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17 de maio de 2017 - 07:00

A consultora de moda Glória Kalil defende personalidade e bom senso ao se vestir

"Quem se veste sempre na última moda não tem o menor estilo"
Por Júlia Pessôa
Glória-Kalil-LEONARDO-COSTA

A consultora de moda Glória Kalil defende personalidade e bom senso ao se vestir (Foto: Leonardo Costa)

Desde que soube que a entrevistaria a ideia de estar tête-à-tête com Glória Kalil me assustava um pouco. “E se ela me achar cafona?”, foi o pensamento que ficou no cantinho da minha cabeça a semana inteira. Mas estava diante de uma representante da moda pensante, que extrapola conceitos de “certo” e “errado”, “pode”, “não pode”. “A moda se pluralizou para poder atender tantas individualidades, porque ela é uma expressão de identidade. Não há só uma maneira de estar na moda, nem só uma fonte de bom gosto. É claro que isso não quer dizer que ‘vale tudo’. Mas nada é mais artificial do que uma pessoa que se veste ou faz um evento que dialoga em nada com sua vida. Isso não tem nada a ver com dinheiro ou tendências. É questão de ter personalidade, conhecer-se e expressar-se de acordo”, observa a jornalista, empresária e consultora de moda, para meu alívio.

Tentando confiar em meu bom senso, apostei no preto e branco clássico, mas com toques que eram bem “a minha cara”: calça de brim rasgada, meia arrastão por baixo, camisa tradicional ensacada e um mocassim flatform prateado (odeio salto, é um destes sapatos de plataforma “que se está usando”), com minha marca registrada, um batonzão. Pelo que entendi do papo com a especialista, é por esta mistura de referências que passa a diferença entre moda e estilo, conceitos intimamente ligados, mas que têm distinções cruciais. “O estilo é uma escolha que se faz dentro da multiplicidade de possibilidades que a moda oferece. É o que você seleciona para te representar, é assim que se manifesta estilo. Não adianta tentar fingir, a gente nunca escapa de mostrar quem a gente é. Uma coisa pode ‘estar na moda’, mas não ter o estilo de uma pessoa. Aliás, quem se veste sempre ‘na última moda’, com todas as tendências do momento, só prova que não tem o menor estilo”, pontua a especialista, elegante e simples em um casaco carmim bem cortado e com detalhe em zíper na altura dos quadris, combinado com uma calça preta sequinha e uma bota de salto fino, porém não muito alto. O bracelete grande de acrílico com pequenas pedrinhas e a bolsinha sempre a tiracolo completavam a produção sem firulas, mas cheia de classe e bossa.

Para ela, a democratização da informação sobre moda permite justamente que as pessoas tenham uma expressão cada vez melhor de si mesmas. “Vestir-se bem não quer dizer vestir-se com roupas caras. Há inúmeros caminhos hoje. Vejam, por exemplo, o “high-low” (“alto-baixo”, em tradução livre): você pode misturar uma peça mais cara com uma usada; uma nova com uma velha, não tem essa de comprar uma roupa para cada situação social. O chique passa, inclusive, por uma relação sustentável com o meio ambiente, a economia, com o conhecimento para fazer escolhas que permitem comprar melhor em vez de comprar mais. Eu mesma, se tenho uma roupa que gosto, uso até acabar, e ainda mando fazer outra no mesmo molde depois”, diz a consultora.

“A moda não é mais um objeto de desejo”

Segundo Glória, a diversidade de opções que se tem hoje em moda vem de revoluções comportamentais, tendo a primeira delas se passado nos anos 1960. “Foi a era do feminismo, da minissaia, dos Beatles, das drogas, do movimento gay e tantas outras rupturas que ajudaram a fundar algo até então inédito: a compreensão do jovem como público pensante e consumidor. Até então, existia o adulto e a criança. A chegada do jovem como categoria transformou a moda e o comportamento para sempre. Só para se ter uma ideia, não existia roupa informal. Quem quiser fazer um experimento pode olhar a saída do Maracanã lá pelos anos 1950: os homens estavam como andavam na rua, de terno, gravata e chapéu! Chinelo, bermuda e regata era impensável! (risos)”, diz ela, que dirigiu a Fiorucci, marca italiana que operou e fabricou no Brasil e certamente foi hit entre quem tem hoje mais de 30 anos.

De acordo com a especialista, outra grande transformação se deu na década de 1990, com a globalização e o embrião do que seria a internet hoje. “A informação de moda se tornou mais democrática. Justamente por isso, foi a partir daí que estilistas tornaram-se celebridades. Essa inclusão pela informação permite que as pessoas se apropriem dos elementos como querem, e hoje são os estilistas que estão de olho nas ruas, porque é nelas que está a pluralidade”, observa ela.

Para a consultora, entretanto, a moda não é mais o sonho de consumo que foi dos anos 1980 ao início dos 2000. “Antes o jovem, por exemplo, fazia qualquer coisa por um jeans de determinada marca, hoje ele quer um celular. Para mim, a moda não é mais um objeto de consumo como já foi, existem muitos concorrentes neste páreo”, diz ela, ressaltando que a indústria fashion não sai ilesa do momento de crise política e econômica que o Brasil vive. “A moda é uma indústria: tem que ter mão de obra, matéria-prima, mercado, não é uma obra de arte, algo que se pode criar independentemente das circunstâncias”, opina Glória.

“Tendências são cíclicas porque não há novidades”

Na visão de Glória Kalil, a próxima grande inovação em moda de fato só existirá quando os “tecidos inteligentes” estiverem no mercado. “São os que refrescam quando está calor e aquecem no frio, que mudam de cor ou se impermeabilizam de acordo com fatores externos, que se transformam de variadas maneiras. Muito se fala deles há anos, mas nada de concreto foi apresentado até hoje.”

Para a especialista, o movimento de trazer de novo às tendências de moda elementos que haviam desaparecido, como é o caso da injustiçada pochete, do lurex e da meia arrastão (presente!), vem justamente desta ausência de criações verdadeiramente inovadoras. “Por isso há tantas releituras: o tecido aparece em um novo corte, o acessório é usado de um jeito diferente… Ou simplesmente volta-se a usar o elemento antigo, com peças da atualidade”, observa a consultora. “Mas essa possibilidade de reinventar o que já existe é democrática. É pegar algo que está há anos esquecido e dar um novo significado, o que é interessante. Até a calça saruel é democrática: fica feia em qualquer pessoa, de qualquer idade, com qualquer corpo! (risos)”.

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