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16 de Abril de 2014 - 07:00

Moradores e comerciantes relatam temor de assaltos; alguns desistiram dos negócios, e outros abandonaram o emprego

Por Marcos Araújo e Renata Brum

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Na Rua Chanceler Oswaldo Aranha, no Bairro São Mateus, Zona Sul, o espaço, que por décadas foi ocupado por uma banca de jornal, hoje está vago. O motivo: a violência. A dona da banca foi agredida no rosto durante um assalto em julho de 2012. Traumatizada, decidiu desistir do negócio mantido pela família há 40 anos, e hoje ainda tenta se recuperar psicologicamente das agressões. "A tradição da nossa família foi deixada de lado por conta da violência. Meu pai passou a banca, e ela tinha assumido, mas houve o assalto, e ela ficou muito traumatizada, decidindo fechar, pois foi grave. A violência no São Mateus está assustando", contou a irmã da vítima, de 44 anos.

O caso não é isolado. A caixa de uma farmácia, 20, não aguentou a pressão de ser vítima três vezes consecutivas de ladrões armados e pediu transferência para outra loja da rede. "Não dava mais para continuar lá. Na primeira e na terceira vez em que fui assaltada, achei que pudesse morrer. Tive uma arma apontada para o meu rosto, de frente. Hoje não posso ver ninguém com capacete que fico apavorada, o coração acelera, quase pula pela boca", contou a jovem, que há menos de dois meses trabalha na região central.

As duas não estão sozinhas. Levantamento realizado pela Tribuna, considerando os Registros de Eventos de Defesa Social (Reds), apontou que, nos 90 primeiros dias do ano, foram registrados mais de 30 casos de roubos entre as ruas de São Mateus e do Alto dos Passos, bairros vizinhos, com algumas vias em comum, como a Rua Morais e Castro. O saldo é de um roubo com uso de violência ou ameaça a cada três dias, considerando somente esse trimestre. Vale ressaltar que, nessa conta, não entraram os casos em que as vítimas deixaram de registrar o crime. A maioria das ocorrências, como apontou o levantamento, aconteceu nas avenidas Rio Branco e Itamar Franco e nas ruas São Mateus e Oswaldo Aranha. Estas vias têm grande circulação de pessoas e sediam a maior parte do comércio da região. No que diz respeito às modalidades criminosas, apesar de haver roubos contra estabelecimentos comerciais e residências, o assalto a pedestre lidera a estatística, com 62% das notificações. Quanto ao horário, não existe um período em que há maior concentração de crimes, pois os números mostram que os roubos acontecem a qualquer momento.

Mas outros casos também apontam para a banalização da violência na área. Em dezembro, um jovem, de 25 anos, morreu após ser ferido no tórax com um objeto cortante, durante assalto, na Rua Morais e Castro. A vítima havia deixado um bar e estava indo para casa, quando foi alvo. Ele ainda tentou pedir ajuda no bar, que já estava com as portas baixadas, mas acabou golpeado. Levado ao Hospital de Pronto Socorro (HPS), ele não resistiu e morreu. Um flanelinha, 24, foi apresentado pela Delegacia de Repressão a Roubos como autor do latrocínio - roubo seguido de morte.

"Todo dia você escuta um comentário de que entraram na loja tal, que renderam uma pessoa na rua, até morte já teve. Ficamos pensando: quem será a vítima de hoje?", questionou um dentista que trabalha na área. O medo é relatado por todos, de comerciantes a moradores. A Tribuna foi alguns dias à região para conversar com a comunidade. "Ao nosso redor, todo mundo já foi assaltado. Todos os funcionários acham perigoso, e nunca um fica sozinho. O medo é constante", relatou um técnico em eletrônica, 36. "Ficamos inseguros demais. Além dos assaltos, os arrombamentos também são diários em prédios e comércios. Recentemente entraram no meu prédio e levaram joias, notebook, tudo. Aqui na rua do meu bar, outros dois já foram alvos e tentaram também contra a padaria e o restaurante quase esquina com a Rua São Mateus", enumerou o proprietário de um bar na Oswaldo Aranha, 57 anos.

"Assalto mesmo tivemos um, mas sempre há furtos. Ficamos inseguros. Dependendo do horário, somos obrigados a encerrar o expediente, como aos sábados, quando fechamos às 13h para evitar os assaltos porque o movimento da via cai e aumenta o perigo", reclamou a vendedora de uma loja de decoração Valéria Luz, 51. "Tenho a loja há menos de oito meses e não fui assaltado, mas tenho muito temor, principalmente à noite. A via é movimentada, mas é escura, o que facilita a ação. Como não há ronda ou policiamento presente, então fica fácil ser alvo", pontuou o comerciante Daniel Carvalho, 30 anos.

Com loja no São Mateus há mais de 40 anos, um chaveiro, 69, disse que nunca viu a região tão violenta. "Sinto medo de ficar aqui, confesso. Eu mesmo já fui alvo na rua. Um sujeito me deu uma gravata, e tentaram levar o que estava no meu bolso, mas consegui sair, gritei e ele fugiu. Faltam policiais aqui em contato com comerciantes, como antigamente. Hoje você só vê viatura passando e de vez em quando."

 

 

Comerciantes adotam medidas de autoproteção

Somente uma loja de frios no bairro, cuja proprietária pediu sigilo do nome e da rua onde está sediada, foi alvo de assaltos quatro vezes neste ano. Após as ações, a comerciante precisou contratar um jovem para ficar na porta como vigia. "Não cheguei a ver arma, mas colocam a mão na cintura e nos ameaçam. E eu não vou pagar para ver. Entraram duas vezes no meio da semana, e uma delas na sexta-feira, perto das 18h. Como na loja só há mulheres trabalhando, tivemos que colocar um fiscal na porta para inibir a ação", contou a comerciante, 39.

Uma farmácia na Avenida Rio Branco também foi escolhida quatro vezes pelos criminosos, entre abril de 2013 e fevereiro deste ano. Em uma das ocorrências, o assalto foi no começo da manhã, por volta das 8h. Segundo o gerente, 38, os dois bandidos armados chegaram em uma motocicleta e renderam os funcionários e ainda dois clientes que estavam na farmácia. "Levaram todos para a cozinha, obrigando-os a deitar no chão. Pediram ao subgerente para abrir o cofre e levaram tudo. Da outra vez, chegaram direto nos caixas e limparam as gavetas. A insegurança é total. A funcionária do caixa pediu transferência, pois estava em pânico. O pior é que a polícia não age. Muitas vezes, somos nós que temos que filmar, identificar e, daqui a pouco, até prender os assaltantes."

Uma loja de suplementos na Avenida Itamar Franco também já foi alvo de criminosos três vezes em um intervalo inferior a um ano. Em uma das ocorrências, uma mulher foi ameaçada com uma arma e obrigada a entregar o dinheiro do caixa. De acordo com a proprietária, 42, em todos os assaltos, o bandido portava uma arma de fogo. "É uma situação que nos deixa impotentes. Perto daqui, tem um colégio e um curso de inglês, e diversos estudantes já foram assaltados. O pior é que a gente chama a PM, e os policiais aparecem só depois de 40 minutos e fazem apenas o preenchimento do boletim de ocorrência", afirma a proprietária, lembrando que os ladrões usam até arma de brinquedo. "Já orientei aos funcionários para nunca reagirem, pois não dá para saber se o revólver é de brinquedo ou de verdade. Um dos atendentes da loja pediu demissão, pois ficou com medo de continuar aqui."

Com a tensão da violência dia a dia, alguns comerciantes agora só trabalham de portas fechadas. Para ter acesso a um centro de estética na Rua São Mateus, é preciso antes se identificar por interfone. "Só abrimos para os clientes marcados. Colocamos a porta, porque não temos segurança, mesmo havendo um posto de polícia praticamente ao lado. Não adianta nada", relatou uma das sócias do estabelecimento, 50.

 

 

Pedestres na mira de bandidos motorizados

Os pedestres estão na mira dos assaltantes, que agora adotam nova estratégia. Em duas ocorrências recentes, os ladrões desembarcaram de veículos - motos e carros - para assaltar transeuntes. Em março, o alvo foi um casal rendido de madrugada, na Rua São Mateus. O rapaz, 18, e a mulher, 20, conversavam na via pública quando foram surpreendidos pela aproximação de um Chevette, ocupado por dois homens. Um deles saiu do veículo e seguiu na direção do jovens, anunciando o assalto. Segurando uma arma de fogo na cintura, o ladrão exigiu o celular do rapaz e ainda retirou outro telefone da bolsa da mulher. Em seguida, o bandido entrou no carro, que teria acessado a Rua Monsenhor Gustavo Freire em direção à Avenida Itamar Franco.

Em outra ocorrência, em janeiro, uma jovem de 20 anos também foi rendida na Itamar Franco, quase esquina com a Oswaldo Aranha, por uma dupla em uma moto. Um dos bandidos, usando capacete, e com a arma na cintura, anunciou o roubo, puxando a bolsa da jovem com todos os seus pertences.

Dono de uma banca de jornal na Avenida Itamar Franco, Roberto Oliveira, 46, nunca foi assaltado, mas diz ser frequente os roubos a estudantes e pedestres. "Quase todo dia tem alguém reclamando aqui que foi assaltado, ou gritando que ficou sem o celular, a bolsa ou a mochila. Está terrível."

 

Respostas

A assessoria de comunicação organizacional do 27º Batalhão de Polícia Militar informou que a corporação vem acompanhando a migração criminal nas localidades mencionadas na matéria desde o início deste ano, e, como respostas pontuais, está promovendo operações de abordagem a motocicletas, táxis e transportes coletivos, além de equipes designadas especificamente para estes locais de maior incidência de roubos. Destacou ainda que foi preso, no dia 21 de março, um suspeito que atuava na região. Também foram apreendidas duas armas de fogo e três adolescentes que praticavam roubo nas proximidades do Independência Shopping, além da prisão em flagrante de infratores que integravam uma quadrilha de roubo a banco que tentava atuar em uma agência naquela região. Em 19 de março, foram presos mais dois autores de roubo no ponto de ônibus do Independência Shopping e outro autor de roubo foi detido no Alto dos Passos, em 28 de março. Ainda conforme a assessoria, foram realizados trabalhos que resultaram na prisão de diversos autores de tráfico de drogas.

Na última sexta-feira, a PM lançou a operação "Polígono vermelho", disponibilizando mais 200 policiais e 20 viaturas para o patrulhamento na região central e na Zona Sul, abrangendo o Bairro São Mateus e adjacências. A ação, de caráter permanente, tem o objetivo de reduzir os números de crimes contra o patrimônio e aumentar a sensação de segurança entre a população.

A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Repressão a Roubos, também vem trabalhando para coibir os crimes na região de São Mateus. No final do mês de março, a equipe da Especializada prendeu um jovem, 18, suspeito de cometer vários roubos na Zona Sul. Segundo o inquérito que o investigava, ele agia na porta de escolas, frequentemente no horário de saída dos estudantes, e suas vítimas em potencial eram as crianças e os adolescentes. Ele foi capturado na Avenida Itamar Franco, no São Mateus, depois de se aproximar de duas vítimas que saíam de uma escola, alegando estar com uma faca e querendo roubá-las. Na mesma época, a Especializada também solicitou o acautelamento de um adolescente, 17, responsável por vários crimes análogos ao de roubo na região da Zona Sul. Ele também praticava infrações contra crianças e adolescentes nas portas dos colégios.

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