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30 de Março de 2014 - 06:00

Depois de 1968, Mourão passou a receber ameaças; dormia com um revólver sobre o travesseiro

Por Daniela Arbex

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Mourão sendo entrevistado no momento em que festejava a vitória do Golpe de 64
Mourão sendo entrevistado no momento em que festejava a vitória do Golpe de 64

Olympio Mourão Filho tinha a língua afiada. Não poupava críticas a colegas de farda e até aos seus superiores. Laurita, a filha octogenária, puxou o pai em quase tudo, principalmente no jeito. Se o pai se autointitulava uma "vaca fardada", ela, por sua vez, zomba de si mesma. "A família Mourão é toda muito jeca. Não sei me vestir, não tenho nenhuma vaidade, eu mesma arrumo o meu cabelo e minhas unhas. É o lado Mourão muito modesto. Já a família Linhares, da minha mãe, é de empregadas com luvas brancas, prataria fina. Não herdei esse lado", brinca a moradora de Copacabana, cujo apartamento de frente para o mar lhe custa R$ 12 mil por mês de aluguel, fora os R$ 3.200 de condomínio e R$ 800 mensais de IPTU.

Nem tão modesta quanto diz, Laurita mantém o luxo de morar na Avenida Atlântica com o serviço de quatro funcionários domésticos há mais de duas décadas com o soldo do pai: R$ 28 mil mensais. Mourão terminou seus dias como ministro do Superior Tribunal Militar. Da aposentadoria de ex-funcionária do Itamaraty, recebe R$ 6 mil e, como a maior parte dos recursos vai para o imóvel alugado, os móveis, boa parte doados por amigos, segundo ela, estão visivelmente gastos. "Está vendo aquele relógio ali? Eu trouxe agora de Punta del Leste. Custou R$ 80. Vai haver um grande concurso de qual é o apartamento mais jeca da Avenida Atlântica, e eu quero ganhar", comenta a filha de Mourão em gargalhadas. De valioso, guarda o piano de cauda comprado quando morava em Nova York, no qual exercita as músicas que tira de ouvido.

Laurita também mantém o humor ao referir-se à sua vida amorosa, que só não anda ativa, segundo ela, "por falta de mão de obra". Gaba-se de ter tido muitos amantes e de ter experimentado uma vida liberada, apesar de ter assumido, em 1972, após a morte da irmã Lea, seus oito sobrinhos. Contando seus três próprios filhos, Laurita ficou com 11 crianças para criar. Separada do marido, manteve a família sozinha. Só abre mão da irreverência para fazer novas confissões sobre a vida do pai, também falecido em 1972, aos 72 anos de idade. "Meu pai confessou muitas coisas sobre os generais que não serviam para nada. Ninguém queria perder a carreira, que todos se aboletaram na revolução que ele fez, mas que, na hora da verdade, nenhum deles queria sair, o próprio Castelo Branco. E que os Estados Unidos ficaram encantados dele ter saído, porque estavam prontos para ajudar.

A ex-funcionária do Itamaraty também conta que, depois de 1968, o pai passou a viver com medo. "Depois de 1968, ele ficou muito desgostoso e dormia com um revólver debaixo do travesseiro. Foi extremamente ameaçado por telefonemas, por cartas anônimas. Então, ele dizia: 'A mim vivo, ninguém leva'. Ele sabia que jogavam as pessoas do avião lá no meio do mar. Ele sabia dessas coisas. Não podia fazer nada. Dizia: 'A mim, não, eu me suicido, mas não me entrego para que façam isso comigo'."

O general não foi assassinado e nem preso como temia. Ao sofrer um AVC, em 1972, foi submetido a uma traqueostomia que o impedia de falar. Mourão morreu no hospital, ao lado de Maria Bastos Tavares, sua segunda esposa. Laurita soube da morte do pai na França, pelo jornal "Le Monde". Não houve tempo para chegar ao Brasil e acompanhar o funeral. A última lembrança que carrega dele é a da visita que fez ao militar no primeiro dos cinco meses em que esteve internado no Rio. Ao chegar no quarto, ela disse ao pai que estava ali. E apesar de Mourão parecer inconsciente, ele chorou. "Foi a única vez que o vi em lágrimas", conta, emocionada.

 

Família foi socorrida por Brizola

Filho de pai militar e senador, o velho Olympio Mourão tinha 17 herdeiros. Como o dinheiro em casa era 'contado', Mourão Filho, que havia feito os cursos primário e secundário no Seminário dos Lorazistas de Diamantina, decidiu sair de casa e se alistar nas Forças Armadas, a fim de sobreviver na capital mineira, em troca de alojamento, comida e uniforme. Cursando a faculdade de engenharia, não escolheu a carreira militar puramente por vocação. Mas o certo é que apaixonou-se pela disciplina e pela ordem, embora Laurita Mourão defenda sempre que o pai tenha sustentado a independência de pensamento. E foi como tenente Mourão que ele conheceu Almira Linhares, em Florianópolis, Santa Catarina, aos 24 anos. Ela, filha da alta sociedade catarinense e com belos olhos verdes, encantou o militar à primeira vista. Ele, no entanto, baixinho e "jeca", como diz Laurita Mourão, foi considerado apenas simpático e precisou se esforçar para conquistar o coração dela.

Casaram-se em 1925. Tiveram Laurita e Lea. Ao contrário da vida militar, a convivência em casa era considerada pacífica. O enérgico Mourão, detestado por muitos, era na visão das filhas um pai amoroso e marido dedicado. "Oly, como era chamado na intimidade pela esposa, manteve-se ao lado de Almira por 30 anos. Em 1955, no entanto, tomada por um câncer generalizado, Almira foi definhando. Esse foi o período de maior mágoa de Mourão contra o Exército. Sem dinheiro suficiente para cuidar da mulher e sem contar com hospitais bem equipados, já que os disponibilizados para os militares não eram especializados, Olympio recorreu a empréstimos junto a amigos para socorrer Almira. Com a morte dela, em 55, "o quarteto adorado", como Laurita se refere à família formada por ela, pai, mãe e irmã, se desfez.

Abalado, Mourão pensou em largar tudo para ser padre. Mas continuou na carreira militar, conquistando, um ano depois, a promoção a general. Sofria por Almira não ter vivido o suficiente para vê-lo com "as estrelas no ombro". Mais tarde, o então general conheceu a empresária Maria Bastos Tavares, ficando junto dela nos últimos 14 anos de vida. Mudou-se para o apartamento de Maria, na Avenida Atlântica, número 3.210, e foi ao lado dessa companheira que desfrutou uma vida de pequenos luxos. Nas suas memórias, ele cita o prazer de ter um banheiro só seu e de realizar o sonho de ver o mar todos os dias. Em segredo, o general do pijama vermelho fazia as unhas com manicure, mas não permitia esmaltá-las. Era fanático por cinema e, já na reserva, assistia pelo menos a uma sessão todos os dias. Em casa, adorava ficar de pijama, porque dizia que mudar de roupa o descansava. Seu único vício era o cachimbo.

Na vida pessoal, experimentou a dor de ver o neto Ruben, de 3 anos e meio, ser atropelado bem em frente à casa do comando onde servia, em Santa Maria (RS). Era o dia 4 de janeiro de 1962, quando o filho de Laurita desprendeu-se da mão da babá em busca de um pirulito oferecido pelo baleiro do outro lado da rua. O menino morreu no hospital, na presença de Mourão, que assistiu a tudo sem conseguir chorar. E por força do destino foi um dos "inimigos" do general, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, quem colocou um avião à disposição da família para levar o corpo da criança ao país onde residia. Como Laurita morava em Trindad, no Uruguai, com o marido, o menino seria enterrado lá. "Eu, enquanto for viva, nunca poderei pagar ao Brizola o que ele fez por mim. Outro dia, votei no neto dele, não quis nem saber de que partido era. Eu tenho muita gratidão por ele, que foi maravilhoso", revela Laurita, ao comentar o gesto do ex-governador.

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