Publicidade

01 de Julho de 2014 - 06:00

Unidade de Santa Luzia ficou 12 horas fechada após violência provocada por familiares de um paciente

Por CAMILA CAETANO, DANIELA ARBEX E SANDRA ZANELLA

Compartilhar
 
Segundo testemunhas, agressores iam danificando o que viam pela frente
Segundo testemunhas, agressores iam danificando o que viam pela frente
Paralelepípedo foi arremessado contra uma das portas, que teve seu vidro estilhaçado
Paralelepípedo foi arremessado contra uma das portas, que teve seu vidro estilhaçado

O funcionamento da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Santa Luzia, na Zona Sul da cidade, ficou interrompido por 12 horas no último domingo, depois que funcionários foram agredidos na noite de sábado por parentes de um paciente de 74 anos, morador do Bairro Santa Cecília, que aguardava sentado, há quase sete horas, uma vaga em hospital da cidade. Armado com um paralelepípedo arrancado do chão do estacionamento da UPA, um homem chegou a quebrar a porta de vidro de um dos setores do prédio, levando pânico a quem estava no local. O episódio foi denunciado à polícia, que deverá instaurar inquérito para apuração de responsabilidade. Apesar de ser considerado um caso isolado, o uso da violência como forma de protesto pela dificuldade de acesso ao sistema público de saúde tem sido recorrente, deixando profissionais da área cada vez mais acuados.

As câmeras de segurança da UPA flagraram o início da confusão. Nas imagens, que serão disponibilizadas para a polícia, é possível ver o pânico provocado pela invasão da unidade por volta das 22h30. De acordo com informações do boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar, familiares do idoso com suspeita de tuberculose iniciaram uma discussão com funcionários alegando que o paciente não estava sendo bem atendido. Em seguida, uma mulher de 27 anos pulou o balcão da recepção, entrando nas enfermarias, enquanto um jovem de 20 arremessava o paralelepípedo contra uma das portas, que teve seu vidro estilhaçado.

Outros parentes do idoso também teriam invadido a UPA. Na confusão, pelo menos três pacientes foram agredidos, e funcionários teriam sido ameaçados com bancos e suportes de soro. Alguns assentos ainda teriam sido arremessados contra as enfermarias. Quando os policiais chegaram, os suspeitos de agressão e vandalismo já haviam deixado a unidade e não foram localizados. Militares fizeram contato com a nora do idoso e mãe da mulher que teria pulado o balcão. Ela contou que a filha teria ficado nervosa em função da falta de informação e pelo fato de o paciente estar sentado em uma cadeira, embora tivesse sido classificado como um caso cujo atendimento deveria ser feito o mais prontamente possível. A mãe disse, ainda, que, depois de transpor a recepção, a mulher foi agarrada pelo pescoço por funcionários e que, diante da situação, seu filho arremessou a pedra contra a porta.

Uma das testemunhas, que prefere não se identificar, relata que havia cerca de oito familiares do idoso. "Eles foram quebrando tudo que viam pela frente. Os funcionários da UPA fecharam todas as portas possíveis para tentar evitar maiores danos. É muito complicado, porque não há nenhuma segurança na unidade", comenta a testemunha. A assessoria de comunicação do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, gestor da UPA, confirmou que não há vigilantes no local, apenas um porteiro. Segundo a assessoria, a contratação de segurança armada é proibida nestes locais.

 

'Foi um terror'

Leandro Vieira Paraviso, 40, que recebia assistência na unidade semi-intensiva da UPA, disse que houve tumulto e correria. "Os enfermeiros tentaram proteger os pacientes, sendo uma correria no local. Algumas pessoas caíram em cima de mim, o que fez com que meu soro saísse da veia. Eu ainda tentei proteger uma senhora que estava ao meu lado. Foi um terror", desabafa o usuário. Um enfermeiro afirmou à Polícia Militar que, antes da confusão, havia chamado os familiares do paciente e explicado a eles que o mesmo estava sendo bem cuidado. O funcionário confirmou que o idoso estava em uma cadeira à espera de um leito, mas que ele seria transferido para o hospital assim que houvesse vaga. Segundo a Secretaria de Saúde, o usuário aguardava transferência para outra unidade que pudesse pesquisar uma suspeita de tuberculose. Às 13h de domingo, foi liberada vaga para o Hospital João Penido.

Segundo profissionais da UPA, no dia seguinte ao ocorrido, a unidade teria ficado fechada no período da manhã e ainda na parte da tarde. A Secretaria de Saúde alegou que o atendimento ficou restrito aos casos de urgência e emergência, por 12 horas. Em nota, o órgão informou que a administração da UPA e a própria Secretaria de Saúde vão acionar a Justiça para que os agressores sejam responsabilizados pelos seus atos. Ainda conforme a pasta, a Guarda Municipal foi acionada para garantir a segurança de usuários e funcionários. Na manhã de ontem, o atendimento foi apontado como normal, e os danos já haviam sido reparados. No entanto, houve reclamações de usuários que alegam não ter conseguido assistência. Por mês, cerca de seis mil atendimentos são realizados na unidade. Em abril, o número subiu para 7.782, em função do aumento de problemas respiratórios provocados pela queda de temperatura, fazendo com que o nível de satisfação, antes avaliado em 91%, também caísse.

Médicos que trabalham na UPA alegam que a insegurança é uma realidade do serviço. Um plantonista que prefere não ser identificado afirmou já ter visto enfermeiras serem agredidas e que, em função de problemas semelhantes, pediu demissão de um serviço público de saúde.

 

 

Idoso esperou quase 7 horas em cadeira

O paciente de 74 anos que acabou sendo o centro de toda confusão deu entrada na UPA de Santa Luzia no sábado, às 15h48, com queixa de cansaço e falta de ar. Relatou, ainda, ter feito tratamento anterior de pneumonia, recebendo alta hospitalar três dias antes de procurar a unidade com novos sintomas. Às 15h51, o idoso passou pela triagem realizada por enfermeiro. Pelo Protocolo de Manchester, adotado em unidades de saúde pública da cidade, foi classificado pela cor laranja, que ocupa o segundo lugar em relação ao nível de gravidade. Na frente do laranja, está apenas a cor vermelha, para casos considerados emergenciais. Pelo protocolo, cinco cores ajudam a definir a prioridade do atendimento e o tempo de espera. Às 17h36, o idoso passou pela primeira evolução, quando o médico avalia se o usuário precisa ficar internado ou se poderá ter alta após receber medicação. Às 18h04, foi feito pedido de vaga hospitalar para o paciente junto ao SUS Fácil.

Quando os ataques foram iniciados contra a unidade, atingindo outros pacientes, fazia quase sete horas que o idoso estava sendo mantido assentado em uma cadeira por falta de leito no setor laranja, já que os cinco disponíveis estavam ocupados. De acordo com a assessoria da unidade, mesmo na cadeira, ele vinha sendo medicado e acompanhado. Os familiares, porém, entenderam que a ausência de leitos para o idoso era sinônimo de desrespeito. O mesmo argumento foi apresentado por outra usuária do SUS na Unidade de Atenção Primária à Saúde (Uaps) do Monte Castelo, Zona Norte, para agredir um servidor do posto na última quinta-feira.

De acordo com o Registro de Evento de Defesa Social (Reds) da Polícia Militar, a mulher, que sofre de problemas neurológicos, não recebeu assistência e passou a agredir e desacatar o funcionário, danificando seus óculos. O problema começou porque o médico que a acompanha não havia ido trabalhar no dia, porque estaria internado. Desta maneira, teria sido solicitado que a paciente retornasse em outra data. Ela relatou que sua ficha de atendimento foi repassada para outra pessoa. Admitiu ter discutido com o funcionário, chegando a jogar o livro de atendimento no chão, mas negou ter agredido o profissional. Após o fato, o servidor não foi trabalhar no dia seguinte. Segundo trabalhadores da Uaps, a unidade teria ficado fechada por um período durante a manhã da última sexta-feira, já que o servidor envolvido é o responsável pela distribuição das fichas de marcação de consultas. Contudo, segundo a Subsecretaria de Atenção Primária à Saúde, as pessoas que já estavam na unidade e com a consulta marcada foram atendidas normalmente.

 

Sentimento de abandono

Para o diretor do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF, Paulo Fraga, muitas pessoas acabam recorrendo à violência para protestar contra à violência institucional da qual são vítimas movidas pelo sentimento de abandono social. "Ao se sentirem violentadas, elas acabam reproduzindo essa violência através do seu comportamento, principalmente porque já têm uma experiência com a prática do abandono. Acreditam que, através da revolta manifestada, serão ouvidas. São práticas que a gente entende, mas que não podem ser legitimadas, já que, em nenhum momento, se deve utilizar desse tipo de ação para enfrentar a violência institucional. Talvez a unidade estivesse cumprindo fielmente o protocolo, mas há necessidade de maior transparência no atendimento e de um local onde haja infraestrutura necessária para o procedimento de transição, a fim de que um idoso não precise aguardar sentado pela internação hospitalar."

De acordo com a assessoria de comunicação do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, o paciente foi conduzido ao leito na UPA, depois que um deles vagou, sendo transferido, no início da tarde de domingo, para o hospital.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você é a favor da liberação da maconha para uso medicinal?