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08 de Maio de 2014 - 07:00

Furto, cenas de sexo explícito, brigas e uso de drogas são frequentes na Praça da Estação; comerciantes e pedestres temem situação

Por Renata Brum

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Grupos tomam calçadas no entorno da praça
Grupos tomam calçadas no entorno da praça
Na manhã desta quarta, PM e Guarda Municipal agiram após uma rixa entre frequentadores
Na manhã desta quarta, PM e Guarda Municipal agiram após uma rixa entre frequentadores
Pichação em monumentos e lixo em vários cantos da praça
Pichação em monumentos e lixo em vários cantos da praça

Abandonada à própria sorte. Esta é a situação de uma das mais importantes áreas históricas da cidade: o complexo da Praça da Estação. O espaço abriga um dos principais conjuntos arquitetônicos tombados pelo patrimônio municipal, a sede da 30ª Companhia da Polícia Militar e é vizinho à Prefeitura de Juiz de Fora. Apesar de ainda ser palco de atividades culturais, ele está hoje ocupado por moradores de rua, pedintes e usuários de álcool e drogas. Lixo e pichações também compõem o cenário. Quem trabalha na região ainda relata cenas de sexo explícito, furtos e comércio livre de drogas. A situação assusta ainda quem precisa passar com frequência pela área, principalmente à noite, como passageiros de ônibus que desembarcam na Avenida Brasil e têm que cruzar a linha do trem e a praça, geralmente enfrentando um trecho escuro, para poder conseguir um táxi apenas na Rua Paulo de Frontin.

Ocorrências mais graves também têm sido registradas no entorno do espaço público, como disparos de arma e esfaqueamentos. Em fevereiro, uma mulher que seguia na carona de uma moto foi atingida por bala perdida na Rua João Pessoa de Rezende, após uma briga entre gangues na dispersão de um show. No dia 24 de janeiro, um homem, 36 anos, foi ferido a golpes de faca na praça. A suspeita era uma catadora de papel. No ano passado, tiros disparados na esquina da Rua João Pessoa de Rezende e Travessa Doutor Prisco, próximo à Avenida Francisco Bernardino, assustaram comerciantes. Estilhaços de bala ainda atingiram um idoso após o projétil bater na parede interna de uma barbearia. Outra bala acertou a porta de aço de um consultório odontológico. Comerciantes também já foram alvos de roubos, e o proprietário de uma farmácia chegou a ser ameaçado com uma faca de açougueiro.

"À noite, há muitas brigas entre moradores de rua e discussão entre travestis. A situação acaba espantando os clientes. Muita gente deixa de vir aqui", conta o funcionário de uma banca de jornais Raimundo Carvalho. O proprietário de uma loja de ferragens na praça diz que vários pedidos de melhoria do espaço já foram encaminhados ao Poder Público. "Falta a Prefeitura olhar para cá, e olha que somos vizinhos. O uso de drogas, prostituição e a pedição são frequentes. Na hora de sairmos da loja, ficamos com medo. Muitos clientes me falam que adoram a loja, mas que evitam vir aqui por conta da praça", contou o empresário Anderson Bellei. Uma estudante que viaja semanalmente ao Rio de Janeiro e desembarca na Avenida Brasil atrás da praça à noite diz que se sente insegura na área. "Apesar de haver um posto policial na praça, não vemos o policiamento ostensivo quando desembarcamos à noite. Além disso, é um trecho mal iluminado e no qual já fui intimidada por um rapaz que estava na linha do trem. Em outra ocasião, cheguei de madrugada de viagem, e só havia um táxi na Paulo de Frontin. Outro passageiro entrou no táxi, mas implorei para que ele não me deixasse sozinha na rua deserta e pedi que chamasse outro carro pelo rádio."

 

Revitalização

Proprietário do Hotel Renascença, Eliseu Pereira do Valle realizou a reforma interna do estabelecimento e agora revitaliza a fachada. "Mas não adianta lutarmos sozinhos. A Prefeitura precisa intervir na praça como um todo. Existe projeto de revitalização do espaço. Queremos um ambiente familiar. Perdemos muito com a situação do jeito que está. O medo de ir e vir é constante, mesmo à luz do dia." A situação é confirmada pelo advogado Jader Barcelos. "Outro dia uma dependente de drogas estava gritando na porta do meu estabelecimento, impedindo meus clientes de subirem. O prejuízo para quem trabalha aqui é enorme. Famílias deixam de passar aqui por conta da ocupação da praça."

Há mais de 35 anos no local, o dono de um bar relata que nunca viu a situação tão crítica. "Agora mesmo vimos uma mulher tomando a carteira de um homem aqui em frente. Está insuportável. E a polícia pouco age. Só Deus mesmo para dar jeito. Outro dia fizeram sexo debaixo daquela árvore ali. Tenho fechado às 21h e estou pensando em passar o bar. Criei e formei meus filhos com esse dinheiro daqui, mas estou com medo. Medo porque aqui não ha respeito", desabafou Carlos Humberto Ferreira.

Projetos de revitalização da área e de outro uso para o espaço já foram discutidos pelo Poder Público, mas nunca saíram do papel. O que há são ações paliativas com ocupação esporádica da praça com feiras e shows culturais. No ano passado, a Polícia Militar realizou uma ação cívica com opções de lazer e entretenimento para a população na tentativa de aproximar a corporação da comunidade. Abordagens da Prefeitura e a presença da Guarda Municipal também acontecem, mas não impedem o retorno dos grupos, que passam o dia a consumir álcool nos bancos e canteiros da praça.

Na manhã desta quarta-feira (7), a Tribuna permaneceu no local e constatou a situação do consumo excessivo de bebidas e de confusões, mesmo com a presença da Guarda Municipal e da equipe de abordagem da Prefeitura. Um chuço foi apreendido com um homem que disse estar sendo ameaçado, e outros dois homens foram abordados e passaram por revista da Polícia Militar. "Infelizmente a situação aqui é complicada. Estamos constantemente na praça, mas nosso trabalho é de convencimento. Não podemos obrigá-los a sair do espaço que é público. Oferecemos o encaminhamento, mas precisam querer deixar a rua, e muitos são de fora da cidade", contou um dos integrantes da equipe de abordagem, que preferiu não ser identificado. Segundo a assessoria da Prefeitura, o trabalho é permanente não só na praça, mas em diferentes regiões da cidade.

 

 

Valorização da área prevista em novo projeto

O superintendente da Funalfa e presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Compac), Toninho Dutra, informou que o antigo projeto de revitalização do espaço discutido em outras administrações não foi aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já que houve várias ressalvas feitas pelo Compac e também pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha).

"Agora estamos com um projeto mais viável, que prevê a valorização dos prédios históricos e da praça. Requalificado visualmente, o espaço tem seu uso também requalificado", destacou Toninho. "A discussão precisa ser ampla, pois a praça é utilizada por milhares de pessoas que moram na região Leste e vão para o centro a pé. Há muitos comércios populares e de verduras. Essa cidade existe. Não podemos simplesmente fechar os olhos e repensar o uso, priorizando outra parcela da sociedade. A discussão precisa ser ampla. Mas estamos incentivando os proprietários dos prédios a buscarem recursos para valorização do patrimônio." Ainda segundo a Prefeitura, as luminárias do espaço já foram trocadas por outras mais potentes. Em relação à insegurança, a Administração Municipal informa que o objetivo de levar a sede da 30ª Companhia da PM para a praça foi o de garantir mais segurança para a região.

 

Policiamento

O comandante da 30ª Companhia da Polícia Militar, capitão Erivelton Soares, informou que há policiamento específico para a Praça da Estação, mas enfatizou o fato de a ação ser limitada pela própria legislação. "Temos que agir dentro da lei. Não podemos prender a pessoa porque está usando álcool na praça. As características do espaço público com a presença de bares é um atrativo para dependentes, e todos estão legalizados, pois checamos. A praça é o nosso quintal, e posso garantir que a cada hora cheia o militar de plantão na companhia sai para realizar abordagens. Além disso, há outro policial que realiza ponto base no local de meia em meia hora e faz contato com os comerciantes. Fora isso, a PM recebe denúncias pelo 190 ou pelo Disque Denúncia Unificado, o 181", ressaltou o capitão, que não confirma a venda de entorpecentes. "O que temos mais visível é o uso de álcool."

Para o comandante, a revitalização do espaço traria benefícios para o comércio e mais segurança aos pedestres. "Mas a mudança na área não é tão simples, pois trata-se de uma área de patrimônios tombados", comentou.

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