interior de Goiás, antes de partir para o exílio na Europa. "Saí do Brasil em 1974. Já havia saído em missões, mas sem intenções de permanecer. Permaneci em Paris até 1979. Após a anistia, retomei a militância. O PCdoB me escolheu como candidato a deputado federal. Saí pela tendência popular do PMDB, que, naquele momento, abrigava as correntes de oposição. Acabei entrando como suplente na Câmara dos Deputados, já no primeiro ano daquela legislatura (entre 1983 e 1987)."

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