Publicidade

27 de Maio de 2014 - 07:00

Maioria dos assassinatos ocorridos na Olavo Costa desde 2013 não chegou à Justiça; enquanto jovens mortos ainda aparecem como réus em outros crimes

Por Daniela Arbex e Eduardo Valente

Compartilhar
 
Amigos homenageiam vítimas com camisas
Amigos homenageiam vítimas com camisas
Mãe exibe foto de filho morto
Mãe exibe foto de filho morto
Natan, 10 anos, ficou órfão
Natan, 10 anos, ficou órfão
Irmã de Rodrigo aderiu a protesto
Irmã de Rodrigo aderiu a protesto

A maioria das ocorrências de homicídio na Vila Olavo Costa registrada do ano passado para cá ainda não chegou à Justiça. Levantamento feito pelo jornal no site do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), a partir dos 22 nomes de vítimas divulgados na passeata das "Mães que choram", realizada no último domingo, revela que os processos em tramitação no Judiciário são referentes a episódios que antecederam os assassinatos e que também ainda não tiveram condenação. O levantamento da Tribuna confirma o ciclo perverso da violência, já que, antes de se tornarem alvos, muitos desses garotos foram autores de crimes. Entre os casos, está o de um jovem morto no ano passado, aos 21 anos. Três anos antes, quando ele tinha 18 anos, foi suspeito de ter assassinado um rapaz. A sessão no Tribunal do Júri que definirá a sua participação no homicídio está marcada para o dia 2 de junho de 2015, data em que completará quase dois anos da sua morte. No boletim de ocorrência sobre o episódio, a Polícia Militar diz que o suspeito do assassinato do rapaz de 21 anos é o mesmo que cometeu outro homicídio na Vila Olavo Costa, com diferença de apenas quatro horas entre um e outro.

O chefe do 4º Departamento de Polícia Civil de Juiz de Fora, José Walter da Mota Matos, afirmou que qualquer crime de homicídio, independentemente de quem seja a vítima, é objeto de investigação da Polícia Civil. Ele admitiu, no entanto, que nem todos os casos são concluídos de imediato, principalmente aqueles nos quais a autoria está indefinida. "Pode ser que essas investigações não tenham chegado na Justiça por ainda estarem em andamento. O homicídio é um crime que demanda investigação complexa. Em determinados crimes ligados a tráfico de drogas, as pessoas têm medo de dar informação, o que dificulta o trabalho da polícia. Há realmente crimes que a polícia não consegue esclarecer, isso precisa ser dito, mas, assim que surgir um fato novo que possibilite a investigação, a polícia vai trabalhar para isso. Eu, como chefe do Departamento de Polícia Civil, me solidarizo com o sofrimento das mães, porque só elas sabem a dor que sentem. Até para mostrar o repúdio das instituições à violência, a gente tem a preocupação de apurar os crimes e responsabilizar os autores."

Em nota, a Polícia Militar informou que até os crimes passionais ocorridos na área têm relação com o tráfico ou uso de drogas. A PM afirmou, ainda, que, além da realização de operações no bairro, tem adotado medidas preventivas, com a implantação de uma base comunitária móvel, patrulhamento, na busca de melhorar o contato com a comunidade, além de desenvolver projetos sociais em parceria com as escolas e o Curumim. Como forma de aumentar a presença do Poder Público no bairro, a assessoria de imprensa do órgão anunciou a construção de uma edificação que abrigará o projeto "Ambiente de paz" no local.

 

'Um dia ele mata, no outro é morto'

Outra vítima da Vila Olavo Costa assassinada em 2013, também com 21 anos, chegou a ser personagem de uma matéria da Tribuna, publicada em outubro de 2005, na qual crianças e adolescentes do Caic da Vila Olavo Costa apontavam sugestões para a construção de uma sociedade mais justa. Aos 13 anos, na época da reportagem, ele se destacou ao falar da violência no bairro onde morava. "Acho que precisaria acabar com as drogas. Se não tivesse droga, ia ter mais segurança. A pessoa fica na ânsia e começa a roubar para conseguir dinheiro. Outro problema é quando a pessoa compra e fica devendo. Tem traficante que manda matar. Gosto é de ficar na escola e no Curumim, assim não vou para a rua e fico protegido, enquanto minha mãe pode sair para trabalhar", declarou ao jornal. Apesar de ter manifestado desejo de superar a difícil realidade e de ter passado por programa social da Prefeitura, o ex-aluno do Caic não conseguiu construir o destino que sonhava. Poucos anos depois, o menino sucumbiu ao crime, o que também reforça a fragilidade das políticas públicas. Em março de 2009, envolveu-se em um assalto e, em 2012, foi acusado de agressão contra uma mulher. Além disso, há mais de dez ocorrências relacionadas ao endereço da sua família por tráfico de drogas, embora seu nome não estivesse relacionado a nenhuma delas.

Também chama a atenção o caso de um rapaz de 24 anos. Preso em março de 2013 por tráfico de drogas, ele foi assassinado menos de cinco meses depois. Ainda há registro de extermínio de adolescentes de apenas 14 anos, o que indica que eles tornam-se soldados do tráfico muito cedo, mas acabam perdendo a vida precocemente.

Para a socióloga e mestre em serviço social Anete Negreiros, que pesquisa juventude, território e violência, o fato de esses jovens se tornarem vítimas da violência reflete a ausência do Estado por meio de políticas públicas integradas. "Quando a escola é desinteressante e faltam caminhos que levem o jovem ao mercado de trabalho, eles passam a ser disputados pelo tráfico. Além disso, não há equipamentos que os abriguem. Eles podem até estar na escola em um turno, mas estarão na rua no outro. Com isso, acabam entrando na rede do tráfico como forma de ter acesso ao consumo de bens materiais. Como qualquer adolescente, eles querem tênis ou boné de marca." Conforme Anete, esta realidade fica mais evidente na transição da idade que marca o início da adolescência, quando, muitas vezes, eles começam a circular sozinhos. "Um dia ele mata, e, no outro, é morto. Sem perspectiva, a vida deles fica vazia de sentido, e os jovens acabam entendendo que o que vier está valendo."

A socióloga deixa claro que situações como essas não podem ser encaradas como regra. Ela cita a importância da participação da família na formação destes jovens, embora entenda que os pais não são os únicos responsáveis. "É uma série de circunstâncias que levam ao crime. Mas a maioria ainda quer estudar e trabalhar, porque vislumbra possibilidades. Mesmo pouco efetivas, as políticas de inserção são vistas como uma saída, e muitos se agarram a elas."

 

 

Famílias vão às ruas pedir paz

O movimento "Mães que choram", liderado pela ONG Delevigas, aponta 72 assassinatos na Vila Olavo Costa e região em cinco anos. O levantamento da PM aponta 17 registros desde 2009 até agora e 30 tentativas de homicídio em cinco anos. Apesar da disparidade dos números, todos concordam que é preciso dar um basta nas ações que visam unicamente a eliminar pessoas. "Não queremos mais perder ninguém, seja filho, parente ou amigo", disse uma mulher que aderiu à passeata realizada no bairro no último domingo. Apesar da ausência das mães da Candelária, do Rio, que haviam sido convidadas para participar, mas tiveram dificuldade na contratação de transporte, quem foi ao protesto ou apenas participou dele estendendo lençóis brancos nas janelas pedia paz. "É a paz que a gente quer", insistia a moradora Celina de Souza Nogueira, 83 anos.

Com apenas 10 anos, Natan Rafael Salgado também quis ir à manifestação. O pai dele está entre as vítimas. Segundo Natan, a vida tem sido uma "tristeza" desde que ficou órfão. "O pior dia foi o do meu aniversário, pois ele não estava presente. Sinto falta de tudo que ele representava." A faxineira Darlene, 58, até hoje lamenta não ter tido tempo de se despedir do filho assassinado aos 35 anos. "Eu só queria ter a chance de abraçá-lo mais uma vez. Ainda não dá para acreditar", diz.

Servidor do Demlurb, Ailton, 40, pai de Thomaz Marley, assassinado aos 18 anos no final do ano passado, ainda espera por justiça. "Até hoje não sei por que meu filho merecia morrer. Ele era o meu menino e meu único filho. Achei que teria uma porção de neto e agora não tenho mais nada."

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que os resultados do programa "Olho vivo" vão inibir crimes nos locais onde estão as câmeras?