95% dos partos são cesarianas

Grávida de oito meses, Carolina Sirimarco espera ter Letícia por parto normal

Muitas vezes, no primeiro pré-natal, o médico já marca a cesárea , conforme critica a doula Carolina Duarte
” Ao nascer, a criança pode se sentir ameaçada, abandonada ou, ao contrário, sentir afeto, acolhimento. O bebê fruto de um parto normal escolheu a hora de nascer.” Esse é um dos motivos para a doula e psicóloga Carolina Duarte defender o parto natural. E ela não está sozinha nessa luta. Impactado com os altos índices de cesárea no Brasil, o Ministério da Saúde estabeleceu medidas para reduzir esses números. No país, 84% dos partos realizados pela rede suplementar são cesáreas. Em Juiz de Fora, a situação é ainda mais alarmante, pois 95% das grávidas optam ou são levadas a realizar o procedimento, média superior à nacional. O preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que somente 15% dos partos sejam cirúrgicos. Já na rede pública, o número de cesarianas é menor, cerca de 40%, mas ainda não é o ideal.
Segundo o Ministério da Saúde, a cesárea sem indicação médica expõe a mulher e o bebê a riscos desnecessários: aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. “O número de prematuros é muito grande, porque as cesáreas são realizadas antes de a criança estar pronta. É preciso esperar a mãe entrar em trabalho de parto. Só assim será reduzido o número de crianças em UTI neonatal, que podem ter graves sequelas”, preocupa-se a diretora de Provimento de Saúde da Unimed em Juiz de Fora, Nathércia Abrão. Para reduzir esse percentual, os planos de saúde Plasc e Unimed, antes mesmo da publicação da resolução, começaram a pagar pelo parto normal o dobro dos honorários médicos das cesarianas. Mas o estímulo financeiro não tem sido suficiente para reverter esse quadro.
A nova resolução do Governo federal pressiona médicos a realizarem os partos normais, hospitais a implantarem o plantão obstétrico e operadoras de planos de saúde a fiscalizarem seus prestadores. A principal medida estabelecida foi obrigar a rede privada a utilizar o partograma. Por meio dele, é possível saber se as cesarianas efetuadas seriam de fato necessárias. A partir de junho, quando a nova resolução passa a valer, as operadoras só poderão realizar o pagamento dos procedimentos mediante a apresentação do partograma. Assim, os profissionais terão sempre que esperar a gestante entrar em trabalho de parto, desestimulando os nascimentos agendados. Outra mudança é a obrigatoriedade do uso do cartão da gestante, no qual deverá constar os registros do pré-natal. Além disso, as novas regras ampliam o acesso à informação pelas pacientes, que poderão solicitar os percentuais de cesáreas e de partos normais de cada hospital e médico.
Para Nathércia, a medida é um começo para a redução do número de cesáreas. “O que a gente não pode esperar é que isso vai dar resultado da noite para o dia. Essa mudança é um processo que envolve hospital, enfermagem, a questão cultural, a questão do plantão obstétrico que não acontece na cidade, a formação médica.”
A assessoria do Plasc, plano de saúde da Santa Casa, informou que os médicos da operadora têm sido permanentemente conscientizados. “Estamos nos adequando com muito critério às novas normas. Acreditamos que elas reduzirão significativamente o número de cesarianas, mas ainda assim elas acontecerão.”
A diretora da Unimed enfatiza que a mortalidade materna, que, embora não seja mencionada com frequência, é alta no país. Conforme dados do Ministério da Saúde, em 2013, a mortalidade materna era de 69 mães por cem mil nascidos vivos, enquanto no Canadá, por exemplo, esse número é de 12 óbitos por cem mil nascidos vivos. Em Juiz de Fora, em 2012, de acordo com o DataSUS, três mulheres morreram por causas decorrentes da gravidez ou após o parto.
Insegurança de pacientes nos consultórios
Apesar de o plantão presencial obstétrico ser obrigatório desde o dia 1° de dezembro do ano passado, conforme determinação do Ministério Público do Estado (MPE), as instituições não vêm cumprindo a medida. De acordo com a obstetra Mariana Pinto Sirimarco, há um impasse entre hospitais e planos na definição de quem deve pagar pelos plantões.
O promotor de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros, disse que, sem o plantão obstétrico, será extremamente complicada a realização dos partos normais. A obstetra Mariana diz observar a insegurança das pacientes dentro do consultório. “Recebo muitas pacientes querendo o parto normal. Mas fico de mãos atadas porque não tenho como garantir que vou prestar assistência a todas. Na hora do parto, posso estar viajando. Apenas no SUS tem plantões obstétricos e, na rede particular, somente na Santa Casa. Mas a instituição tem ficado sobrecarregada. A orientação que dou é para que as pacientes conheçam os hospitais do SUS, pois, provavelmente, elas serão levadas para lá. Algumas optam por fazer pela rede pública, mas muitas desistem por não ter a segurança de ser assistida.”
Cultura da cesárea preocupa governantes
A cesárea está arraigada à cultura brasileira. “É necessário educar a população para os benefícios do parto normal, e quem tem que mostrar essas vantagens é o próprio médico”, afirma a diretora de Provimento de Saúde da Unimed em Juiz de Fora, Nathércia Abrão.
Doula há dez anos, Carolina Duarte presencia a dificuldade e os empecilhos que a cultura e a sociedade impõem ao parto normal. “As mulheres procuram o grupo Gerando (composto por três doulas), buscando auxílio para construir um parto normal. Muitas vezes, no primeiro pré-natal, o médico já marca a cesárea.”
Grávida de oito meses, a psicóloga Carolina Sirimarco deseja ter Letícia por parto normal. Ela conta que se interessou pelo método após ter a primeira filha no Canadá, onde as cesáreas são realizadas somente em casos de emergência. “Como não tive escolha, fui tentar entender como funcionava, se poderia usar anestesia, estudar e ver por que eles insistiam tanto no parto normal. Acredito que, se na minha primeira gravidez estivesse no Brasil, eu teria feito cesárea sem nem pensar nas outras possibilidades.”
A jornalista e apresentadora do programa da CBN Juiz de Fora “Lugar de mãe é aqui”, Lucimar Brasil, afirma que o medo da dor do parto normal é um grande influenciador na decisão pela cesárea. “Pesquisa feita recentemente (pela Fiocruz) mostra que mais de 80% das mulheres têm medo da dor. Mas, às vezes, ele vai ser menos doloroso do que a cesárea. Eu fiz cesárea e fiquei 15 dias com dificuldade para andar, doida para pegar o neném, mas tudo incomodava.” Para a jornalista, a cultura atual leva as pessoas a não querer sentir a dor. “Queremos ficar tomando anestesia para tudo. Mas a dor é apenas um componente. A dor do parto normal passa, e você já está com o bebê nos seus braços.”
Parto natural
Quem busca o auxílio das doulas conta com uma assistência mais íntima. A mãe participa de grupo terapêutico, no qual são ministradas aulas de parto, de massagem para bebês, primeiros cuidados, amamentação, técnicas de respiração e consciência corporal. Quando a grávida entra em trabalho de parto, ela liga para a doula. “Ficamos junto com a mãe, usando técnicas de alívio de dor até ela estar em franco trabalho de parto, com contrações efetivas e ritmadas. Somente assim a levamos ao hospital para evitar intervenções de aceleração de parto. É importante ressaltar que a doula não faz procedimento obstétrico”, explica Carolina Duarte. Já os partos realizados em casa são feitos por uma enfermeira obstétrica.
Após o parto, as doulas continuam acompanhando as mães na amamentação.









