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20 de Março de 2014 - 07:00

Comunidades relatam os ataques diários; atividades rotineiras como ir ao médico, à escola ou à igreja são cerceadas pelas gangues

Por Renata Brum (colaboraram Marcos Araújo e Nathália Carvalho)

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Polícia tem feito rondas pelas ruas, mas população quer construção de posto fixo no local
Polícia tem feito rondas pelas ruas, mas população quer construção de posto fixo no local

"Desde quinta-feira passada não mando meus filhos para a escola porque tudo acontece ou perto da escola ou do Curumim. Não podemos descer, porque se descermos não sabemos se conseguiremos voltar", relatou a dona de casa, 33 anos, moradora do Vila Esperança II. "Sem lazer aqui em cima e sem ter como ir às aulas, as crianças ficam assistindo a violência. Domingo subiram aqui e mataram um quase na porta da minha casa", completou. O relato da dona de casa é o mesmo repetido por outras pessoas da comunidade, que se vê ameaçada diante do fogo cruzado entre as gangues dos bairros vizinhos Vila Esperança I e Vila Esperança II, na Zona Norte. "Não podemos sequer ir ao posto médico que fica na Vila I. Muitas vezes, ele também fecha por conta dos confrontos. Não é justo porque a briga é entre a nova geração, enquanto a comunidade toda fica no meio", desabafou outra moradora, 29 anos. Os enfrentamentos entre os jovens se intensificaram na última semana quando teve início uma série de ocorrências violentas com registros de homicídio, tentativas de assassinato, carro incendiado e moradores feridos. As ações levaram a Polícia Militar a realizar operação na área e manter o patrulhamento na região para minimizar os conflitos e garantir a segurança. Porém, mesmo após a ocupação, mais duas pessoas foram baleadas na noite de terça-feira.

Um adolescente de 16 anos e um jovem de 25 contaram aos policiais que estavam na Rua Paraíso quando supostos integrantes de uma gangue do bairro desceram de um pasto e, com duas armas de fogo, começaram a atirar. O adolescente relatou ter tentado fugir, pois avistou os suspeitos de longe. Mesmo assim, ele foi atingido na barriga e na mão esquerda, sendo encaminhado por populares para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte. No local, o rapaz foi medicado e submetido a exames. Já o mais velho levou um tiro de raspão na perna esquerda e também seguiu para a UPA Norte, onde foi medicado e liberado.

Após a dupla tentativa de homicídio, a Polícia Militar prendeu e encaminhou à delegacia um jovem de 18 anos, morador da Vila II, que, conforme relato policial, negou ter participado do crime. O assessor de comunicação organizacional do 27º Batalhão da PM, capitão Jean Amaral, relatou que um adolescente também foi apreendido. Na manhã desta quarta-feira (19), a Tribuna esteve na área de divisa entre os bairros para ouvir moradores. Acuados, eles cobram a instalação efetiva de uma unidade da polícia na área e pedem a ações mais efetivas da Prefeitura.

 

Ocupação

"Não estão ocupando o bairro. Passam com as viaturas de dia, mas à noite volta a acontecer tudo de novo. Queremos é que a PM monte um posto fixo aqui ao lado da Escola Municipal Professora Áurea Nardelli", cobrou uma agente de turismo, 48. Nas redes sociais, os moradores também questionaram a ocupação. "Que ocupação é essa? Até quando vamos ficar no meio desse fogo cruzado. Aqui também mora muita gente de bem. Precisamos ser ouvidos", disparo um cabeleireiro, 24, responsável por uma site de notícias na região.

Uma auxiliar de cozinha, 29, confirma a dificuldade para transitar entre os bairros. "Não podemos ir ao médico, nem a velório. No meio do caminho somos abordados pelos moradores do Vila I. Quando precisamos de médico, temos que pegar o ônibus aqui em cima e ir para a UPA Norte, mesmo assim, quando ficam sabendo que estamos lá, vão nos ameaçar", contou uma auxiliar de cozinha, 29.

"Moro aqui há 17 anos, e nunca foi assim. Até o posto de saúde tem fechado de vez em quando por conta disso. Essa geração não tem chegado nem aos 20 anos. A polícia precisa agir, recolher as armas, porque senão isso nunca vai acabar", cobrou uma dona de casa, 59. "Ontem (terça) à noite estava na igreja, e os meninos começaram a nos ameaçar. Fizemos uma roda e começamos a orar. Não estamos podendo ir nem à igreja", reclamou uma dona de casa, 65.

As ruas mais críticas ficam entre a 15 e 16, e o beco localizado na 5 de Agosto, em frente à Rua Carlos Alberto Querino, é o mais temido pelos moradores. "Queremos que fechem o beco. De um lado é a Vila I e de outro a Vila II. É por ali que eles passam e se enfrentam", contou uma jovem, 18. Capitão Jean Amaral informou que as ações foram intensificadas com a presença constante da PM, incluindo a 4ª Companhia de Missões Especiais. "Estamos em ronda permanente, mas a partir de sexta-feira haverá um estacionamento dos militares na área", garantiu.

Últimos episódios

Na última sexta-feira, um carro foi incendiado e tiros disparados durante confronto de gangues na Rua Dona Ana Salles, que permite o acesso aos dois bairros. Pelo menos quatro pessoas ficaram feridas. Uma delas foi baleada no pé, e as outras sofreram escoriações diversas. No sábado, um jovem, 18, ficou gravemente ferido ao ser alvejado por dois disparos na Vila Esperança I. Policiais militares conseguiram apreender um adolescente, 17, e capturar um rapaz, 19, suspeitos de participação no crime. Já na madrugada de segunda-feira, um homem, 34, foi morto a tiros na Vila Esperança II. Renato Pereira sofreu seis perfurações à bala pelo corpo, sendo três delas no pescoço, duas na cabeça e uma no ombro esquerdo. Nenhum envolvido no crime foi encontrado. Na terça, o clima ficou tenso pela manhã, quando os grupos rivais dos dois bairros trocaram tiros próximo ao beco que divide as localidades. Alguns comerciantes teriam chegado a baixar as portas temendo o confronto.

 

 

'Deixei de frequentar a escola porque fui ameaçada'

"Tenho medo de morrer, tia." A fala é de uma menina de 6 anos de idade, moradora da Vila Esperança II, que estava na saída do Curumim do Vila Esperança, na manhã desta quarta, quando a Tribuna esteve no bairro. A coordenadora da unidade, Edilamar Campos, confirma que a insegurança é constante. "Nossa situação é ainda mais grave, pois ficamos no meio dos dois bairros. O beco ao nosso lado é onde acontece tudo. Constantemente há alguém armado ou usando drogas. Só temos liberado as crianças se estiverem com os responsáveis", contou a coordenadora, explicando que o objetivo do Curumim é justamente minimizar a rivalidade. "Atendemos crianças dos dois bairros, e as ações são voltadas para a cultura de paz com intuito de que essa briga acabe."

Professores, profissionais e estudantes de outras unidades de ensino na região também sofrem com os constantes duelos entre os jovens. "Isso não é novo. Tive que deixar de frequentar a escola um tempo porque fui ameaçada. Esse ano que voltei", conta uma estudante de 18, moradora do Vila II.

"Recebi telefonemas de mães preocupadas em mandar os filhos para escola e também ouvimos comentários. Eu, particularmente, me sinto muito inseguro. A situação é delicada, principalmente na hora de sair do trabalho", contou o assistente técnico de educação Básica, 42, da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, o Polivalente de Benfica.

Segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Educação, os problemas têm ocorrido fora do ambiente escolar e que o fechamento da Escola Municipal Professora Áurea Nardelli nos últimos dias está relacionado às paralisações da categoria. A Secretaria de Saúde negou o fechamento da unidade de saúde por conta dos confrontos.

Ações sociais

Segundo o secretário de Governo, José Sóter de Figueirôa, a Prefeitura aguarda uma resposta do governo Estadual com relação ao pedido de reforço do efetivo para as polícias, feito pelo prefeito Bruno Siqueira (PMDB). "Estamos trabalhando para tentar evitar que a violência se propague de forma tão assustadora como tem sido observado. Nossa ação é complementar, e esse quadro só irá se reverter com o aumento do efetivo policial nas ruas."

Ele lembra que, no Vila Esperança, já existe um Curumim que exerce a função de reter o adolescente antes de que ele siga o caminho da violência. "Revitalizamos praças na região e vamos inaugurar uma creche no bairro, provavelmente em maio." Com relação ao problema no beco ao lado do Curumim, ele explica que pode realizar uma verificação do local e viabilizar uma possível solução, como o melhoramento da iluminação.

O secretário ressalta, ainda, ações sociais que têm sido desenvolvidas na cidade, principalmente naquela região. "A Zona Norte é a campeã de homicídios e um grande motivo de preocupação." Ele citou a instalação do projeto "Olho Vivo", que deve ser iniciado em abril, a construção do Plano Municipal de Enfrentamento à Violência e a inauguração de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) na Zona Norte ainda este ano.

 

 

Bairros se mobilizam pela paz

Diante do quadro de violência dos últimos dias, moradores do Bairro São Judas Tadeu se mobilizam para realizar mais uma ação em favor da paz. Os manifestantes lutam ainda pela instalação de um posto da Polícia Militar na comunidade. Segundo um dos integrantes do movimento "Basta de violência! A Zona Norte pede paz!", Jorge Henrique Giacomini, uma banca será montada, na rua principal do São Judas, no próximo sábado, a partir das 13h, para que assinaturas sejam recolhidas em um abaixo-assinado. "O documento solicita, prioritariamente, a instalação de um ponto de apoio da PM no local, que, posteriormente, poderá ser transformado em posto policial, a fim de que a população possa se sentir mais segura, já que, após a saída do 27º Batalhão do bairro, percebemos um aumento das ocorrências criminais", destacou. A mobilização contará ainda com distribuição de panfletos e atividades para as crianças.

Conforme Jorge, o abaixo-assinado já está circulando pelo bairro e, no último sábado, num intervalo de quatro horas, mais de 400 assinaturas foram colhidas. No dia 29 de março, outra mobilização será realizada na praça de São de Judas com atrações de lazer. Na ocasião também serão recolhidas mais assinaturas. O documento será entregue à Prefeitura e ao comando da Polícia Militar. A mobilização teve início após a morte de Anderson Marcos Soares, 40, em 16 de fevereiro. Ele morreu no HPS, depois de ter sido baleado no bairro no dia 8 do mesmo mês.

Também no sábado, no Santa Cândida, Zona Leste, moradores vão realizar a caminhada "Sou filho da paz", com objetivo de pedir segurança. A promoção é da Associação de Moradores do Santa Cândida junto com movimentos evangélicos e católicos. A concentração está marcada para 13h na Rua José Zacarias dos Santos, no São Benedito, no ponto final da linha 432. Segundo o vice-presidente da associação, Genésio da Silva, a mobilização vai contar com trio elétrico e cartazes. A saída está marcada para 15h com destino à praça do Santa Cândida, onde haverá atrações de música gospel. "A gente percebe a tensão e o medo entre os moradores, porque não sabemos a que horas a violência pode acontecer. As crianças já não ficam mais até tarde nas ruas e os comerciantes estão fechando as lojas mais cedo. Reconhecemos o trabalho que a polícia fez na terça-feira, mas esperamos que estas ações sejam contínuas", afirmou Genésio. Na última terça, em resposta aos recentes homicídios na Zona Leste, cerca de 140 policiais civis e militares ocuparam a região. O principal alvo foi o Bairro São Benedito, onde foram apreendidos mais de 40kg de droga, quatro armas de fogo, cerca de 200 munições. Quatro homens foram presos durante a ação.

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