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08 de Junho de 2014 - 06:00

Passageiros enfrentam verdadeira batalha para entrar em coletivos e tentar salvar um assento depois de um dia inteiro de trabalho

Por Eduardo Valente

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"Você não entra, mas é jogado para dentro do ônibus." A impressão do estudante Igor Tolomelli, 21 anos, ao citar as dificuldades enfrentadas nos pontos da Avenida Getúlio Vargas, é coro entre os usuários do transporte coletivo. Se nos bairros faltam calçadas adequadas e estruturas para proteger as pessoas do sol e da chuva, nesta via do Centro, a vilã é a superlotação. A impressão é que os pontos estão em locais improvisados, já que não há qualquer tipo de conforto para os passageiros que, aguardando os veículos nas calçadas, precisam compartilhar espaço com os pedestres. Em horários de pico, como no fim da tarde, o problema fica ainda mais evidente, principalmente para os idosos e as mães com crianças ao colo. Ao longo da apuração desta reportagem, a Tribuna observou esta situação em duas ocasiões, o suficiente para compreender o porquê de os usuários ficarem indignados.

Cansados após exaustivo dia de trabalho, o que muitos usuários querem é ir para casa sentados. Só que não há cadeiras para todos. Com isso, quando um coletivo se aproxima, uma verdadeira batalha por espaço se forma. O objetivo é o mesmo: ser o primeiro a subir no ônibus, mesmo que, para isso, o mínimo de educação e respeito precise ser esquecido. Nas duas visitas ao local, foi possível notar idosos que queriam descer dos veículos sendo empurrados de volta. Homens mais fortes também disputam a todo o custo um espaço na frente da porta dianteira.

Furtos no meio do tumulto

Além disso, a aglomeração já resulta em crimes. "Alguns homens se aproveitam do tumulto para furtar carteiras e outros objetos. Como o empurra-empurra é grande, a vítima só percebe que perdeu seus pertences quando está dentro do ônibus. Isso tem acontecido com frequência na Getúlio", denunciou a enfermeira Cynthia Martins, 20, moradora do Amazônia.

Para fugir daqueles pontos, vale até sair da rota e andar além do necessário. Segundo o comerciário Osvaldo Antônio Brito, 53, morador do São Judas Tadeu, algumas pessoas caminham até a Avenida Rio Branco, antes de o ônibus chegar à Getúlio. "Quando chove, é ainda pior, porque as marquises não são suficientes para abrigar todos da chuva. É impossível não se molhar. A verdade é que falavam muito mal do terminal (Santa Lúcia, na Zona Norte), mas pelo menos naquela época os ônibus não surgiam tão lotados por aqui. Além disso, lá havia fila e conforto, com banheiros e bebedouro."

 

Sem acessibilidade: cadeirante espera coletivo no meio da rua

Se depender de ônibus urbano já é tarefa difícil, ser refém deste serviço e com limitações físicas é ainda pior. A estudante Priscila Santos, 16 anos, usuária de cadeira de rodas, sabe bem o que é isso. Moradora do Bairro Guaruá, na Zona Sul, ela e seu pai, João Carlos Reis, utilizam diariamente a linha 226 para ir e voltar da escola, no Granbery. O problema é que o ponto de ônibus mais próximo de sua casa, na Rua Bogotó, não tem infraestrutura para receber qualquer usuário. A ausência de calçada e o excesso de vegetação sobre o piso obrigam Priscila a esperar o ônibus no meio da rua, em um cruzamento movimentado, colocando sua vida em risco. Esta rotina se repete há pelo menos quatro anos e, neste período, muitas frustrações foram vivenciadas.

A cadeira de Priscila já tombou dentro do veículo porque não ficou suficientemente presa. Além disso, ela já perdeu aula ou chegou atrasada porque o elevador da porta do ônibus não funcionou. Situações como essas fizeram o pai registrar cinco boletins de reclamações na Settra ao longo dos últimos anos, Mas segundo ele, algumas vitórias foram recentemente conquistadas. "Felizmente, depois de uma última reunião na secretaria, a qual fomos muito bem atendidos, tivemos a garantia de que os dois veículos adaptados da linha estariam em boas condições. Isso de fato tem acontecido, mas ainda não temos o ponto de ônibus adequado para as necessidades da Priscila", lamentou. A frustração do pai faz sentido e é comprovada pela necessidade do condutor em parar o veículo antes mesmo do local destinado, para conseguir atender a estudante com segurança.

Para ela, este é o principal transtorno observado, já que, dentro do coletivo, ela diz ser bem atendida pelos profissionais e, agora, se sente segura. Não pelos dispositivos de segurança, mas pela própria cadeira de rodas. "Esta cadeira tem uma trava mais forte, e ela não se movimenta. Na minha antiga, ficava balançando, e, por isso, cheguei a tombar uma vez. Não era confortável." Conforme o pai, a nova cadeira, que permite mais segurança e conforto, é a principal razão para levar e buscar a filha de ônibus. "Ela é motorizada e muito pesada. Com isso, fica difícil desmontá-la e levar no carro todos os dias." Entre os transtornos, a jovem cita também a necessidade de evitar a volta para casa em horários de pico, porque o ônibus e os pontos ficam cheios, dificultando a locomoção. 

 

Licitação do transporte coletivo prevista para 2015

Em entrevista à Tribuna na noite da última quinta-feira, o secretário de Trânsito, Rodrigo Tortoriello, informou que existe a previsão de o novo processo licitatório do transporte coletivo ocorrer já em 2015, provavelmente no primeiro semestre. A novidade foi divulgada no mesmo momento em que ele, juntamente com o subsecretário de Mobilidade Urbana, Mauro Branco, respondia aos questionamentos sobre a reportagem. Entre outras informações divulgadas, Tortoriello explicou que, embora algumas linhas estejam saturadas e, por isso, circulando superlotadas, o Município está impedido de ampliar a oferta. Isso ocorre pela decisão do Tribunal de Contas do Estado (TCE) que congelou o preço das passagens desde o ano de 2011. Segundo o secretário, não é possível fazer qualquer mudança que altere o sistema atualmente em vigor.

Rodrigo também admitiu que o atual modelo em operação na cidade, no qual todos os ônibus convergem em direção ao Centro, está saturado. "Entendemos que o sistema não está bom. Vivenciamos, reconhecemos e, em boa parte deles, sabemos onde estão os problemas. Mas como resolver? Colocar mais um ônibus é a solução? Pontual é, mas aí vamos continuar caindo no mesmo erro. Hoje todos os ônibus vão para a Rio Branco ou Getúlio, e a canaleta (via) não comporta mais."

Em sua opinião, esta situação só poderá ser plenamente resolvida após o processo licitatório, embora reconheça que algumas medidas, de curto prazo, possam ser implantadas a partir de agosto deste ano. No entanto, ele não soube adiantar quais seriam, pois os estudos ainda estão em análise. O levantamento é realizado a partir da pesquisa de origem e destino, feita no ano passado, com usuários de 98% das 262 linhas em operação.

De acordo com Mauro Branco, a saturação ocorre devido a um processo que foi ocorrendo ao longo dos anos. "Em um determinado momento, identificaram a necessidade de uma linha para atender parte de um bairro. Posteriormente, viu-se a possibilidade de outra linha para atender o outro lado do mesmo bairro, e assim por diante. A formação das 262 linhas tiveram a mesma base de planejamento, mas chega um momento em que não há mais como ampliar."

Secretário e subsecretário também explicaram a situação de comboio e da denúncia de ônibus "matando" viagens em ponto final. "Muitas vezes, o ônibus fica no ponto para regular o tempo de viagem, porque o quadro de horários precisa ser confiável. É uma forma de ele não circular adiantado ou atrasado. Por outro lado, quando isso não ocorre, observamos o comboio, que é quando o veículo de um horário se encontra com o de outro", argumentou Mauro. Rodrigo disse que estas denúncias já podem ser constatadas por meio do sistema de GPS, já em fase de teste em toda a frota, no qual os gestores e a própria empresa podem acompanhar o itinerário em tempo real. Esta tecnologia também permitirá ao usuário saber o tempo que falta para determinado ônibus chegar ao seu ponto. Tortoriello informou que o aplicativo (a ser disponibilizado para smartphones) deverá entrar em funcionamento entre este mês e o próximo.

Manutenção dos veículos

Sobre as possíveis falhas de manutenção, com ônibus defeituosos, Tortoriello informou que a Settra faz vistorias rotineiras nas garagens das empresas. E algumas reclamações precisam chegar à secretaria para serem constatadas. Já com relação a pichações e vidros trincados, causados provavelmente por pedras, eles informaram se tratar de atos de vandalismo, causados por jovens de bairros rivais.

Já sobre os pontos de ônibus inadequados nos bairros, o secretário informou da dificuldade em instalar coberturas, pois os proprietários dos imóveis em frente precisam autorizar. E isso normalmente não ocorre. Com relação à situação dos pontos ao longo da Avenida Getúlio Vargas, foi informado que a pasta aguarda a liberação do recurso que visa à reestruturação urbana de toda a via.

A Astransp foi procurada na segunda-feira, mas respondeu, por meio de nota, que não teria agenda para entrevista esta semana. Além disso, a associação afirmou que "a fiscalização de cada uma das questões colocadas é de responsabilidade da Settra, e ela compartilha de todos os dados que poderíamos lhe fornecer".

 

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