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07 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Prefeito e sociedade civil assinam carta endereçada ao governador; especialista defende pacto contra a banalização da morte

Por Daniela Arbex, Michele Meireles, Renata Brum e Sandra Zanella

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Bruno Siqueira e representantes de vários segmentos sociais se reuniram nesta quinta
Bruno Siqueira e representantes de vários segmentos sociais se reuniram nesta quinta

No dia em que Juiz de Fora contabiliza seu 18º homicídio de 2014 - em um período de tempo de 37 dias - a sociedade civil organizada se une ao chefe do Executivo, Bruno Siqueira (PMDB), para pedir ao Governo de Minas ações imediatas e efetivas para dar um basta à violência que assola a cidade. Só entre a noite de quarta-feira e a madrugada desta quinta-feira (6), foram mais dois homicídios, somando quatro em 24 horas. Na Cidade Alta, o jovem Anderson David Bernardo Jerônimo, 23 anos, foi morto a tiros em via pública, próximo ao Bairro Bosque do Imperador. Já no Verbo Divino, Zona Norte, Antônio Carlos da Silva, 40, morreu a facadas.

Com uma morte registrada, praticamente, a cada dois dias, as autoridades e a comunidade deram nesta quinta o grito de socorro: "Algo precisa ser feito. Antes que seja tarde demais", assim termina a carta, apresentada à imprensa e assinada por entidades públicas e privadas, religiosas, sociais e econômicas e representantes de trabalhadores de Juiz de Fora (ver quadro). O documento será entregue, no sábado, ao governador Antonio Anastasia (PSDB). Ele estará na cidade para inaugurar o complexo regulador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Paralelamente, um grupo de pessoas também se organiza no Facebook para o 1º Ato contra a Violência marcado para dia 21 de fevereiro, às 17h, na Praça Jarbas de Lery, no São Mateus.

"Estamos com a carta solicitando atitudes imediatas e concretas em busca da paz em nosso município. Sabemos do empenho das polícias, entretanto, verificamos a necessidade de maior efetivo, de mais investimentos e melhores equipamentos para as polícias civil, militar e também federal. Queremos sensibilizar o governador. Nossas estatísticas não podem mais ser comparadas com as de Uberlândia, Betim, Contagem ou Belo Horizonte. Temos que comparar com as estatísticas da própria cidade. Juiz de Fora de hoje não é a mesma de dez anos ou de cinco anos atrás. O município, que sempre se destacou pela qualidade de vida, hoje tem, em 24 horas, quatro mortes. Está morrendo, em um dia, o que antes morria em um mês", destacou o prefeito.

O presidente da Câmara Municipal, vereador Julio Gasparette (PMDB), também enfatizou a necessidade de mais investimentos na segurança pública. "Juiz de Fora é polo, é praticamente a capital da Zona da Mata e hoje não tem nem 200 policiais civis e conta com o mesmo efetivo de policiais militares de dez anos atrás. Não vemos militares nas ruas como antes. A alegação é que estão fazendo o trabalho de prevenção. Mas que prevenção é essa? Prevenção é quando não deixa acontecer." Presidente do Centro Industrial, Leomar Delgado, resumiu. "Essa violência tem prejudicado a todos nós."

O professor da UFJF, Weden Alves, que coordena pesquisas na área, diz que a banalização da morte no Brasil não é nova, apenas tornou-se mais visível. "Necessitamos de um pacto, uma campanha nacional envolvendo vários atores sociais contra esse fenômeno. Um país com índice de violência vergonhoso como o nosso perde universalmente, tanto em produtividade quanto em talento."

 

Violência gradativa

O quadro de violência de Juiz de Fora vem sendo gradativamente pintado. Em 2011, foram 52 homicídios. Em 2012, o número saltou para 99, para, em 2013, alcançar a marca de 139 vítimas. Além das mortes violentas, ocorrências típicas de grandes centros passaram a fazer parte do cotidiano dos juiz-foranos, como assaltos a residências e comércios, com reféns, e os latrocínios (roubos seguidos de morte). Índice da Secretaria Estadual de Defesa Social (Seds) apontou um crescimento de 50% nos crimes violentos na cidade, quando se compara o período compreendido de janeiro a novembro de 2012 com o mesmo período de 2013. Com a facilidade de aquisição de armas, a mínima desavença entre cidadãos tem resultado, quase sempre, em mais mortes.

"Sobretudo após o derramamento de armas na cidade, divulgado pela imprensa, estamos verificando a violência na prática, com maior número de assassinatos e assaltos. Os confrontos entre gangues também acabam em mortes. A Prefeitura tem tentado agir em várias frentes. Além do Plano municipal de enfrentamento à Violência, estamos conseguindo ampliar o programa "Ambiente de paz" para mais duas áreas da cidade e vamos instalar em breve, com o apoio do Governo de Minas, 54 câmeras do projeto "Olho vivo", além de realizar a conservação e manutenção de todas as praças da cidade, com melhoria da iluminação", enumerou o prefeito.

 

 

Mais duas vítimas

A morte mais recente, a de Anderson David Bernardo Jerônimo, foi praticada por ocupantes de uma motocicleta, pouco antes das 22h de quarta-feira. O jovem estava na companhia da namorada e de um adolescente na Alameda José Brugger, quando surgiu uma moto Honda, com as placas encobertas por sacolas. O carona chamou a vítima, que se aproximou do veículo e foi surpreendida por vários disparos de revólver. O jovem ainda correu para casa da namorada, mas foi perseguido e continuou sendo alvejado. Quando policiais militares chegaram ao local, encontraram Anderson caído na porta da cozinha da residência, sem sinais vitais. O óbito foi confirmado pelo Samu. Peritos realizaram os levantamentos, e o corpo foi encaminhado para necropsia no Instituto Médico Legal (IML). O jovem teria sido atingido por cinco tiros, na cabeça, braço, mão e nádegas.

Conforme a PM, um suspeito do crime foi apontado, mas não foi localizado. Familiares da vítima disseram suspeitar de motivação passional, mas o caso ainda está sendo investigado pela Delegacia Especializada de Homicídios e Antidrogas. Uma jovem, 18, que preferiu não se identificar, contou ter um filho com a vítima, de 1 ano e 5 meses. Segundo ela, Anderson morava no Bairro São Pedro, também na Cidade Alta, e trabalhava como servente. Uma prima da vítima, 24, que quis ter o nome preservado, desabafou: "Queremos justiça, porque estamos sofrendo demais. Foi a perda de uma pessoa querida que não tinha maldade."

 

Facadas

Já Antônio Carlos da Silva foi morto a facadas perto de casa no Verbo Divino, chocando familiares. O homicídio aconteceu pouco depois da meia-noite e teria ocorrido após uma discussão em um bar. Apesar de o suspeito, 36, ter sido preso pela PM momentos depois em Benfica, Zona Norte, a dor da perda prevaleceu em relação à sensação de justiça. "A prisão traz algum alívio, a pessoa tem que pagar pelo o que fez. Mas isso não vai trazer a vida do meu irmão de volta", lamentou o mecânico Cidinei da Silva, 36.

Segundo o registro policial, ao se aproximar de casa falando ao celular, Antônio foi surpreendido pelo agressor, e os dois entraram em luta corporal. A vítima acabou sendo atingida por quatro golpes de faca na boca, costas e peito.

O suspeito do crime foi encaminhado para a 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil. Ao prestar depoimento, ele assumiu ter desferido as facadas contra a vítima, mas alegou legítima defesa, afirmando que também foi agredido. O homem teve o flagrante confirmado e foi conduzido ao Ceresp. Cerca de uma hora e meia antes do assassinato, a PM já havia registrado uma ocorrência de ameaça envolvendo o suspeito no São Judas Tadeu, também na Zona Norte. A proprietária de um bar relatou aos policiais ter sido ameaçada de morte pelo homem, que estaria armado com faca.

 

 

'Soluções violentas nascem em um país onde o estado é ausente'

Os recorrentes episódios de execução, como o assassinato ocorrido há dois dias na porta do Ceresp, segundos depois de um preso ganhar a liberdade, têm deixado a cidade amedrontada. Este estado de alerta permanente vem alcançando o país e provocando reações de defesa que lembram a barbárie. Recentemente, no Rio, dois episódios semelhantes chamaram a atenção. A cena de um adolescente de 15 anos, supostamente autor de ato infracional, acorrentado nu a um poste na Praia do Flamengo, lembrou a punição de escravos. Já a artista plástica que ajudou o garoto, no Rio, recebeu ameaças de morte pelas redes sociais. Outra ocorrência, gravada pelo celular, em Belfort Roxo, na Baixada, mostra o momento exato em que um homem suspeito de assalto é detido por populares e morto no meio da rua com três tiros na cabeça.

Para o doutor em sociologia Rudá Ricci, a sociedade brasileira está sendo desmascarada e já não consegue mais esconder sua cultura estamental. "Significa que cada classe social é tolerada desde que fique no seu lugar, como mostraram os episódios dos rolezinhos nos shoppings brasileiros. As bases para soluções violentas nascem em um país no qual o estado é ausente, as relações sociais são marcadas pela desigualdade e a cultura é estamental. Vivemos um momento de mudança social acelerada, com um grande estranhamento dos brasileiros com os próprios brasileiros. É como se uns fossem mais brasileiros que os outros. Na última década, perdemos as organizações que discutiam valores, respeito às diferenças, tolerância. Foi tudo destruído em nome da eficácia, do resultado, do sucesso individual e do consumo. Agora estamos colhendo tudo isso. Nessa anomia de regras, os problemas são resolvidos por meio de iniciativas próprias e da justiça feita com as próprias mãos."

O professor Weden Alves defende a reflexão. "Por que nós matamos tanto? Precisamos discutir, por todos os lados, todas as formas de violência letal e não realimentá-la como cultura. É uma contradição reivindicar segurança apoiando a violência. Isso é um fracasso social para o país."

 

 

Ato é organizado em rede social

As redes sociais também estão sendo utilizadas para cobrar das autoridades ações efetivas no combate à criminalidade. Está marcado para o próximo dia 21, às 17h, o 1º Ato contra a Violência. A manifestação foi planejada pelo Facebook e, segundo a organização do evento, além de cobrar mais policiamento e realização de projetos sociais nas comunidades, a ideia é mostrar que a sociedade não está inerte diante dos índices de violência e chamar a atenção para os casos graves que vêm acontecendo.

Na descrição do evento na rede social são cobradas respostas. "Assaltos viraram frequentes, assassinatos fazem parte da rotina da cidade. Até quando a população vai aguentar isso? Não se pode mais ir a lugar nenhum sem estar com medo! Triste ver o que estão fazendo com essa cidade. Não podemos mais ficar parados." Até o fechamento desta edição, mais de 550 pessoas já haviam confirmado presença na manifestação.

O grupo vai se concentrar na Praça Jarbas de Lery, no Bairro São Mateus, Zona Sul, e em seguida fazer uma passeata até o Parque Halfeld, seguindo pelas avenidas Presidente Itamar Franco e Barão do Rio Branco. Os organizadores pedem que participantes saiam às ruas usando roupas pretas, em luto pelas 18 pessoas assassinadas na cidade este ano.

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