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04 de Março de 2014 - 06:00

População reclama da falta de educação; condutores admitem falhas e culpam pressão com horário e fluxo intenso

Por NATHÁLIA CARVALHO

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Táxi avança o sinal na Rio Branco com a Oswaldo Aranha
Táxi avança o sinal na Rio Branco com a Oswaldo Aranha
Ônibus comete a mesma infração na Getúlio Vargas com São João
Ônibus comete a mesma infração na Getúlio Vargas com São João

Ultrapassagens perigosas, avanços de semáforos e motos trafegando pela direita da via são algumas das infrações flagradas todos os dias no trânsito de Juiz de Fora. O que chama a atenção, porém, é que muitas dessas manobras arriscadas são praticadas por quem deveria ser um exemplo na condução de veículos: os motoristas profissionais. A Tribuna flagrou abusos como o do condutor de um caminhão que ignorou os avisos do trem e avançou sobre a passagem de nível da Zona Norte, chegando a bater na cancela. Minutos depois, no mesmo local,um ônibus intermunicipal realizou manobra idêntica. Na Rua Coronel Vidal, no Bairro São Dimas, também na Zona Norte, apesar do trânsito tranquilo, um caminhão trafegava pela faixa exclusiva para ônibus e táxis. No Centro, uma van escolar ignorou o sinal vermelho no cruzamento das avenidas Itamar Franco com Rio Branco. A falta de educação dos profissionais do volante é justificada por representantes de algumas categorias como pressão para o cumprimento de horário, péssimas condições das vias e trânsito caótico.

Segundo o chefe do Departamento de Fiscalização da Settra, Paulo Peron Júnior, a maior parte das infrações cometidas por motoristas de vans, táxi e ônibus está ligada à circulação no trânsito, como fazer o uso do celular enquanto dirige, não utilizar o cinto de segurança e ultrapassar o sinal vermelho. "Já as ocorrências envolvendo os caminhoneiros, a maioria delas refere-se ao estacionamento fora das áreas destinadas à carga e descarga, além do tráfego em locais proibidos."

O comandante do Pelotão de Policiamento de Trânsito (PPTran), tenente José Lourenço Pereira Júnior, chama a atenção para a questão do uso do cinto de segurança, item que é constantemente motivo para autuação de taxistas, por exemplo. "A responsabilidade de verificar o uso do cinto é do condutor, porque é ele quem será penalizado. Nas abordagens, vemos que poucos são os passageiros que se lembram de usar o cinto", diz.

Peron explica que existem regulamentações específicas para o serviço de transporte, mas que, via de regra, todos estão sujeitos ao Código de Trânsito Brasileiro (CTB). "A fiscalização para estes profissionais é feita da mesma forma que a do condutor comum. As irregularidades são registradas conforme o flagrante realizado pela autoridade de trânsito ou pelos radares, por exemplo. Não temos o poder de fiscalização 24 horas por dia, mas realizamos nossas verificações de rotina, principalmente na região central."

 

Reclamações

No olho do furacão estão taxistas e motoristas de ônibus - a cidade possui hoje 545 táxis e 589 ônibus. Líderes de reclamações por parte da população - também pelo fato de lidarem diariamente com os usuários -, esses profissionais são acusados de desrespeito e abusos no trânsito. A manicure Lucilene de Souza conta que foi quase atropelada por um coletivo há dois meses. "Estava descendo no ponto, e ele não me esperou. Acabei caindo, e, por pouco, não me machuquei feio", reclama. "É comum vermos manobras arriscadas e arrancadas bruscas. Podem até não ser infrações, mas é um perigo", acrescenta a usuária Caroene Ribeiro.

Já o analista de sistemas César Pires reclama do excesso de velocidade cometido pela maioria dos taxistas na cidade. "O abuso é muito grande, principalmente à noite. Eles avançam sinal vermelho e não dão preferência em cruzamentos. Vejo também muitos motoristas de ônibus que não encostam no ponto para o passageiro entrar, fecham e tumultuam o trânsito."

 

Ônibus trafega na contramão para desviar da cancela de trem

 

Dirigentes das categorias admitem falhas

Questionados sobre as atitudes de alguns motoristas, dirigentes de sindicatos e associações dos profissionais de trânsito admitem falhas. Contudo, o presidente do Sindicato dos Taxistas, Aparecido Fagundes da Silva, pondera que muitas infrações são causadas na tentativa de agradar o passageiro e critica o excesso de aparelhos de fiscalização. "É claro que evitamos ser punidos e temos todo o cuidado, mas vemos que há um exagero de radares, principalmente os novos (super-radares), instalados em locais onde não há temporizador nos semáforos. Parece que eles vieram para multar e não para educar. De qualquer forma, a maioria das infrações que cometemos é para atender à necessidade do cliente."

Já o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário (Sinttro), Adilson Rezende, critica o planejamento urbano do município. "Os motoristas de ônibus cometem infrações, mas vejo que 80% delas são em virtude da falta de gerenciamento de trânsito da cidade. Os condutores estacionam dos dois lados das vias, em locais de parada dos coletivos, e somos obrigados a nos desdobrar para desviar e conseguir realizar os trajetos. Aliando isso à pesada carga de trabalho e ao trânsito caótico, vemos os profissionais cada vez mais estressados."

Na mesma linha, o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Juiz de Fora, Alexandre Picorelli Assis, critica a precariedade das pistas. "Muitas vias estão mal sinalizadas, com buracos, sem acostamento e manutenção adequados, situações que causam transtornos. É claro que isso não justifica a imperícia, mas, aliada a tensão do dia a dia e ao intenso fluxo de veículos, interfere diretamente na atenção do condutor." Ele ressalta que as empresas oferecem treinamentos, e os motoristas de caminhão são obrigados a fazer curso de direção defensiva para carga perigosa. "Essas capacitações têm surtido efeito na diminuição do número de acidentes", diz.

 

Motofretistas

Há um mês e meio morando em Juiz de Fora, o militar Márcio Aurélio Cunha denuncia a falta de prudência dos motoentregadores. Ele conta ter presenciado um acidente há poucos dias, quando um motociclista passou no meio dos carros em uma velocidade acima da média e acabou sendo atropelado. "Eles são displicentes e colocam em risco a vida deles e a nossa."

Um motofretista de 45 anos, que preferiu não se identificar, admite que os profissionais do trânsito cometem muitas irregularidades. "É a pressa diária do serviço que nos força a agir assim. O tempo é curto, e a cobrança é grande." Ele, que já está há 22 anos nesta profissão, diz já ter visto vários acidentes com colegas de trabalho. "Não respeitam nosso espaço. Existem projetos para faixas dedicadas até mesmo para skatistas, mas ninguém pensa no motociclista," reclama.

O presidente da Associação de Motoentregadores de Juiz de Fora, Antônio Carlos Lourenço, o Toninho Motoboy, admite que muitas ocorrências acontecem pela pressão do horário. "O ideal seria a consciência de quem usa o serviço em saber que Juiz de Fora não é a mesma de antes e ter paciência. As ruas estão lotadas, e não temos mais recurso para encurtar os caminhos."
 

Denúncias sobre infrações podem ser feitas pelo 3690-7400 ou pelo email settraatende@pjf.mg.gov.br.

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