Publicidade

15 de Janeiro de 2014 - 07:00

Cidade agora depende de Chapéu D'Uvas, que deve iniciar fornecimento no final deste semestre

Por Nathália Carvalho

Compartilhar
 

O abastecimento de água em Juiz de Fora está operando no limite de sua capacidade. Isso significa que os mananciais atuais não comportarão o aumento do consumo, havendo a necessidade urgente do início dos trabalhos da nova represa de Chapéu D'Uvas. A avaliação é do diretor-presidente da Cesama, André Borges de Souza, que garante a operação do manancial até o final deste semestre. A expectativa era de abertura da barragem como fornecedora de água no segundo semestre de 2013. Outras obras estão sendo executadas pela companhia na tentativa de garantir o fornecimento para os próximos anos. A questão da água chama atenção neste período de alto consumo, que coincide com a onda de calor e estiagem. Apesar de janeiro ser um mês de chuvas, até esta terça-feira (14) não havia registro de precipitações no município há 12 dias. Nesta terça, as temperaturas chegaram a 31,1 graus. O gasto excessivo acaba provocando desgaste e quebra de redes, levando, muitas vezes, à falta do produto. O problema vem sendo enfrentado nos últimos dias em vários bairros, conforme tem sido mostrado pela Tribuna.

"Chegamos no limite porque o último grande investimento na área foi a criação da terceira adutora para o Centro. Mas isso foi há quase 20 anos. Desde então, não fizemos nenhum investimento em grandes reservatórios e nem em transporte de água tratada ou bruta", explica. Segundo Borges, não há gargalo na distribuição da cidade mas, sim, em água disponível. "Nossa rede de distribuição é boa, mas falta água. Hoje temos o suficiente, mas no limite. Além das intervenções que estamos realizando, é necessário pensar logo em próximas ações, para que não voltemos a ter o mesmo problema daqui a 15 anos", diz.

Hoje 50% do abastecimento de Juiz de Fora vêm da Represa Doutor João Penido, que continuará em funcionamento após o início das atividades da nova barragem. O Ribeirão do Espírito Santo, manancial onde a captação é feita diretamente no leito do curso d'água, é responsável por 40% do abastecimento e deve ter sua operacionalidade reduzida. Por fim, não há definição sobre o futuro da Represa de São Pedro, que hoje abastece cerca de 8% do município. No início de 2013, a Tribuna divulgou matéria em que a Cesama afirmava que a Represa de São Pedro provavelmente deixaria de ser um manancial de abastecimento. O local poderia ser transformado em área de lazer, mas sem projeto formalizado.

A expectativa do diretor da Cesama é de que Chapéu D'Uvas consiga atender uma população de até 750 mil habitantes. Para se ter uma ideia do que significa este impacto, só nos últimos três anos, segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população da cidade aumentou cerca de 5,75%. Em 2010, eram 516.247 moradores, saltando para 545.942 em 2013. "O que a gente consegue produzir é dimensionado para a cidade de hoje. Aquilo que Juiz de Fora crescer irá esbarrar no fornecimento de água e, para contornar essa situação, leva tempo. Por isso, precisamos da solução pronta antes do crescimento", diz.

Segundo Borges, neste momento, está sendo realizada a parte da automação de Chapéu D'Uvas, que inclui o setor elétrico na captação. Antes da inauguração, ainda faltam três quilômetros de rede de adução, para trazer a água do manancial e levar até a estação de tratamento. "O principal problema do atraso foi o fato de a obra ter ficado parada em 2012. Retomamos no ano passado porque precisamos muito dessa represa. Ela dará uma tranquilidade para a cidade", comenta. Chapéu D'Uvas foi criada na década de 1990 com a função de regularizar a água do Rio Paraibuna, evitando a inundação e permanecendo com as comportas abertas no período de estiagem.

 

Preocupação

Segundo o professor do Departamento de Geociências da UFJF, o geógrafo Pedro Machado, o maior problema de Juiz de Fora é a gestão dos bens naturais. "Historicamente houve um esgotamento de recursos, tendo em vista que nunca houve política destinada à preservação dos mananciais de abastecimento", explica.

Para ele, a utilização de Chapéu D'Uvas dará um acréscimo significativo de água tratada e distribuída para a cidade. Contudo, o professor, que é doutor em recursos hídricos, critica o fato de o município buscar soluções em barragens distantes - Chapéu D'Uvas está a 33 quilômetros da nascente do Rio Paraibuna -, repetindo o erro de cidades grandes. "Há um risco político-administrativo nesta aposta, tendo em vista que a represa está fora da área de Juiz de Fora. Além de uma gestão compartilhada, precisamos resolver a situação de nossos mananciais, para não ficarmos dependendo de buscar água em outros locais."

 

 

Problema se agrava com alto consumo e estiagem

Durante o período de altas temperaturas e estiagem, crescem as ocorrências envolvendo falta d'água, problema que castiga moradores de diversas regiões da cidade. Na virada do ano, o Bairro Santa Cruz, na Zona Norte, sofreu com o desabastecimento. Segundo moradores, a escassez se estendeu por, pelo menos, cinco dias. Indignados, vizinhos se reuniram para fazer um abaixo-assinado. "Já temos mais de 11 páginas de assinaturas. Faz três anos que estamos lutando contra a falta d'água no bairro mas, de outubro pra cá, a situação piorou muito", comenta a diarista Amélia Campos de Paula, 44, que acrescentou que o documento deverá ser encaminhado ao Procon.

Segundo ela, antes, a água começava a chegar nas caixas por volta das 19h. "Agora, é só de madrugada e, a partir das 8h, a água acaba e não volta mais. Trabalho de segunda a sexta e não tenho tempo de lavar roupa durante a semana. No sábado, sou obrigada a levantar às 4h para poder fazer o serviço antes que a água acabe", conta. Ainda segundo ela, o problema é pior na parte alta do bairro, principalmente na Rua Jacob Valério. O quadro é confirmado pela doméstica Therezinha de Jesus Santos, 50. "Quem tem a caixa de água pequena não consegue reabastecer. Com esse calor, fica difícil."

A mesma situação é vivida no Jardim Gaúcho, Zona Sul. Morador da Rua Doutor José Lanziotti, o psicólogo Raphael Oliveira, 26, garante que o problema ocorre todo início de ano. Neste mês, o bairro ficou sem água por mais de quatro dias. "As respostas dadas pela Cesama são sempre de redes quebradas. Mas sabemos que a empresa desliga a bomba que fornece o abastecimento de água para o bairro. É revoltante", reclama. A assessoria da Cesama, porém, negou que o registro seja fechado nos bairros. O envio de água, segundo a companhia, só é interrompido em caso de manutenção.

 

Capacidade máxima

Apesar do problema do abastecimento, a explicação, segundo o diretor-presidente da Cesama, André Borges, se dá em virtude do alto consumo no verão. "O calor potencializa os transtornos e, neste período, trabalhamos com a máxima capacidade. Com a pressão maior, é mais passível a ocorrência de rompimentos e a solução do problema demanda tempo." Ele diz que muitos casos também estão relacionados com a queda de energia, que compromete o funcionamento de pontos da rede. "Enquanto fazemos a manutenção, precisamos desligar a distribuição. Nesse período, as pessoas acabam ficando sem água, porque o consumo é muito mais alto. Este tipo de problema ocorre o ano todo, mas no inverno, por exemplo, é menos sentido porque os reservatórios duram mais", explica.

Ainda segundo ele, as partes altas dos bairros realmente demoram mais a receber a água. "A água está sendo fornecida e gasta ao mesmo tempo, por isso moradores da parte baixa precisam pensar nos vizinhos e economizar, principalmente nesta época de reparos", recomenda.

 

 

Gasto deve ser evitado entre 10h e 16h

Segundo a Cesama, comparando os meses nos quais o calor é mais intenso (dezembro até março) com os de temperaturas mais amenas (maio a agosto), há um aumento médio de consumo de 8%. O valor corresponde a 719 milhões de litros, suficiente para abastecer uma cidade com 37.500 habitantes. De acordo com o assessor de Meio Ambiente da Cesama, Paulo Valverde, se for considerado um momento específico, com horário e dia de maior pico, este aumento pode chegar a 17%. "No horário entre 10h e 16h, temos um aumento no consumo muito alto. É importante que as pessoas evitem este horário, principalmente nesta época."

Ainda segundo Paulo Valverde, no verão, cresce a quantidade de banhos e de limpezas em geral, fazendo com que haja grande desperdício. "Ao invés de varrer, as pessoas lavam as calçadas. Além disso, aumenta o número de banhos em cachorros, plantas sendo aguadas e carros sendo lavados com mangueiras, algo que poderia ser feito com balde." O assessor sugere uma mudança de hábito e maior preocupação com a economia (ver quadro). "Determinadas funções podem ser feitas à noite, como lavar roupas e aguar as plantas, por exemplo. Isso dá um fôlego para que os reservatórios encham com tranquilidade durante o dia."

 

Intervenções

Além da retomada da implantação da Adutora de Chapéu D'Uvas, a Cesama dá continuidade a obras para contornar o problema do abastecimento. Está sendo realizada a ampliação da Estação de Tratamento de Água Walfrido Machado Mendonça (ETA CDI), com previsão de conclusão em abril de 2014. Ainda para este ano, estão previstos investimentos de R$ 1,61 milhão voltados para substituição das redes de água em grande parte do município. Atualmente, o projeto para essas obras encontra-se em fase de licitação.

Também está em andamento a construção da estação de bombeamento (booster) para a terceira adutora, em fase final de execução. Localizada na Avenida Brasil, ao lado do Parque de Exposições, a unidade irá aumentar a oferta de água distribuída e viabilizar sua futura interligação com a Cidade Alta. A companhia segue também com as obras da Adutora de São Pedro, efetuando a implantação de 1,8 quilômetro de redes, que terão como função conduzir a água do Bairro Caiçaras até o sistema de abastecimento da Cidade Alta. Além disso, estão sendo implantados 2,3 quilômetros de tubulações de recalque entre o bairro e a comunidade de Carlos Chagas.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que os resultados do programa "Olho vivo" vão inibir crimes nos locais onde estão as câmeras?