JF. domingo 30 abr 2017
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Regina Zilberman organiza obra de crônicas judaicas de Moacyr Scliar

Moacyr Scliar põe sua escrita a serviço da cultura, da história e da memória do povo judeu (Foto de Lisette Guerra)

Moacyr Scliar põe sua escrita a serviço da cultura, da história e da memória do povo judeu (Foto de Lisette Guerra)

Fevereiro de 2011. Morre Moacyr Scliar, uma importante voz a serviço da cultura, da história e da memória do povo judaico. Abre-se uma lacuna na literatura brasileira. “Ele foi um escritor até os últimos dias, porque se manteve extremamente ativo o tempo todo”, conta a professora e escritora, Regina Zilberman, responsável por organizar, em livro, 68 crônicas que foram publicadas, no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, dos anos 1970 até, praticamente, a véspera da morte do autor de mais de 80 livros, entre romances, contos, ensaios, ficção infantojuvenil e crônicas. “A nossa frágil condição humana” (Companhia das Letras, 216 páginas) reafirma o compromisso daquele jovem judeu com a comunidade judaica.

“É claro que minha posição é parcial. Porque, além de estudar a obra do Moacyr, acompanhei a trajetória dele. Ele era um grande amigo meu, uma pessoa que eu admirava muito. Então, a gente sente essa falta, mas acho que existe outra falta e que é muito importante. É a posição do intelectual judeu que não é partidário e que examina questões que têm a ver com o Brasil também. O Brasil não está fora dessa questão político mundial. Ele via daqui do nosso país um problema que se passava a distância e que repercutia na nossa vida cotidiana. Acho que isso faz falta. É uma posição que ainda não foi preenchida. Espero que seja”, avalia a estudiosa, que selecionou cinco textos dedicados à literatura, 12 ao antissemitismo e 51 à política de Israel e dos países árabes.

Como é próprio do gênero crônica, em “A nossa frágil condição humana”, temos um autor com uma escrita leve, simples, como se estivesse numa roda de conversa com o leitor. Chama atenção a atitude ponderada e lúcida de Scliar, mesmo diante de temas tão delicados e dolorosos. “Resistir é um imperativo. Resistir, como o demonstrou Gandhi, não tem necessariamente a conotação de luta, muito menos de luta armada. Manter a honestidade onde impera a safadeza, a dignidade onde impera a subserviência; ser justo quando a tentação é ser injusto, eis aí o que significa resistir”, escreveu ele em “Uma lição para todos nós”, de abril de 1982.

A obra ganha as prateleiras no ano em que se celebram os 80 anos de Moacyr Scliar. De acordo com Regina, com coordenação da viúva do escritor, Judith Scliar, até o fim de 2017, haverá uma vasta programação comemorativa, com ciclos de cinema, republicação de uma série de crônicas sobre Porto Alegre e reapresentação da peça “A mulher que escreveu a bíblia”, baseada no romance do escritor. “Ela vai procurar manter 2017 como um ano dedicado à leitura e difusão da obra de Scliar.”

Moacyr Scliar: Resistir é um imperativo. Resistir, como o demonstrou Gandhi, não tem necessariamente a conotação de luta, muito menos de luta armada. Manter a honestidade onde impera a safadeza, a dignidade onde impera a subserviência; ser justo quando a tentação é ser injusto, eis aí o que significa resistir”, escreveu ele em “Uma lição para todos nós

 

Marisa Loures – No prefácio, você diz que as 68 crônicas podem ser divididas em três grupos. Cinco são dedicadas à literatura, 12 ao antissemitismo e 51 à política de Israel e dos países árabes.  Essa divisão reflete o que Scliar mais produziu?

Regina Zilberman – Acho muito oportuno esclarecer isso. Realmente, na ficção, o Moacyr tratou de temas relacionados à imigração judaica, à primeira geração de judeus brasileiros, à instalação no país, aos problemas psicológicos, morais e econômicos vividos por esse contingente de pessoas. Alguns romances tratam de temas da bíblia, como “A mulher que escreveu a bíblia” e “Os vendilhões do templo”, mas o tema político que predomina nas crônicas não havia sido reunido.  Essa era uma preocupação constante do Moacyr e, além disso, a empresa jornalística confiava muito na opinião dele sobre essas questões relativas a Israel, aos palestinos, à crise no Oriente Médio, à vida cotidiana em Israel, etc. Mas esse núcleo de texto realmente estava disperso. Não que a gente não soubesse das preocupações políticas, mas elas vão aparecer efetivamente nesta obra. É ali que ele vai mostrar, inclusive, sua posição muito ponderada, muito lúcida em relação a um conflito que não parece se solucionar tão cedo. Se ele continuasse vivo, ele continuaria examinando, opinando sobre o que está acontecendo no Oriente Médio.

 

 

Regina Zilberman selecionou 68 crônicas de Scliar publicadas, originalmente, na imprensa

Regina Zilberman selecionou 68 crônicas de Scliar publicadas, originalmente, na imprensa

- Quando a gente lê crônicas como “A nostalgia de Hitler”, escrita no início da década de 1970, a gente vê um escritor preocupado com um nazismo que ainda existe, muito ponderado, mas que não se cala diante da situação…

- Exatamente. Ele não vai ser agressivo em relação a um assunto tão candente, que emociona tanto, mas vai dar sua opinião. Ele vai examinar, vai procurar explicar e vai se posicionar. E isso em relação a questões, como o ressurgimento do nazismo, que a gente vê a cada momento. Esse é um dos textos mais antigos, mas é uma das questões mais atuais. E também em relação a situações humanas, pessoais. A questão de casamentos entre etnias diferentes em Israel, em relação ao caso do rabino Henry Sobel, que, aliás, é a crônica que dá titulo ao livro. Aquele rabino que foi tão importante na luta contra a ditadura e que, depois, foi pego numa situação tão constrangedora em Miami. E essa lucidez dele, essa humanidade, inclusive, é que mostra quem foi o Moacyr como intelectual e como ser humano.

 

- E nas crônicas mais recentes, ele via uma luz no fim do túnel em relação ao nazismo?

- Se não era uma luz muito próxima, muito concreta, pelo menos era uma esperança. Procurei salientar, na apresentação do livro, a quantidade de vezes em que a palavra “paz” está presente nos títulos, e essa luz no fim do túnel é a paz. Não tem que ter a supremacia de uma nação sobre a outra, de um povo sobre o outro. Tem que haver uma harmonia, e harmonia significa cada um ceder um pouco. Essa é que parece ser a posição do Moacyr e que eu acho que tem de ser de todo mundo. Do contrário, não se constrói nenhum tipo de sociedade justa.

Regina Zilberman: Não tem que ter a supremacia de uma nação sobre a outra, de um povo sobre o outro. Tem que haver uma harmonia, e harmonia significa cada um ceder um pouco. Essa é que parece ser a posição do Moacyr e que eu acho que tem de ser de todo mundo. Do contrário, não se constrói nenhum tipo de sociedade justa

 

- Entre tantas crônicas, por que “A nossa frágil condição humana” foi escolhida para dar título a este livro?

- Escolher um título é difícil. Eu gosto dessa frase, em primeiro lugar. Em segundo lugar, acho que ela transcende a situação histórica, política e étnica que ele está examinando no livro. Ele está vendo a condição judaica não apenas pelo lado judaico. Ela faz parte da nossa situação humana, é um problema com o qual todos estamos envolvidos, e o título procura salientar isso. Não é um livro de judeu para judeu, é um livro de um ser humano para todos os seres humanos , que é também uma condição histórica, política, é social, é de gênero, é étnica.

 

- Em uma das crônicas, Scliar define Kafka da seguinte forma: “Kafka é judeu, sim, admite-o; Mas não é um membro da comunidade judaica, não freqüenta sinagogas, não constitui família judaica.” E como era o judeu Moacyr Scliar?

- O Moacyr não era exatamente esse judeu como foi o Kafka, porque o Kafka. Mas tem muito do kafka no Moacyr. O Moacyr também era um judeu, mas não era um homem religioso. Respeitava, como todo mundo respeita, datas festivas, mas ele não era um ortodoxo. Ele também escreve sobre temas judaicos e não judaicos. Ele não está obrigado a escrever só sobre a questão rio-grandense, porto-alegrense ou judaica. Ele tem temas amplos.  Sobre esse aspecto, ele também compartilha com Kafka essa universalidade, que transparece nessa frase citada por você.

 

- O Scliar escreveu um livro sobre o humor judaico. Inclusive, em algumas das crônicas, a gente percebe uma certa ironia, um certo humor. Qual é a principal característica  desse humor judaico?

- Uma das crônicas, “Do Éden ao divã”, fala exatamente sobre isso. É uma crônica, mas também um anúncio de um livro que ele organizou, de humor judaico, e que até vai ser relançado. A viúva do Moacyr, a Judith Scliar, está organizando o espólio, e fez um contrato com a Companhia das Letras para relançá-lo. Quanto ao humor judaico, realmente ele aponta como uma marca da cultura hebraica a propensão à ironia, ao humor, ao sorriso um pouco amargo. No Moacyr isso está presente, mas não é sempre. Ele não é um humorista como o Luis Fernando Veríssimo, para citar outro escritor do Rio Grande do Sul. Ele não faz aquele humor da piada, da anedota, da gargalhada. É uma ironia fina, às vezes com alguma amargura, porque ele também não quer que o leitor, diante desse humor, se desconcentre do problema. Muito pelo contrário. Ele quer a atenção dele. Esse humor do Moacyr é muito peculiar. Às vezes, nem tem muita graça, para dizer a verdade. Não é para achar graça, é para refletir.

 

a nossa frágil condição humana

“A nossa frágil condição humana”

Autor: Moacyr Scliar

Editora: Companhia das Letras (216 páginas)

Marcelo Moutinho escreve sobre grandes dramas corriqueiros em ‘Ferrugem’

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.

Marcelo Moutinho revela olhar atento para o cotidiano nos 13 contos de “Ferrugem”

O que desperta os sentidos do escritor carioca, criado em Madureira, Marcelo Moutinho, são as pessoas comuns que povoam a cidade do Rio de Janeiro. Vozes que, comumente, não encontram espaço na literatura contemporânea brasileira. “Meu compromisso é muito mais falar da minha experiência como brasileiro, como alguém que nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, numa família iletrada, numa família na qual a literatura era algo absolutamente distante. Falar dessa classe média baixa de onde vim. Nós temos uma literatura, às vezes, ensimesmada. Os personagens são escritores, jornalistas, cientistas sociais, e eu quero falar de outros estratos. São os estratos com os quais convivi na minha infância, sobretudo, no meu bairro”, dispara o autor do recém-lançado “Ferrugem” (Record, 158 páginas).

Jornalista, Moutinho sempre teve o olhar atento para o cotidiano, para a cidade que está viva. Suas novas criações versam sobre a corrosão, uma corrosão do tempo sobre as relações, os desejos, os apetites e os afetos. “O título foi tirado da epígrafe do livro, que são versos de um poema chamado “Cartão de Natal”, do João Cabral de Melo Neto, em que ele propõe uma inversão do processo natural e diz: ‘E que possa enfim o ferro comer a ferrugem’. Quer dizer, não o processo de a ferrugem comer o ferro. Os contos do livro estão o tempo todo transitando nesse embate entre o ferro e a ferrugem, entre o viço e a corrosão”.

Também autor de “Na dobra do dia” (Rocco), “ A palavra ausente” (Rocco) e “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco), entre outras obras, Moutinho tem contos traduzidos para países, como França, Alemanha e Estados Unidos.” De 20 de março a 5 de abril, ele estava entre os 34 escritores brasileiros que participaram da Primavera Literária Brasileira, a maior feira literária da França.

Marisa Loures – Senti que os contos trazem um quê de melancolia. Por quê?

Marcelo Moutinho - Tem um quê de melancolia sim. Eu sou um pouco crítico dessa lógica da alegria a qualquer preço, essa lógica de rede social. Quer dizer, a gente tem que estar o tempo todo mostrando uma vida que não é a vida real, é uma vida para exportação, digamos assim. Eu tenho ligação com o samba, e o samba tem uma lógica diferente. Muitas vezes você está cantando uma coisa muito animadamente, mas está falando de dores, está falando de questões metafísicas da nossa vida. Dor e delícia, misturadas. Acho que tento levar isso para a literatura.

- Seus personagens são pessoas reais que já cruzaram seu caminho?

- Não, eles não existem. São personagens ficcionais, mas, evidentemente, são inspirados na minha experiência empírica de caminhar pelas ruas, de conversar com as pessoas. Procurei, na verdade, povoar o livro dessas chamadas pessoas ordinárias: uma trocadora de ônibus, uma caixa de supermercado, um cover de Roberto Carlos que trabalha numa decadente boate erótica. São aquelas pessoas que, geralmente, não estão presentes na literatura brasileira contemporânea. São pessoas cujas vidas são relativamente desglamourizadas,que parecem não ter muito interesse. E eu me interesso profundamente por essas vidas cotidianas das pessoas com quem a gente esbarra pelas ruas todos os dias.

- Na orelha do livro o escritor Alberto Mussa fala que você faz poesia com pessoas reais. E como é fazer poesia com pessoas reais?

- O Alberto Mussa é muito generoso. Gosto de uma frase do Walter Benjamin, um ensaísta, num livro sobre a Berlim da época dele, 1900 mais ou menos. Ele fala que o escritor deve andar na rua como se estivesse numa floresta. E o que ele quer dizer? Ele quer dizer que, quando a gente está numa floresta, perdido na selva, por exemplo, a gente tem que aguçar nossos sentidos para perceber, no farfalhar de uma folha, o barulho de movimento de um animal. A gente tem que se orientar a partir dos sentidos e, muitas vezes, quando a gente está num espaço urbano, a gente fica cego de tanto frequentar aquele espaço. Então, a gente para de prestar atenção na paisagem urbana e nos personagens da rua. Acho que o processo do cronista ou do escritor de ficção passa muito por esse observar, aguçar os sentidos, mesmo no espaço urbano. Tirar daqueles acontecimentos, de uma frase perdida, de uma pequena cena, inspiração para reelaboração ficcional, para aquilo que vai virar depois romance, poesia ou conto.

- Você é jornalista. Foi seu lado observador que te levou para o jornalismo ou o jornalismo trouxe para você esse faro aguçado para o cotidiano?

- Acho que, talvez, ele tenha me levado para o jornalismo. Sempre fui interessado em boas histórias e também naquilo que é diferente de nós. Durante muito tempo, flertei com Antropologia Cultural, porque me interessa chegar a um meio social que não é exatamente o meio do qual eu fui, o qual eu frequento. A gente está num tempo de tanta radicalização, de tanta repulsa. Por isso, talvez, mais do que nunca, seja importante ouvir o outro numa perspectiva generosa, ouvir com a ideia de aprender que nem tudo é exatamente aquilo que a gente acha, que nem tudo é nossa experiência apenas. É desse confronto, desse diálogo, que a riqueza da vida pode fluir, pode nascer.

- Voltando ao Alberto Mussa, ele escreveu que, quando leu pela primeira vez seus contos, teve certo medo de que você não conseguisse permanecer como escritor. Disse que, a cada ano, os prelos cuspiam antologias carregadas de experimentalismos formais já quase seculares e que você remava vigorosamente contra toda aquela maré. Esse seu remar é consciente?

- Não acredito que seja um remar consciente não. Não tenho absolutamente nada contra o experimentalismo na literatura. Muito pelo contrário. Acho que há experimentações interessantíssimas, assim como há livros mais calcados na tradição literária, na linearidade, no registro da tradição, que são excelentes também. E há livros ruins nesses dois vieses. Uma questão que prezo muito como escritor é ser sincero àquilo que te leva a escrever. Essa sinceridade nada tem a ver com busca da verdade. A gente está falando de ficção, afinal de contas. Mas, sim, um pacto de sinceridade com aquilo que te leva de fato: por que você foi escrever ficção? Por que você foi escrever literatura, contos, romances, poemas? O que te motivou a isso? O que te motiva a isso não é uma moda de ocasião. Não é porque, agora, vamos dizer, estão na moda livros experimentais que vou fazer livros experimentais. Não é porque estão na moda romances policiais que vou fazer romances policiais. Acho que a arte mais profunda está ligada à necessidade de expressão, e como ela se dá. Isso independente de modismo de ocasião, de ondas de momentos. Não tenho nenhum compromisso com ondas estéticas que possam vir. Até porque essas coisas passam.

- Seus contos foram traduzidos para países, como França, Alemanha e Estados Unidos. Você diz que sua intenção é dar uma “cor local” aos seus escritos. Essa “cor local” tem abertura lá fora?

- É curiosa a relação de como a literatura brasileira é vista em outros países. Nessa viagem (para participar da Primavera Literária de Paris), passamos pela França, Bélgica e Portugal, e percebemos um interesse muito grande de que a literatura desse conta de questões brasileiras, dos problemas políticos e sociais do país. Como se a nós, brasileiros, não fosse permitido escrever sobre relações amorosas, por exemplo. Como se esse fosse um assunto exclusivo de escritores de certos países. Acho natural isso, porque um leitor da França tem na literatura do país dele, por exemplo, um amplo repertório de histórias de amor e de perda. Então, quando ele vai ler um escritor desconhecido de outro país, ele quer ver uma cor local. Acho que não podemos ficar escravo disso. Afinal de contas, não escrevo para o leitor de fora. Escrevo para um leitor ideal que, no fundo no fundo, talvez fosse eu mesmo. Acho que gente escreve uma coisa que a gente gostaria de ler. Se esse texto faz sentido fora do país ou não, acho que é uma consequência, mas nunca uma busca.

- Seu interesse pela cidade do Rio vem desde sua estreia como escritor. Sua obra fala, com nostalgia, de um Rio que não existe mais ou de um Rio que pode deixar de existir?

- Acho que tem dois flancos aí. Por um lado, sobretudo nas crônicas, no meu livro anterior, realmente busquei registrar um Rio de Janeiro em vias de desaparecimento, porque acho que as crônicas têm um pacto com o hoje. Mas acaba sendo uma forma de dar eternidade a certas paisagens urbanas, a certos comportamentos, a certas gírias. Quando você registra aquilo sobre forma de literatura, por mais que aquilo acabe, fica registrado e ganha uma certa eternidade. Baudelaire dizia que uma cidade envelhece mais rápido que um coração mortal. Quer dizer, a gente está sempre em descompasso com a cidade. A cidade apaga as nossas marcas de pertencimento, uma praça que a gente frequentou, um bar aonde a gente ia. A tendência é que essas coisas se transformem, e a gente fique com uma relação um pouco nostálgica com ela. Na crônica, realmente tenho esse compromisso. No conto, na minha parte mais ficcional mesmo, meu compromisso é com o agora. É falar de uma cidade que está viva, está potente e que, em geral, não aparece na literatura.

- Você disse em uma entrevista que esse é seu livro mais autoral. O que o diferencia dos outros?

- Não que não goste dos meus livros anteriores, é claro. Prezo muito os livros de contos anteriores, mas eu tinha uma quase obsessão com o retrabalho do texto literário para que ele ficasse absolutamente primoroso do ponto de vista formal. Acho que nesse livro deixei o texto um pouco mais solto, fiquei menos preso a esse retrabalho. Longe de isso significar desleixo, mas deixei passar algumas ranhuras e, por isso, acho que ele é mais próximo da nossa experiência de vida cotidiana. Nossa vida não é passada a limpo, ela tem um pouco de rascunho, é escrita enquanto a gente está vivendo. Então, é nesse sentido. Talvez eu tenha me encontrado com uma forma de escrever original minha, mas é uma impressão. Quem tem que dizer isso é o leitor na verdade.

 

“Ferrugem”ferrugem2
Autor: Marcelo Moutinho
Editora: Record (158 páginas)

Klara Castanho: “Todo ator tem vontade de estar em todas as frentes”

A atriz Klara Castanho  lança o livro "Meu jeito certo de fazer tudo errado" (Foto: Divulgação)

A atriz Klara Castanho lança o livro “Meu jeito certo de fazer tudo errado” (Foto: Divulgação)

Quando despontou como a primeira vilã-mirim do país, na novela da Rede Globo “Viver a vida”, de 2009, Klara Castanho se tornou popular entre mães e avós. Já dos adolescentes, ela se aproximou mesmo foi em 2016, quando atuou ao lado de Kéfera Buchmann no longa “É fada”, adaptação do livro “Uma fada veio me visitar”, da escritora Thalita Rebouças. E é no público que regula idade com ela, 16 anos, que Klara continua a investir em 2017, com o lançamento de “Meu jeito certo de fazer tudo errado (Arqueiro, 384 páginas)”.

Escrita a quatro mãos com a autora Luiza Trigo, a publicação aborda temas, como relacionamento em família, amizades, amores e dilemas típicos dos adolescentes através da história de Giovanna. Apelidada de Nanna, essa garota é apaixonada por rock clássico, é estilosa e acaba de mudar com a família de Campinas para São Paulo. Ela está no Ensino Médio e vai precisar encarar todas as aflições dessa etapa escolar em um cenário totalmente hostil.

Klara conta que, assim como acontece com sua protagonista, ela vive um momento de superar os desafios de uma nova vida. “Esse foi um ano de muitos recomeços e de fuga da minha zona de conforto, que era a televisão, a minha casa. Lancei o livro e o filme. Foi uma conquista atrás da outra”, revela a atriz, que estreitou os laços com as artes ainda bem pequenina e que se prepara para voltar aos cinemas ainda em 2017, na comédia “Chocante”, estrelada por Bruno Mazzeo, Renata Gaspar, Marcos Magella, Bruno Garcia, Lúcio Mauro Filho e Pedro Neschling.

Marisa Loures – O livro tem passagens biográficas?

Klara Castanho - Fielmente, não tem nada, mas, em algumas situações, me identifico muito com a Giovanna . Ela tem essa coisa de mudar de cidade, porque ela mudou de Campinas para São Paulo, e, toda vez que eu tenho que gravar algo, saio de São Paulo e vou para o Rio. Também me identifico com a questão de acabar se surpreendendo com algumas amizades e com a relação dela com os pais. Meus pais são muito controladores, mas de uma forma que me ajudou muito sempre.

- E como aconteceu esse encontro entre você e a Luiza?

- Há uns dois anos, quando ela estava lançando o livro “Meus 15 anos”, ela mandou o livro para mim e pedi um autógrafo. Sempre gostei muito de escrever, tinha uns textos parados em casa e não sabia o que fazer com eles. Queria fazer alguma coisa, porque eu achava que eles tinham potencial, aí enviei para a Luiza. Só queria pedir uma opinião, ver o que poderia melhorar neles. Ela levou os textos para casa, e uma semana depois veio com a ideia do livro.

A escritora Luiza Trigo divide a autoria de "Meu jeito certo de fazer tudo errado" com Klara Castanho (Foto de Rogério Fidalgo/Divulgação)

A escritora Luiza Trigo divide a autoria de “Meu jeito certo de fazer tudo errado” com Klara Castanho (Foto de Rogério Fidalgo/Divulgação)

- Como vocês dividiram a escrita do livro?

- Como ela tem mais experiência que eu, ela pegou grande parte, e quando havia decisões muito importantes para dar rumo à história, decidíamos juntas. Durante os cerca de sete meses e meio de produção, a gente sempre se ligava ou ficava mandando mensagens uma para a outra para decidir o futuro da Nanna.

- Por que “Meu jeito certo de fazer tudo errado”?

- Não sabia como é que os autores escolhiam os títulos. A Nana é uma boa menina. Mas como, de uma certa forma, ela estava se vendo em situações as quais não estava habituada, a gente achou que esse nome era o mais apropriado. Isso aconteceu quando o livro já estava completamente pronto. Ela faz a coisa certa, do jeito dela, porém, no fim das contas, acaba dando tudo errado.

- Seu livro traz um compilado de histórias que acontecem, frequentemente, com os adolescentes. Qual a mensagem que vocês querem trazer para esse público?A ideia é servir de suporte para ele?

- Pode-se dizer que sim, porque, quando a Nanna começa a andar com um determinado grupo de pessoas, ela tenta se ajustar aos padrões daquele grupo. No fim das contas, ela acaba vendo que quem realmente gosta dela vai aceitá-la de qualquer forma. E essa é a mensagem principal do livro. Você não precisa mudar para ser aceito, você não precisa agradar ninguém. Sendo você mesmo, vai ter sempre alguém para gostar de você.

- Nas novelas, você já tem uma carreira consolidada. Seu público te acompanhou nessa empreitada literária?

- Foi muito surpreendente porque, na novela, sempre tive um público mais velho, já que, quem assiste, é a mãe, é a avó. Como a Kefera tem um apelo muito mais adolescente, meu público nessa faixa etária aumentou de forma significante. Hoje em dia, posso dizer que meus fãs têm a minha idade.
O que você sonha para sua carreira daqui para frente?
Acho que todo ator tem vontade de estar em todas as frentes que a nossa carreira proporciona. Já tive oportunidade de experimentar teatro, televisão e cinema, e minha vontade é seguir esse caminho para o resto da minha vida. Espero fazer muitos personagens, divertir muito, entreter de uma forma bonita e que as pessoas se identifiquem.

livro meu jeito certo

“Meu jeito certo de fazer tudo errado”
Autoras: Luiza Trigo e Klara Castanho
Editora: Arqueiro (384 páginas)

A jornalista mineira Cíntia Nascimento estreia na literatura com “Coisas e crônicas”

Cíntia Nascimento reflete sobre a vida cotidiana em "Coisas e crônicas"

Cíntia Nascimento reflete sobre a vida cotidiana em “Coisas e crônicas”

Em “Mineirices”, um dos tantos escritos que integram o livro “Coisas e crônicas” (Multifoco, 122 páginas), Cíntia Nascimento confessa que, quem nasce em Minas Gerais, “carrega pela vida uma infinidade de mineirices que sobrevivem ao tempo e às mudanças.” E não é que é verdade? Basta ter um dedinho de prosa com ela para perceber que, apesar de ter nos deixado, por motivos profissionais, nosso jeitinho interiorano está lá, enraizado. A maneira acolhedora e o sotaque são reconhecidos de longe.

Nascida em Cambuí, no Sul do Estado, e por 15 anos moradora de Juiz de Fora, cidade onde se formou em jornalismo, Cíntia tem na escrita uma simplicidade, certamente, adquirida nos tempos em que ouvia as histórias de Vó Maria, a protagonista da crônica número um da publicação. A cronista nos permite dividir com ela recordações de uma época em que, pequenina, acreditava que, num casarão, instalado no lugar onde um dia existiu um cemitério, viviam duas bruxas. São crendices de uma infância em que a alegria era assistir aos shows sincronizados de bichinhos de luz, aguardar por dez meses a noite de Natal chegar para ganhar uma Emília do Sítio do Picapau Amarelo, ou tentar desvendar os mistérios das galinhas que desapareciam do terreiro, aos sábados, sem deixar vestígios.

“O que eu quis passar é o resgate daquela vida interiorana, em que as pessoas se conhecem, se cumprimentam, dão bom dia. Uns conhecem a vida dos outros. São coisas que marcam a vida de qualquer um de nós. Muita gente que já leu o livro disse que está se identificando muito. Principalmente quem é do interior, independentemente de ser do estado de Minas Gerais, conhece bem esse estilo de vida”, conta a jornalista, que pensou em “Coisas e crônicas” como um convite para lançar um olhar às pequenas e simples coisas da vida cotidiana.

“Ainda hoje, quando me pego namorando de longe as montanhas de Minas, consigo avistar as paredes brancas de cal com janelas de céu desbotado. Parada na porta está a dona da casa, tão digna, hospitaleira, que acena até o carro desaparecer na estrada de terra. Depois entra para retomar a lida, com o sorriso de quem teve um bom dia. E eram mesmo bons, ótimos dias. Os de minha avó colhiam lembranças. E os meus plantavam saudades.”

Marisa Loures – Seu livro contém crônicas e poemas. Por que “Coisas e crônicas”?

Coisas, porque são as coisas do cotidiano, coisas que a gente vive, da nossa história, das observações que a gente faz no dia a dia. São essas coisas que dão o tom para as crônicas e para os poemas.

Logo no primeiro texto, a gente vê que a vó Maria é referência para você. É da sua vivência com ela que muitos dos seus escritos nasceram?

Como muitas crianças, o contato com a minha avó foi muito íntimo, direto, porque eu passava as tardes na casa dela. Então, ela era o reflexo de toda essa cultura mineira, de cultivar coisas pequenas. Quando falo que quero ser a vó Maria é nesse sentido. Nesse texto, falo um pouco sobre o que é o envelhecer. Do tanto que a gente se preocupa hoje em dia com o envelhecimento, de estar bem, de se cuidar. Tento falar um pouco de como ela enfrentava isso apenas vivendo a vida, vivendo os dias da maneira mais simples possível e de uma forma tão bonita. É o que eu quero carregar para mim.

Por que você deixou Minas Gerais? Você parece sentir saudades da sua terra natal…

Deixei por motivos profissionais. Conheci meu marido, que é carioca. Sou do interior de Minas, como no livro fala. Morei 15 anos em Juiz de Fora, onde estudei e trabalhei, conheci muita gente. Sou apaixonada por essa cidade. E aí profissionalmente me mudei para São Paulo e depois vim parar no Rio. É uma saudade, mas não é uma saudade triste. É uma nostalgia boa dos costumes, porque estou sempre em Minas, tanto em Juiz de Fora quanto no Sul do estado. É uma saudade do modo de vida, das pessoas, mas também gosto muito do Rio de Janeiro, adorei morar em São Paulo.

No poema “Mineirices”, você diz que, quem nasce em Minas Gerais, carrega pela vida uma infinidade de mineirices que sobrevivem ao tempo e às mudanças. Ter escolhido morar no Rio em um bairro como o Recreio é prova desse laço com o berço?

Quem conhece vai concordar comigo. O Recreio é um bairro onde as pessoas ainda andam de bicicleta, andam a pé, se cumprimentam. Não é aquela imagem formada que a gente tem do Rio, daquela coisa de novela das 21h, do Leblon, ou daquela violência o tempo todo, de favela. É um lugar que ainda guarda um pouco da vida do interior, apesar de ser no Rio de Janeiro. No livro, falo um pouco disse também, porque as crônicas não são só de Minas. Meus amigos, principalmente, os mineiros, me perguntam se não tenho medo de morar no lá. Respondo que, apesar de parecer difícil, no Rio a gente ainda tem lugares em que você consegue ter uma vida tranquila.

Seu lado jornalista dialoga com seu lado cronista em um dos textos. Como foi essa passagem do jornalismo para a literatura?

Acho uma transição muito fácil, porque a gente acaba contando histórias quando escreve para o jornal ou faz matéria para rádio ou TV. E eu apenas contei as observações que eu tinha para contar. Esse texto, ao qual você faz referência, chama-se “O cheiro da morte”. Nele, falo de uma época em que eu trabalhava como repórter de polícia e cobria uma série de assassinatos que estava acontecendo, provocados por um serial killer e que me marcou muito. Algumas senhoras idosas eram encontradas mortas em suas casas já depois de vários dias, porque a única coisa que despertava as pessoas para a falta delas, que chamava atenção dos vizinhos, era o cheiro. Elas eram tão solitárias, tão abandonadas, que ninguém sentida falta delas. Acho que esse aspecto do jornalismo de a gente viver muitas coisas, observar muito, me ajuda na parte literária.

Você é admiradora de Adélia Prado, Clarice Lispector e Nelson Rodrigues. “Coisas e crônicas” foi influenciado pela escrita deles?

A gente sempre é influenciada. Gosto demais da Adélia Prado porque, primeiro, ela é mineira de Divinópolis. Sempre gostei muito de ler os textos dela porque trazem questões que eu também penso, com as quais me identifico. Clarice Lispector, porque também fala do cotidiano. Se você pegar qualquer livro dela ou contos e crônicas que ela publicava nos jornais, você percebe ali uma visão diferenciada sobre um fato do dia a dia. E só Nelson Rodrigues eu gosto porque ele tem aquela pegada trágica também da vida como ela é, das coisas do ser humano mesmo.

Outro dia li uma entrevista da Martha Medeiros em que ela diz que gosta de escrever simples. Seu estilo também é simples, e isso é curioso num período em que se vê muito experimentalismo na escrita…

Sempre tento escrever como se eu tivesse conversando, como a gente está falando aqui, como se eu estivesse contando uma história para um amigo. É como eu vejo mesmo a vida. Estou recebendo um retorno positivo disso, porque muita gente me diz: “poxa, é fácil ler seu livro, é gostoso de ler porque parece que a gente está conversando”. Então, é o meu jeito mesmo, o estilo é esse, acho que não consigo fugir.

Essa é sua estreia na literatura. O que você sonha para “Coisas e crônicas”?

Esse livro nasceu de um blog que comecei a escrever em 2013 que também tem o mesmo nome “Coisas e crônicas”. Nem tinha, de imediato, pretensão de publicar um livro, mas as pessoas me diziam: “por que você não publica”? O que quero passar para as pessoas é que elas tentem valorizar um pouco mais o lado simples da vida, as coisas que a gente, na correria, passa por cima e não observa e resgatar aquilo que, lá no início da nossa infância, foi tão importante. Por exemplo, tem uma crônica que se chama “Contos (de) passageiros” em que falo das viagens de ônibus que a gente faz pela cidade da gente sem, às vezes, observar nada, e das pessoas que sentam do nosso lado e contam suas histórias. Falo de como é bom compartilhar esse tipo de experiência, fazer uma pausa de todos os problemas que a gente tem também. É um livro para ser leve.

capa do livro cintia nascimento

“Coisas e crônicas”
Autora: Cíntia Nascimento
Editora: Multifoco (122 páginas)

‘Um pouco mais de mim do que foi visto na TV’

luisa micheletti foto dois - foto de Fernando Queiroz
Já conhecia a Luisa Micheletti apresentadora de TV e atriz, e seu jeito despojado de conversar com o público. Contudo, foi na segunda-feira, véspera em que ia ao ar sua última participação como a bailarina francesa Noémie na novela “Novo Mundo”, da Rede Globo, que pude conhecer a Luisa Cretella Micheletti. O nome do meio, ela diz, foi propositalmente incluído no seu “eu” escritora para o livro de estreia “Nem sofá, nem culpa” (Touro Bengala, 107 páginas).

“Acho que tem um pouco mais de mim nesse livro do que se pôde ver na TV até hoje. Tem a Luisa Micheletti, mas tem uma coisa no meio aí que, talvez, ninguém nunca tenha visto. Um lado esquisito que vem desse lugar, dessa liberdade da ficção, de poder explorar lugares mais cinzentos, talvez mais melancólicos, mais estranhos”, revela a autora dos sete contos, além de um posfácio, que integram a obra.

Os textos, que se iniciam com as memórias de infância de Luisa na “Vila Ida” e passam pelo relato de um gato siamês que teria sido neto de um dos maiores assaltantes da história, partiram de experiências reais da autora como atriz, mulher e apresentadora de TV. Nasceram como crônicas gestadas ao longo de sete anos. Depois, voaram para o terreno da ficção, por sugestão do editor. Aliás, são da editora as palavras que deixam no leitor a curiosidade de conhecer o estilo dessa nova ficcionista que surge. “Vemos a estreia de Luisa com surpresa, tanto pela rica paleta figurativa, alusiva, simbólica e arquetípica, quanto pela sobriedade do compromisso narrativo com os assombros epifânicos que se espera das formas breves.”

Marisa Loures – Seu editor propôs que você participasse de uma oficina literária e que criasse ficção a partir de textos reais. Você acreditava que pudesse adquirir um estilo a partir de uma experiência como essa?

Luisa Micheletti – Sem dúvidas. Quando você se propõe a apreender uma arte, você tem que se submeter a técnicas. Se vai pintar uma aquarela, há técnica para isso, se quer fazer uma pintura impressionista, tem técnica para isso. Se quer ser ator de cinema, existem “N” técnicas para serem seguidas. Se quer tocar um instrumento, é preciso saber as escalas. O estilo nada mais é do que aprender minimamente as questões técnicas da arte que você se propõe a fazer e colocar sua individualidade para além dos conceitos. É o trabalho de uma vida. Não acho que tenho agora um grande estilo literário, mas comecei a trilhar um caminho, humildemente, lançando meu primeiro livro. É uma ousadia impressa, estou me arriscando nesse lugar.

- A Touro Bengala diz que vê sua estreia como uma surpresa e que seu texto é marcado por alto poder inventivo e inusual pendor literário. Quais são suas referências? Elas aparecem nos contos?

- O fim da minha adolescência e meus 20 anos foram marcados pela literatura de John Fante, Kurt Vonnegut, Bucovisc, Clarice Lispector, um pouco de Hilda Hilst, que é uma coisa mais recente na minha vida. O John Fante foi uma cara muito importante para me levar para escrever. Acho que minha paixão pela literatura começou com ele. Depois, Milan Kundera. É difícil dizer, e o leitor vai dizer melhor do que ninguém. Quem sou eu para me comparar com esses grandes escritores. Não dá para me categorizar no meu primeiro livro, mas claro que tudo que a gente bebe ao longo da vida como referência acaba aparecendo de alguma maneira. Às vezes, relendo, falo “nossa essa frase aqui me lembra o ‘Matadouro 5′”, porque apresenta um comentário que parece vir de uma visão externa do que está acontecendo e, de repente, vem um comentário prosaico sobre uma questão que parece ser super séria. Digo, “nossa parece ser o Kurt Vonnegut”. Não é, é claro. Mas às vezes me dá essa impressão.

- Há algum elemento que alinhava os sete contos ou eles são totalmente independentes?

- O que os deixa mais ou menos alinhados são as experiências verídicas. Tem três contos que trazem experiências reais. Em um deles, sou eu, atriz L, dialogando com uma personagem Shakespeariana, que é a Lavinia. Surgiu de uma experiência que tive ao ler a peça “Tito Andrônico”, do Shakespeare, como Lavínia. Fiquei tão apaixonada pela personagem e pela obra que resolvi dialogar com ela. É um diálogo através de telepatia. Tem um relato de uma experiência que tive fora do Brasil, quando fui comprar os direitos de uma peça para tentar produzir aqui. Então, a primeira metade do conto é toda verdadeira; depois ele se espelha numa ficção um pouco fantástica. Tem outra viagem, que é uma relação amorosa começando. Tem memórias da infância no primeiro conto, que é o “Vila Ida”. São fragmentos de memórias desse bairro onde cresci. E o último conto, “Gatuno”, é o mais inventivo. O narrador é um gato siamês que narra sobre a trajetória de uma família de ladrões, de onde ele vem. Ele é neto do Ronald Biggs, um dos maiores assaltantes da história. Isso, para ele, é uma coisa muito digna de ser contada num relato.

- Trabalhando como apresentadora de TV, você lida com a vida real. Foi difícil escrever ficção?

- Quando fui escolher minha profissão, sofri uma pressão familiar para ir para o jornalismo, e eu não quis. Queria ter feito cinema, mas, na época em que escolhi, não tinha cinema no Brasil. Não tinha nem “Cidade de Deus” ainda, estava muito devagar. Então acabei indo para o meio termo, que era rádio e TV, e eu justifiquei isso dizendo que não queria lidar com a realidade. Quero lidar com a ficção. Mas é muito difícil, sim, ficcionalizar uma experiência real, e nisso meu editor me ajudou muito, porque ele me provocou a, inclusive, alterar a locução narrativa, a alterar o estilo. E isso te distancia de uma maneira que alivia um pouco. É muito difícil mesmo se você escreve tudo na primeira pessoa, como se fosse você. Agora, de repente, você não fala do gato, fala como se fosse o gato, aí eu fico mais tranquila, acho um pouco menos difícil.

Luisa Micheletti como a francesa Noémie da novela "Novo mundo" (Divulgação, Globo/César Alves)

Luisa Micheletti como a francesa Noémie da novela “Novo mundo” (Divulgação, Globo/César Alves)

- Você acabou de estrear como escritora e viveu a paixão de Dom Pedro na TV. Como está sendo esse seu momento?

- É um mês muito feliz, de muita criação, em que estão frutificando dois projetos muito importantes: tanto a novela quanto o livro, que está sendo feito há muito tempo. É um grande prazer. Depois de dar à luz esses dois projetos, vou entrar num vazio, que também vai ser muito importante para eu entender quais serão meus próximos passos, em que vou dedicar minha energia criativa agora. Gosto das duas coisas. É como o surfar da onda e depois ter que passar a rebentação de novo. Estou em pé na prancha, daqui a pouco acaba.

- Mas, com relação à escrita, há planos para novos livros?

- Não sei ainda o que vou fazer. Continuo tocando meus projetos como atriz, Tenho uma ou outra coisa de teatro, mas o momento da cultura está muito difícil no país, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Estamos vivendo uma crise muito séria, com relação à valorização da cultura. Parece que as pessoas no poder, atualmente, estão achando que a cultura é algo supérfluo, que é um luxo dispensável. E, na verdade, ela tem a ver com saúde mental, com educação, tem a ver com identidade nacional. Então, o mar não está para peixe. De qualquer maneira, vou tocar, independentemente de qualquer coisa, projetos de teatro, e aí vou decidir se vou encarar a escrita de uma novela, não novela de TV, mas como estilo literário, um pequeno romance, um livro de contos ou uma peça mesmo. Ainda não bati o martelo.

- Seu livro termina com um posfácio, que funciona como um making of. Nele, você revela algumas curiosidades sobre os contos. Isso não tira o mistério dos textos?

- Falo mais sobre o que é verdade e o que não é em cada conto. No conto tal, se o gato narrador é filho ou não do tal ladrão, como eu roubei esse gato, que parte é inventada e que parte não é. Tem umas curiosidades para além da ficção. Traz um charme para o livro. Acho que ele dá uma desconstruída divertida. Ainda não tenho tanto retorno, porque o livro acabou de ser lançado. Mas teve uma pessoa desconhecida que me procurou depois que leu e adorou. Ela me disse que é muito curioso você se envolver com a história e depois ler. É quase que uma sátira do próprio texto.

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“Nem sofá, nem culpa”
Autora: Luisa Micheletti
Editora: Touro Bengala (107 páginas)

‘A gente tem que falar da gente’

Márcia Falabella completa 31 anos de teatro e fala sobre  'Breviário de cena'

Márcia Falabella completa 31 anos de teatro e fala sobre ‘Breviário de cena’

Às vezes, a intenção pode ser se distanciar. Enlaçar palavras para escrever criticamente. Mas a vivência nos puxa para dentro da escrita. Foi assim que aconteceu com Márcia Falabella ao criar seu “Breviário de cena”, obra lançada em comemoração as suas três décadas de teatro. Período que se confunde com a história do grupo Divulgação, que completou 50 anos de estrada em 2016. “Não consigo falar de teatro sem me colocar, sem falar da minha experiência e, automaticamente, do Divulgação”, conta a atriz, que em março de 2017 celebra mais um ano dedicado aos palcos.

Para a confecção do livro, Márcia buscou 30 frases-epígrafes de diferentes atrizes, entre brasileiras e estrangeiras, que inspiraram sua caminhada. “Uma obra que se constrói pelo diálogo, ainda que silencioso, pessoal e unilateral, que travei com cada uma dessas artistas em algum momento. Elas me ensinaram um pouco mais do meu ofício e a cada uma delas dedico todo o meu carinho e admiração”, escreve ela, que fala poeticamente sobre sua arte com a mesma visceralidade com que viveu cada um de seus mais de 70 personagens. Sua escrita é emocionada e necessária. Como a própria autora afirma, ela faz da paixão o tempero das palavras.

“Num determinado momento em que escrevia, tive a sensação de que poderia ser um escrito de despedida. E se eu ficasse irremediavelmente doente, pensei. E se o teatro acabasse para mim… Não. O teatro é uma tatuagem na minha alma, uma pulsação infinda que orienta meu coração e acalenta meu espírito.”

Marisa Loures – Você teve que estabelecer limites, deixando algumas atrizes de fora do seu “Breviário”. Tem intenção de fazer outro livro?
Márcia Falabella – Acho que consegui com essas 30 frases mapear o universo teatral da maneira como eu queria. Falo sobre a ética do teatro, o que é teatro. Não passei por uma graduação formal. Minha experiência toda vem de cursos que fiz no Divulgação. São questões que vinham casando com o que eu queria dizer. Acho que prestei uma homenagem a uma determinada geração de atrizes, que, quando comecei a pensar em teatro, eram referência muito grande. Aí vi que ficou muita gente que merecia estar no livro e ficou de fora.

- A ideia inicial era manter um distanciamento e escrever criticamente sobre teatro. A paixão pela arte falou mais forte nessa hora?
- Quando pensei no livro, pegando as falas das atrizes, não pensei em falar da minha experiência. Mas, quando comecei a escrever, não conseguia falar de determinado assunto e não dar um exemplo do que eu já tinha vivido. Acho que acabava sendo muito mais próprio, muito mais verdadeiro. Então, decidi que perderia a vergonha de falar de mim e falar do Divulgação. Fiz uma oficina com uma atriz italiana que faz parte do Odin Teatret, de Eugenio Barba. Percebi que, quando ela falava do processo de criação, falava da companhia. E eu sou uma atriz de companhia. O teatro que eu faço é um teatro de grupo, então, enxerguei que a gente tem que falar da gente.

- Fica claro que você é uma atriz que pesquisa muito, que não se limita aos palcos. Você percorre as livrarias, compra os livros que encontra pela frente. Esse trabalho de pesquisa é imprescindível para o ator?
- O ator tem que se aprofundar na sua arte, que é um ofício. Não é qualquer coisa que a gente está fazendo. Brinco muito que, quando a gente entra em cena, não é igual a sentar num botequim para tomar cerveja. Embora seja uma festa, para pisar no palco da celebração, da festa, do sagrado, tem que ter respeito. Não que quem não tenha não vai subir ao palco. Mas acho que as pessoas acabam estacionando, e o teatro não estaciona. Vou muito ao Rio, que é o mais perto da gente, para assistir a peças, ver o que as pessoas estão fazendo, se tem algo novo, alguma pesquisa. Quando comecei, fiz o Curso de Introdução ao Teatro, a gente ouvia falar de pessoas do teatro sem nunca ter ouvido falar na vida. Aos poucos, vamos nos familiarizando. Como qualquer outra profissão, você tem que ter um conhecimento. Claro, eu considero que estou sempre aprendendo, que estou engatinhando, que preciso estudar muito mais. Como me divido em outras coisas, também não dá par ter tudo o que eu gostaria de ter, mas não paro, não quero parar, isso instiga a gente a crescer.

- Você citou uma frase da Meryl Streep que diz assim: “O mais difícil da carreira é ainda se surpreender e surpreender as outras pessoas.” Você diz também que essa é uma angústia de todo ator, mas, ao mesmo tempo, o grande barato da interpretação. Como viver essa ambiguidade?

- Acho que é sempre um recomeço. Tenho dois prêmios. Esses prêmios são ótimos, porque vieram de pessoas do teatro que olharam para o meu trabalho e falaram: “ah é legal”. Então há um reconhecimento, mas isso não garante que, no próximo papel que eu vá fazer, que eu vá conseguir um bom desempenho. Então, esse temor de que pode dar errado é sempre um frio na barriga, não tem fórmula. Isso depende da peça que se está fazendo, da personagem, das pessoas com as quais você está contracenando. Quem vai garantir que vai dar certo?

Neste ano, estou fazendo 31 anos de teatro, com mais de 70 peças, sendo que em algumas fiz mais de um personagem. Aí você fica assim: “como é que você descobre em você um caminho diferente, sabendo que temos limitações? Por exemplo, tenho um metro e meio, peso 60 quilos, tenho uma certa idade. Então, como eu faço para vencer todos esses pequenos obstáculos e recriar em cima disso? É uma angústia, mas, ao mesmo tempo, faz com que você não entre num círculo vicioso, numa coisa burocrática. Claro que ter essa trajetória me dá um suporte. Você entra em cena e já tem um arcabouço que te permite desenrolar com uma certa tranquilidade. Agora, cada espetáculo é um, cada público é um. A cortina se abre e você não sabe o que vai acontecer. Vai acabar a luz? Alguém vai cair? Alguém não vai te dar o texto? Você não vai dar o texto? Quantos milhões de coisas que podem acontecer no espetáculo? É diferente da TV e do cinema em que você tem a chance da correção. No teatro, você não tem isso. São os desafios que vão impulsionando a gente.

- Você diz que não traz verdades absolutas, que são suas verdades, aquilo que você viveu e aprendeu ao longo da caminhada. Diz que são verdades, não são certezas. A ideia é que suas verdades sejam um suporte para o ator iniciante?

- Como no Divulgação a gente tem sempre muita gente começando, achei que seria uma leitura interessante para as pessoas que quiserem ter uma dimensão da arte teatral. O meu caminho é um, meu caminho de formação vem do meu aprendizado com Zé Luiz (José Luiz Ribeiro) e com a Malu (Maria Lúcia Campanha da Rocha Ribeiro), sobretudo com o Zé, com quem convivo diariamente. Então, obviamente, sigo uma determinada linha, e o teatro é uma arte absolutamente generosa. Você tem “N” formas de fazer teatro. Fui por esse caminho, por isso falo que são as minhas verdades. A gente vai aprendendo outras coisas e também vai modificando a maneira de ver. O livro traz questões que eu pensava sobre teatro e que eu achava que pudesse, às vezes, clarear o caminho de alguém. Às vezes, na diferença, a pessoa também reflete. Ela não precisa concordar. Na discordância daquilo que estou dizendo, a pessoa acha outra coisa. Por isso, essa dialética é bastante interessante. Mas pensei também num livro que não fosse só para gente de teatro, porque qualquer pessoa pode ter tido a experiência de ter visto uma peça e pode ver os bastidores de como aquilo é feito.

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“Breviário de Cena”
Autora: Márcia Falabella
Motirô (210 páginas)

Um Romeu e Julieta da terceira idade

O jornalista Victor Hugo Brandalise lança o livro "O último abraço"

O jornalista Victor Hugo Brandalise lança o livro “O último abraço”

Era 30 de setembro de 2014, e São Paulo acordou, naquele dia, com um caso que intrigaria o jornalista catarinense Vitor Hugo Brandalise: “Idoso mata a mulher em asilo e tenta se suicidar na Zona Leste de SP.” Em um canto de página, a notícia nada trazia além do factual, deixando, em aberto, perguntas que só viriam a ser respondidas tempos depois, quando aquele curioso leitor se debruçasse na apuração dos fatos para escrever “O último abraço” (Record, 138 páginas), livro-reportagem que ganhou lançamento nacional agora em março.

Nelson Irineu Golla, de 74 anos, e sua mulher, Neusa, de 72, é quem protagonizam este drama. A quem se decidir por ler, somente, a pequena matéria publicada em 2014, vale o aviso de que é preciso se entregar a “O último abraço” para entender as reais motivações do homem que, de assassino cruel e louco, nada tinha. Nelson e Neusa ficaram casados por mais de 50 anos e, agora, só queriam aproveitar a velhice juntos.

Depois de dois AVCs, contudo, Neusa definhava em uma clínica para idosos. Inválido de um braço, Nelson não suportava vê-la implorando com os olhos para que a matem. Atendendo à súplica da esposa, ele se abraça a ela com uma bomba de fabricação caseira junto ao peito e acende o pavio, deixando cartas que justificavam aquele ato. Hoje ele responde por homicídio qualificado por uso de meio cruel, e o caso é conhecido na justiça como “Um Romeu e Julieta da terceira idade”.

‘À medida que a apuração foi se desenrolando, fui percebendo questões importantíssimas de fundo que são, de fato, a velhice solitária, a vida nos asilos, que, nas palavras de Nelson, eram depósitos para os velhos. Estive nos dois asilos pelos quais a dona Neusa passou e vi que eles não eram de más condições. Mas, ainda assim, vi que, talvez, fosse necessário discutir a velhice nas casas de repousos e nos asilos como uma questão social’, comenta Brandalise, vencedor de oito prêmios nacionais e internacionais de reportagem, entre eles o Vladimir Herzog 2016. O Sala de Leitura, a partir de hoje, também pode ser conferido no impresso da Tribuna, às terças-feiras, e as entrevistas podem ser ouvidas nas sextas-feiras, às 10h05 e às 15h05, na Rádio CBN (1010).

Marisa Loures – Nelson não aguentava ver a mulher deitada em uma cama de hospital e, certa vez, ele quase foi operado do joelho errado. Fatos como esse fizeram dele um homem descrente com o ambiente hospitalar?

Vitor Hugo Brandalise – Vi que havia na história do Nelson diversos momentos em que ele estava descrente com a medicina, como, por exemplo, quando ele, já sedado numa cama de hospital, precisou lembrar o médico qual era a perna certa que deveria ser operada. Durante uma entrevista dura, ele estava mexendo em um dente, e eu perguntei se estava tudo bem. Ele me contou que era dentadura. Disse que, aos quarenta e poucos anos, precisou resolver um problema em um dente e falou para o dentista: “ah , doutor, o senhor pode me dar uma anestesia geral e tirar todos os meus dentes, porque nunca mais quero votar a um consultório.” Isso mostra um pouco da aversão dele ao ambiente hospitalar. Então imagine a dor que é para ele visitar a mulher em uma casa de repouso durante quatro anos.

- Nelson era extremamente machista. Depois da doença de Neusa, ele se torna um grande companheiro. A enfermidade da mulher fez dele uma pessoa melhor?

-  Tentei fazer um retrato da vida desse casal, mostrando diferentes etapas. Ele tinha um pensamento retrógrado, começou como um marido que não queria que a mulher trabalhasse. Com os filhos já criados, ela começa a puxá-lo para poder aproveitar a terceira idade. Em determinado momento, a saúde dela começa a decair, e ele teve que aprender a cozinhar. Nelson passa a fazer todas as vontades dela. Acho que ele se arrependia disso: “Como é que pude deixar minha esposa fazer tudo por mim ao longo da vida, e eu aqui só trabalhando, sem passarmos um tempo juntos?” É uma reflexão de como a vida pode ser bastante rica, mas, ao mesmo tempo, bastante curta.

- O Nelson que você encontrou era resiliente ou revoltado?

- Falei com psicólogos especializados em luto porque estava preocupado em como seria entrevistar esse senhor, sem que esses encontros fossem tão duros para ele. A ideia era que eu perguntasse pouco, deixasse que ele falasse.  Ele sempre chorava, e eu também me emocionava. Mas, logo no primeiro encontro, ele começou a me resumir toda a história de vida dele, a decisão da morte e mesmo os momentos feliz, e aí notei que ele queria contar  tudo. Por isso, acho que, depois de tantas conversas, ele tinha uma noção da função social da história dele. Muitas famílias, que vivem o período da velhice e os desafios que essa fase da vida traz, passam por situação parecida, de ter de procurar uma casa de repouso. Por conta disso, acho que ele aceitava esses momentos de muita emoção.

- Nós jornalistas precisamos ser imparciais durante a apuração. Você conseguiu manter esse distanciamento?

- Ele foi acusado por homicídio. Para responder em liberdade, teve de correr atrás de amigos que conheciam o relacionamento do casal, para que eles fizessem o que os advogados chamavam de atestado de amor. Falei com essas pessoas, tentei entender melhor por que eles achavam que o que o Nelson fez tinha sido um homicídio piedoso. Ele deixou claro na carta que era para cremar os dois corpos. Depois de muito apurar, criei a convicção de que era um ato de amor. Analisando o quadro clínico dela, os médicos viram que ela não tinha como se recuperar. De fato tentei manter um distanciamento, e a aproximação que criei foi tentando compreender as razões de Nelson sem julgá-lo.

- O título da matéria de 2014 passa a impressão de que aquele homem era um assassino louco e cruel. Já ao ler “O último abraço”, a sensação é de que se trata de uma história de amor. Esse é o mérito da grande reportagem?

- O jornal tem que ser rápido. Tinha pouco espaço naquele momento, tinha que contar que um homem entrou com uma bomba num asilo, colocou em cima da mulher, explodiu, e disse que queria ir junto. Era o que dava para contar. Dizia, na notícia, que eles eram casados há mais de 50 anos. “Poxa, não dá para resumir 50 anos de relacionamento em uma tripinha de canto de página de jornal”.

- O livro também põe o dedo em um assunto ainda tabu no país, a eutanásia…

- Ao deixar a carta de suicida, Nelson dizia que tudo não passava de uma eutanásia. Aquele senhor de 74 anos acreditou que o que fez foi a busca por uma morte consentida. Um dos médicos que entrevistei me disse: “se o senhor tem a impressão de que esse ato dele foi eutanásia, talvez seja o momento de o Brasil discutir essa questão, porque ela acontece no dia a dia nos hospitais, ainda que de uma forma absolutamente não regulamentada.” Não é um livro a favor da eutanásia, mas é um pacote de entrada para discutir esse assunto ainda pouco abordado aqui no país.

- E os especialistas que você entrevistou apontam números de eutanásia no país?

- Não há números de casos de eutanásia no Brasil ainda, exatamente por essa prática não ser regulamentada. Um especialista em bioética que entrevistei me disse que, no dia a dia nos hospitais, já escutava relatos crescentes de relacionamento entre médico e paciente em que, eventualmente, o profissional tomava uma decisão de que aquilo ali não estava bom e de que era melhor mesmo haver um fim.  Naturalmente, por não ser regulamentada, a eutanásia vira tabu. Talvez seja a hora de falar sobre esse assunto para que a autonomia do indivíduo perante a morte seja debatida.

Trechos do livro

o ultimo abraço 2‘No domingo em que decidiu morrer, Nelson Irineu Golla acordou de súbito às 6h e não pôde mais dormir (…) Repassou mentalmente seus planos. Se tudo desse certo e a coragem viesse, dentro de algumas horas ele e a esposa, dona Neusa, estariam mortos. Finalmente.’

‘Deitou-se em cima da esposa. Abraçou-a como pôde com o braço bom. Escutou o fogo consumindo o rastilho. Disse suas últimas palavras à mulher: “Pronto! Agora vamos embora.” Fechou os olhos e esperou.

‘Sei que para alguns vai ser considerado um ato de loucura. Mas cansado e preocupado com o meu futuro e de minha esposa, dei um fim ao sofrimento de ambos. Que meus filhos me perdoem, mas será um descanso para todos. Desculpem o trabalho que vou dar, mas isso é necessário. Sabedor de que nem eu nem ela temos recuperação, que Deus receba de braços abertos a companheira querida e que me perdoe.’

O Último Abraço

Autor: Vitor Hugo Brandalise

Editora: Record (138 páginas)

 

Encontro com a palavra

Olá!

Costumo dizer que não consigo me decidir entre o jornalismo e a sala de aula, onde leciono não só a disciplina de Língua Portuguesa, mas também Literatura. Sou formada em Letras e em Comunicação Social, duas carreiras que me levam, diretamente, ao encontro da palavra. Por isso, depois de me pegar, por várias vezes, angustiada, pensando em que caminho seguir, encontrei, no Sala de Leitura, o espaço para fazer minhas duas paixões viverem  lado a lado.

O Sala de Leitura nasceu em 2015 nas ondas da rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010) e lá recebe convidados às sextas-feiras, às 10h05 e às 15h05. Agora, também pode ser conferido aqui no blog e, às terças-feiras, no impresso da Tribuna de Minas.  A ideia é que ele continue sendo um espaço para bate-papo com nomes nacionais da nossa literatura, como Ignácio de Loyola Brandão, Eliane Brum, Thalita Rebouças, Maitê Proença, Martha Medeiros, Adriana Calcanhotto, Elisa Lucinda, Marina Colasanti, entre tantos outros nomes que já passaram pelo quadro. Sem contar os grandes autores das letras juiz-foranas.

Para a inauguração desse nosso novo ponto de encontro, convidei o jornalista de Videira (SC) Vitor Hugo Brandalise, ganhador de oito prêmios nacionais e internacionais de reportagem e mestre em Comunicação pela Universidade de La Coruña. Ele traz uma comovente reportagem que abre importante debate sobre a velhice solitária, a crueldade dos asilos para idosos, a eutanásia e o suicídio no Brasil. Tenha uma ótima leitura!

Até mais!

 

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