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09 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Mapeamento da Tribuna aponta horários e locais mais perigosos

Por MARCOS ARAÚJO

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A cada 36 horas, em média, um assalto foi registrado nas ruas da cidade de 1º janeiro de 2013 a 31 de janeiro de 2014. A estatística o, inimaginável há alguns anos, foi levantada pela Tribuna em consulta aos boletins de ocorrência divulgados pela Polícia Militar, durante os 396 dias que separam os dois períodos. Ao todo, foram 260 casos de assaltos a transeuntes, somando um total de 292 vítimas, uma vez que houve ocorrências com mais de uma pessoa na mira do ladrão (ver levantamento completo no quadro). Só em janeiro deste ano, 20 roubos consumados a pedestres foram divulgados. O balanço revela que o Centro da cidade, por onde circulam cerca de 150 mil pessoas por dia, registra a maioria dos crimes, com destaque para o Mergulhão e o Parque Halfeld, coração do município, onde um homem foi esfaqueado durante o roubo de um celular.

Segundo o levantamento do jornal, em 36,92% dos registros, as vítimas receberam ameaças de criminosos portando uma faca e 20,76% estiveram com uma arma de fogo apontada na sua frente. Houve ainda as situações nas quais a arma não foi identificada pela vítima (18,9%) e aquelas em que o transeunte foi agredido com socos, chutes e golpes com pedaços de madeira ou barras de ferro, que somaram 24,23%. Chama a atenção o fato de que em apenas 12,30% dos registros (32 ocorrências) foi realizada a prisão de autores.

Nas ações criminosas mais violentas houve pessoas esfaqueadas e até mortas. Como aconteceu com o jovem Leonardo Davy Chagas, de 25 anos, que morreu após ser ferido no tórax com um objeto cortante, durante assalto na Rua Moraes e Castro, no São Mateus, na madrugada de 20 de dezembro. A Delegacia de Repressão a Roubos apresentou, no último dia 28, um flanelinha, 24, preso como autor do latrocínio. Em novembro, um homem, 53, foi assassinado a facada, na madrugada do dia 14, na Rua Santo Antônio, no Centro. A suspeita é de que ele também tenha sido vítima de latrocínio - roubo seguido de morte. Ele teria sido abordado por um assaltante com faca, que teria exigido dinheiro e objetos de valor. Ao recusar dar os materiais, a vítima foi esfaqueada no tórax.

Essa criminalidade violenta que assola o município também foi confirmada por dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). O Índice Mensal de Criminalidade, divulgado na última sexta-feira, aponta que os crimes violentos tiveram alta de 42% na comparação entre 2012 e 2013. O mesmo levantamento mostra que os crimes violentos contra o patrimônio tiveram crescimento de 43%. Em enquete nos pontos de maior incidência de roubos na região central, a Tribuna ouviu pedestres e constatou que a população se sente vulnerável e clama por uma resposta efetiva do Poder Público a essa onda de crimes

Dados da violência

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Medo no Pq. Halfeld e no Mergulhão

O percentual de 35,38% dos assaltos contra transeuntes fez a região central da cidade ficar em primeiro lugar no ranking de incidência dessa modalidade de crime, com 92 casos registrados. O Parque Halfeld, as avenidas Rio Branco, Getúlio Vargas e Andradas, as ruas Benjamin Constant, José Calil Ahouagi, além do trecho que compreende o Mergulhão, são os que mais aparecem nos boletins de ocorrência. Um episódio grave recente assustou os frequentadores do Parque Halfeld, onde um jovem, 25, foi esfaqueado no pescoço, durante o roubo de um celular, que, aliás, continua como um dos objetos mais cobiçados pelos ladrões. A vítima foi conduzida para o HPS, ficando hospitalizada por 17 dias. O crime foi praticado por uma dupla, que exigiu o telefone do rapaz e, diante da recusa, golpeou o jovem no pescoço. Ninguém foi preso. 

A criminalidade na área do Mergulhão foi tema de matéria publicada pela Tribuna no último dia 14. A reportagem mostrou que depois de vários assaltos e furtos, alunos, comerciantes e pessoas que trabalham naquela área fizeram um abaixo-assinado, com mais de mil nomes, reivindicando um posto fixo da PM nas imediações. A frequência dos assaltos, os casos de tráfico e de consumo de drogas alteraram os hábitos das pessoas que precisam circular pelo Mergulhão. Muitas delas passaram a evitar o uso de celulares ou buscaram rotas alternativas. Estudantes de uma instituição de ensino pediram transferência, com medo de transitar pelo local. 

Mesmo com a demolição dos imóveis abandonados na Benjamin Constant, que serviam como ponto de uso de drogas, o fluxo de viciados ainda é intenso. Moradores denunciaram que muitos se deslocaram da Benjamin e continuam na Calil Ahouagi, além de estarem tomando o Mergulhão. A PM afirmou que tem lançado, diariamente, policiamento na região do Mergulhão, além do uso da base comunitária móvel. Porém, dois dias depois, um adolescente, 15, foi assaltado e ameaçado com uma faca quando transitava na passagem de nível, no Mergulhão, em plena manhã. E os registros não pararam. No dia 23 de janeiro, uma mulher, 26, foi assaltada, à noite, na Avenida Rio Branco, em frente a um ponto de ônibus nas imediações do Mergulhão.

 

'Autoridades perderam o controle sobre a situação'

Depois da região central, a Zona Norte aparece em segundo lugar, concentrando 23,46% dos crimes de assalto a transeuntes. Em seguida, as regiões Sul (22,69%), Sudeste (9,23%), Cidade Alta (4,23%), Leste (3,84%) e, por último, a Zona Nordeste, com apenas 1,15% dos casos, já que, durante todo o ano de 2013, apenas três assaltos a pedestres foram registrados naquela região, que conta com 26 bairros. O levantamento da Tribuna também apontou que a maioria dos assaltos aconteceu no período compreendido entre 18h e meia-noite, somando 41,15% dos registros, ou seja, 107 casos. A vítima preferencial dos ladrões é do sexo masculino (62,32%), na faixa etária entre 25 e 34 anos (21,91%). Um detalhe que surpreende é que até crianças e adolescentes foram alvos dos ladrões, pois, em 5,13% dos registros, a vítima tinha de 8 a 14 anos de idade.

Para o coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas de Controle Social da UFJF, o cientista social André Moysés Gaio, os percentuais indicam aumento dos crimes ano após ano. O especialista afirma que os bancos de dados estão falhos e que os índices podem ser maiores. "Creio que as autoridades já perderam o controle sobre a situação, e Juiz de Fora está à deriva. O cidadão, por isso, está procurando soluções próprias para garantir sua segurança, inclusive este é o desejo das autoridades da área de segurança pública. Não há nenhum grande programa, seja para prevenir ou para reprimir a criminalidade", afirma o especialista. Ele ainda pontua que, quando se estuda casos de outras cidades que apresentam os índices de Juiz de Fora, a conclusão é esta: "É muito difícil reverter situações em que a criminalidade violenta apresenta três ou quatro anos de crescimento. As razões? A desconstrução das polícias Civil e Militar, planejamento equivocado, falta de efetivo, ausência grave do município na implementação de projetos e, principalmente, o derrame de armas de fogo na cidade. É preciso ainda uma pesquisa séria sobre o número de processos devidamente investigados e julgados. O Estado de Minas Gerais não se preocupa com a Zona da Mata e investe seus recursos, principalmente, na Grande BH", observa Gaio, afirmando que o cenário atual é mais grave do que aquele dos anos anteriores.

Novas ações e parceria

A assessoria de comunicação do 2º Batalhão de Polícia Militar (2º BPM), que é responsável pela atuação da PM na região central, informou, em nota, que o comando da unidade está passando por um processo de transição, que vai resultar na implementação de novas ações focadas na prevenção e repressão. Ressaltou ainda que já vem lançando policiamento com constante rotatividade de viaturas, com equipes de patrulha, inclusive com motos e bicicletas, e policiamento a pé. Informou também que uma mobilização da PM com outros órgãos públicos resultou em trabalhos de revitalização nas praças públicas da cidade, inclusive da região do Mergulhão. 

Além disso, o 2º BPM lança mão da Base Comunitária Móvel, que tem como estratégia a ampliação da ostensividade e visibilidade do policiamento, além de aumentar a capacidade individual dos policiais durante o patrulhamento. A PM aposta, ainda, no programa "Olho vivo", que será gerenciado junto com a Prefeitura e prevê a instalação de câmeras de segurança em 54 pontos da cidade. Conforme a PM, o processo licitatório já está em fase final.

 

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