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10 de Abril de 2013 - 06:00

Integrantes punidos que cuidavam do setor tinham cargos de confiança; para dificultar extravio, quartel muda rotina adotada

Por Michele Meireles

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Apesar de as investigações do desvio de armas, ocorrido no 4º Depósito de Suprimentos (4º D Sup), no Centro, não estarem concluídas, três militares que trabalhavam no setor de armas do quartel já foram desligados do Exército. Além dos ex-militares, um civil foi indiciado no inquérito policial militar (IPM). Segundo o procedimento investigatório da 4ª Circunscrição da Justiça Militar, sob responsabilidade da juíza Maria do Socorro Leal, todos são suspeitos de "possível subtração de armamento e munições que deveriam ter sido destruídos pelo Exército". O comandante do 4º D Sup, coronel Sylvio Pessoa da Silva, informou que o quartel adotou novas medidas preventivas desde a descoberta do desvio e admitiu que possivelmente houve falha na fiscalização dentro da unidade. "Era um processo que permitia que uma grande quantidade de armas fosse entregue de uma única vez. Nesta manipulação, uma ou outra arma era desviada sem que os maiores responsáveis percebessem."

Ainda não se sabe desde quando a situação acontecia, e o comandante destacou que houve dificuldade em detectar o delito, já que "os militares que cuidavam deste setor tinham cargos de confiança. As pessoas que cometiam o crime estavam neste processo, isto facilitou que elas realizassem o crime". Outro fator que, na avaliação do comandante, pode ter contribuído para que o episódio acontecesse foi que, antes de o problema ter sido constatado, o quartel acumulava uma certa quantidade de armamentos para que fosse feita a destruição. "Fazíamos uma juntada. Agora, o trabalho está sendo feito semanalmente."

Coronel Pessoa destacou que a quantidade extraviada, por enquanto, ainda é pequena, e que nenhuma seria oriunda da Campanha do Desarmamento. "Uma arma que tenha saído já é muito grave. Sem dúvida, uma arma retirada de um aquartelamento tem um objetivo nefasto."

Apesar de o IPM já ter sido remetido à Justiça Militar e ao Ministério Público Militar, a unidade continua a fazer auditorias, revisões processuais e realiza um trabalho de inteligência em cima de imagens do circuito de câmera do quartel. "Temos um sistema que nos permite auditar se a arma foi retirada daqui e de onde veio. Militares também estão trabalhando na perícia metalográfica de todo o material apreendido na cidade, e esta auditagem vai nos permitir chegar a um resultado concreto."

 

Catalogação mais apurada

Sem revelar o quantitativo de armar recebidas e destruídas nos últimos meses, o comandante do 4º Dsup informou que o quartel recebe duas vezes por semana armamentos e, por vezes, munições, provenientes da Campanha do Desarmamento, da Justiça e aqueles inservíveis aos órgãos de segurança pública. Elas são oriundas de Belo Horizonte, cidades do Sul de Minas e da Zona da Mata. Assim que chegam à unidade militar, as peças precisam passar por uma pré-destruição, que as inutiliza, e só depois é que elas seguem para uma siderúrgica, onde são derretidas.

Desde que o desvio foi detectado, a unidade passou a receber os armamentos em menor quantidade e realiza uma catalogação mais apurada destes materiais. O comandante do 4º DSup destacou que, assim que surgiu a suspeita do crime, em outubro passado, os militares que eram responsáveis pelo recebimento, catalogação, transporte e conferência das armas foram trocados de função.

 

 

'O padrão das mortes na cidade mudou'

Juiz de Fora vive hoje uma explosão no número de mortes violentas. Até esta terça-feira (09), foram registrados 52 homicídios na cidade, número que representa mais da metade de todos os assassinatos de 2012, quando 99 pessoas perderam a vida em crimes violentos. Estudiosos da área acreditam que a destinação das armas, que deveriam ter sido destruídas pelo Exército, pode ajudar a explicar o quadro vivido no município.

O coordenador do Programa de Controle de Armas de Fogo da ONG Viva Rio, o sociólogo Antônio Rangel, classificou o fato como "absurdo" e afirmou que "o desvio de armas está, com certeza, ligado ao aumento nos homicídios. Quem irá comprar estas armas ilegais? Não serão cidadãos de bem". O estudioso faz ainda outro alerta: para ele, a posição geográfica de Juiz de Fora, próximo do Rio de Janeiro, pode contribuir para que as peças que voltaram a circular ilegalmente abasteçam mercados clandestinos. "Elas vão para quem tem poder de compra. Hoje, por exemplo, quem detém mais este poder é o narcotráfico."

Para o coordenador do Núcleo de Pesquisa sobre Violência e Políticas de Controle Sociais da UFJF, André Gaio, o desvio de armas pode explicar também a mudança no perfil dos homicídios ocorridos na cidade. De acordo com o levantamento da Tribuna, das 52 pessoas assassinadas em Juiz de Fora neste ano, 42 morreram vítimas de disparos de arma de fogo, o que representa 80% do total. "O padrão das mortes na cidade mudou. Até 2012, 80% dos crimes eram cometidos com armas brancas. Agora, a maioria tem uso de armas de fogo, e ninguém explicava de onde vinham estes armamentos. Nunca houve esta resposta. Se o número de armas desviadas for muito grande, pode ajudar a explicar esta lacuna."

Gaio destacou que "da forma como os homicídios estão espalhados, a distribuição dos armamentos desviados deve ter sido muito pulverizada. Porém, não se sabe se tem gente alugando arma, ou seja, com muita arma, ou se há muita gente tendo acesso a estes armamentos".

O sociólogo Antônio Rangel acredita na falta de um controle efetivo da destinação dos armamentos e munições por parte do Estado. "No caso da Campanha do Desarmamento, os cidadãos atendem ao apelo do Governo para entregarem armas, e o Estado não cuida devidamente destas peças, permitindo que elas cheguem às mãos de bandidos, o que é até pior do que se ficassem nas mãos de cidadãos de bem. Já se as armas desviadas forem as apreendidas pela polícia com delinquentes, é gravíssimo também: o policial se arrisca para desarmar o bandido, e o outro braço do Estado, o Exército, não cuida para que a arma seja destruída, e ela acaba voltando para as mãos da delinquência. É um escândalo."

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