Centro cirúrgico do HPS interditado
O centro cirúrgico, a Central de Materiais Esterilizados (CME) e o setor de internação do Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Juiz de Fora foram interditados ontem pela Vigilância Sanitária. A decisão foi tomada após visita ao local do promotor de Defesa da Saúde, Rodrigo Barros, acompanhado de representantes do Poder Público e de entidades de saúde do Município pela manhã. Conforme o documento da vigilância, constatou-se que o hospital estava desabastecido de medicamentos e insumos, com infraestrutura precária e condições higiênico-sanitárias insatisfatórias. No fim do dia, a Secretaria de Saúde informou que o setor de internação tinha voltado a funcionar.
Segundo o promotor, o encontro foi agendado após denúncia dos próprios médicos e enfermeiros do hospital, que enviaram ao Ministério Público (MP) um dossiê contendo relatos e provas dos problemas mencionados. “Tivemos uma representação diferenciada das demais porque ela foi formalizada pelos servidores da unidade, preocupados com o risco iminente e contínuo aos pacientes que estavam sendo atendidos no local. E, na visita, constatamos as irregularidades. Foi uma das verificações mais graves que já vimos no hospital, e por isso a vigilância pediu a interdição cautelar.”
Um dos problemas mais sérios diagnosticados refere-se ao descarte irregular de resíduos líquidos. Conforme Rodrigo, os expurgos de pacientes estariam sendo jogados dentro de um vaso sanitário instalado no centro cirúrgico e, consequentemente, caindo no esgoto sem qualquer tipo de tratamento. “Esta é uma situação muito preocupante porque o Município está infectando o próprio rio. O correto seria que estes materiais passassem por um sistema de tratamento de descontaminação, conforme padrão exigido para um hospital.”
Descompasso
A subsecretária de Urgência e Emergência da Secretaria de Saúde, Adriana Fagundes, disse que os serviços de internação e de atendimentos clínicos voltaram a funcionar no fim do dia. “Houve um descompasso entre a aquisição de insumos e medicamentos, mas já conseguimos a reposição.” Já a interdição do centro cirúrgico, conforme Adriana, foi causada devido a um processo de manutenção que está sendo realizado no local. “Estamos fazendo reparos em algumas salas, mas vamos terminar todas de uma vez para poder voltar a funcionar mais rápido. Vamos continuar recebendo pacientes clínicos e os cirúrgicos serão distribuídos dentro da rede do SUS. Já os serviços de esterilização estão sendo feitos pela Santa Casa, enquanto a obra está sendo realizada.”
Desabastecimento e problemas técnicos
O documento enviado ao Ministério Público foi elaborado pelo vice-diretor clínico e coordenador do centro cirúrgico do HPS, e assinado por diversos médicos e enfermeiros do local. No dossiê, o vice-diretor afirma que é procurado semanalmente por vários colegas de trabalho, cobrando solução para os problemas do hospital. Entre os principais gargalos está o desabastecimento de insumos de enfermagem e de medicamentos, sendo que faltam frequentemente itens básicos, como luvas cirúrgicas, agulhas para raquianestesia, seringas descartáveis, ataduras, fios cirúrgicos e até álcool etílico.
Outra questão apresentada refere-se aos problemas técnicos e estruturais no centro cirúrgico, como vazamentos internos de água, defeito em três mesas cirúrgicas, mofo nas paredes e teto – algo que eleva o risco de infecção-, além de problemas em outros equipamentos essenciais, como ferrugens. No documento, também é informado que a situação já havia sido relatada, em várias ocasiões, à Administração Municipal.
Segundo o promotor, Rodrigo Barros, o Ministério Público aguarda agora a conclusão do laudo da Vigilância Sanitária, que deverá ficar pronto em alguns dias. “A partir daí, vamos chamar o Município para solucionar a questão, mas as interdições permanecem até a regularização completa das irregularidades, ou seja, a resolução do processo de esterilização de materiais, que hoje vem sendo feito por outros hospitais; a situação dos medicamentos e insumos, que talvez seja o maior complicador; e a adequação das salas de cirurgias. Precisamos exigir do Poder Público medidas emergenciais e imediatas, caso o hospital queira continuar funcionando como um estabelecimento de saúde de urgência e emergência.”
Conforme a subsecretária, Adriana Fagundes, as vigilâncias sanitária estadual e municipal irão retornar ao hospital no prazo de dez dias para analisar se houve continuidade na reposição de medicamentos e se a manutenção do espaço de cirurgias já foi finalizado. Sobre as outras denúncias apontadas no dossiê, a Secretaria de Saúde informou que este documento não foi enviado à pasta.
Casos recorrentes
No ano passado, a Tribuna mostrou a falta de anestésicos e antibióticos em alguns setores do hospital. Em janeiro, a Comissão de Saúde da Câmara Municipal fez a primeira visita à unidade e constatou a falta de Nimopidina, indicada para alguns tipos de hemorragia cerebral. Em outubro, a situação voltou a se repetir. Em nova visita, foi verificada a falta do anestésico Propofol e de dois antibióticos. Em novembro de 2014, o Centro Odontológico de Atenção a Pacientes com Necessidades Especiais (Coape) do HPS chegou a ficar cerca de uma semana com as cirurgias e os procedimentos suspensos por falta do anestésico Propofol.
*colaborou Eduardo Maia









