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09 de Março de 2014 - 06:00

Fenômeno, segundo especialistas, pode revelar desequilíbrio no habitat das espécies e deve ser observado com mais atenção pelo Poder Público

Por Tribuna

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Famílias de capivaras são vistas com  frequência às margens do Rio Paraibuna
Famílias de capivaras são vistas com frequência às margens do Rio Paraibuna

Capivaras, macacos, maritacas e outros animais silvestres estão cada vez mais próximos dos centros urbanos e até mesmo se instalando definitivamente nestas áreas. Apesar da simpatia de parte da população por esses animais, esse fenômeno deve ser observado com mais atenção pelo Poder Público e por autoridades ambientais, segundo especialistas. Em alguns casos, se faz necessário o controle de natalidade, por meio de recolhimento e manejo adequado para outras áreas.

Entre os animais constantemente vistos em áreas urbanas estão os macacos. Em apenas 40 dias, foram encontrados quatro macacos da espécie bugio em diferentes bairros de Juiz de Fora. Todos saíram do seu habitat e se envolveram em situações de riscos. O último caso aconteceu na segunda-feira de carnaval, quando um deles foi encontrado no Bairro de Lourdes, região Sudeste, com vários ferimentos pelo corpo.

Segundo o pesquisador em comportamento e ecologia animal Fábio Prezoto, do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF, esse fenômeno é conhecido como avistamento. "Se eles estão transitando nessas áreas pode ser porque estão em busca de algum recurso que está faltando. Assim surge a necessidade de uma procura por novo território. De acordo com seu crescimento, essa necessidade vai aumentando. Em alguns casos, é preciso estudar a possibilidade de intervenção e manejo técnico, o que pede a figura de profissionais com conhecimento nessa área."

Três dos quatro casos mais recentes de aparecimento de bugios envolveram animais provenientes da Reserva Florestal do Poço D'Anta, região Sudeste, de responsabilidade da Prefeitura. Para o chefe do Departamento de Educação Ambiental e dos Recursos Naturais da Secretaria de Meio Ambiente, Wesley Cardoso, ainda não há necessidade de intervenções nesse local. "Cabe um monitoramento. Mas estamos falando de um lugar com acesso restrito. É uma reserva natural, onde há uma cadeia própria e que se reorganiza por si só. Somente em casos atípicos pedimos apoio a outros órgãos para verificar. É importante ressaltar que estamos em uma região que, apesar do adensamento urbano, é muito rica em fauna, o que leva ao aparecimento desses animais. Por isso, é sempre importante pedir à população, principalmente do entorno, para que não contribua trazendo esses animais para os centro urbanos. Uma das maneiras é não alimentar esses bichos e evitar tirá-los dos seus locais de origem."

Acidentes

Além do aparecimento desses macacos em residências ou ruas, não são poucas às vezes em que eles são vítimas de atropelamento. "Nesses últimos tempos, vimos pelo menos oito deles serem atingidos por veículos na BR-267. E, se observarmos, não existem placas alertando os motoristas sobre esses riscos", afirma um morador do Bairro Floresta. Apesar de o trecho não ser de responsabilidade da Settra, a assessoria de imprensa da pasta informou que vai entrar em contato com o órgão responsável e fazer uma solicitação para colocação de sinalização informando sobre o perigo.


Proliferação de capivaras causa transtornos

Na cidade de Belo Horizonte, a Prefeitura decidiu retirar as capivaras da orla da Lagoa da Pampulha. Tudo indica que cerca de 200 serão encaminhadas a uma fazenda-modelo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no município de Pedro Leopoldo. Em Juiz de Fora, existe uma situação semelhante, mas ainda não há um estudo específico de controle que possa indicar a quantidade de bichos dessa espécie vivendo na cidade. Entretanto, encontrá-los está cada vez mais fácil, já que não é rara a cena de famílias inteiras passeando às margens do Rio Paraibuna.

Um dos responsáveis pelo projeto da UFMG é o professor da disciplina produção e nutrição de animais silvestres da Escola de Veterinária da instituição Leonardo Bôscoli. Ele explica que a política de controle de reprodução das capivaras é importantíssima para saúde e equilíbrio tanto para os bichos quanto para os humanos. "As capivaras ficam bem dentro da cidade, principalmente porque seus predadores naturais, como as onças, não estão por perto. Mas se o predador não existe, a população aumenta, e aí a comida começa a faltar, e elas precisam sair para procurar, correndo o risco de se machucarem ou atingirem pessoas. O risco de disseminação de doenças também se torna maior, pois elas são hospedeiras do carrapato-estrela, transmissor da febre maculosa", explica.

A imagem de uma capivara morta no Rio Paraibuna, embaixo da ponte da Rua Benjamin Constant, registrada pela Tribuna no dia 31 de janeiro, retrata um pouco da amplitude da reflexão que propõe o professor Leonardo. "É uma política que exige acompanhamento. É preciso testar uma maneira de controlar essa população. É o que tentaremos fazer em BH. A verdade é que o homem é responsável por esse descontrole. Já que essa bagunça é nossa, precisamos amenizar ao máximo esse impacto." Cada fêmea desse animal pode ter até dois partos por ano e gerar oito filhotes, podendo chegar a 18 em um ano.

Alternativas

O sistema de gestão de meio ambiente no estado tem funcionado de forma compartilhada entre Município, Ibama e Instituto Estadual de Florestas (IEF). Contudo, em Juiz de Fora ainda não foram executadas ações ou estudos que ajudem a monitorar a situação desses animais. Segundo o chefe do Departamento de Educação Ambiental e dos Recursos Naturais da Secretaria de Meio Ambiente, Wesley Cardoso, já foram iniciados diálogos com o intuito de elaborar políticas de controle e rastreamento.

Para Leonardo Bôscoli, alternativas existem. "O manejo para outras áreas exige equipe e locais especializados. Nesses locais, há possibilidade de se fazer a vasectomia do macho, por exemplo. Mas é preciso fazer no macho certo, já que, nessa espécie, existem os dominantes e os subalternos. Além disso, na hora de reintegrá-los, é preciso cuidado. Outra alternativa, permitida por lei, é a fomentação de criatórios para abate, gerando uma cadeia de consumo e exportação da carne da capivara. Cabe observar que tem que ser feito por meio de requisição de captura aos órgãos, como IEF e Ibama", explica.


JF pode ganhar novo centro de triagem

Atualmente, os animais silvestres que precisam ser recolhidos são encaminhados ao Ibama, no Bairro Aeroporto, na Cidade Alta. Entretanto, um termo de cooperação formalizado vai permitir uma gestão compartilhada, e o resultado será um novo centro de triagem de animais silvestres, gerido pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF). Um novo local para essa estrutura também será determinado e, ao que tudo indica, a Prefeitura irá ceder, por meio do sistema de comodato, uma área de mil metros quadrados, no entorno da Reserva Florestal do Poço D'Anta, região Sudeste, mais especificamente no Horto Florestal.

"Além de ser um local mais propício, também servirá para nos auxiliar nos trabalhos de educação ambiental na cidade", comentou o chefe do Departamento de Educação Ambiental e dos Recursos Naturais da Secretaria de Meio Ambiente, Wesley Cardoso. De acordo com a coordenadora da Fauna do IEF regional Zona da Mata, Cláudia Lourenço, ainda está sendo analisado se a área vai atender a demanda. No entanto, a princípio, o ponto se mostra viável pela localização e também por estar próximo ao posto da 4ª Companhia Independente de Meio Ambiente e Trânsito Rodoviário (4ª Cia IndMAT). O objetivo é que tenha capacidade para receber até 250 animais, sendo que 90% devem ser pássaros. "O projeto será feito de forma a ter condições de abrigar os animais com mais zelo e com mais facilidade para desenvolvimento e aclimatação. Há também a proposta de contratação de uma clínica veterinária para atender os casos que não possam ser recebidos no centro de triagem. Alguns animais ainda poderão ser levados para o Ibama, mas em casos mais específicos, como o de fiscalizações e apreensões", explicou a coordenadora.

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