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12 de Janeiro de 2014 - 07:00

Especialistas criticam disputa exacerbada entre alunos e pregam formação cidadã nas escolas

Por KELLY DINIZ

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Muitas são as provas nacionais que buscam avaliar o desempenho dos alunos, apontar falhas no aprendizado e fornecer dados estatísticos para orientar a confecção dos planos metodológicos das escolas. A pressão é ainda maior no ensino médio, período em que os alunos se preparam para ingressar na educação superior. Na disputa acirrada por vagas na graduação, os colégios padronizam seus estudantes com conteúdos específicos cobrados nos vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Neste processo, a formação humana e cidadã acaba sendo negligenciada.

O chefe do Departamento de Filosofia da UFJF, Juarez Sofiste, explica que o Enem nasceu para avaliar a capacidade de raciocínio dos alunos e não para medir a habilidade de decorar, como vem acontecendo. "O vestibular era um caos pedagógico. O MEC acordou e iniciou uma série de mudanças. Porém, agora, o Enem está traindo esta ideia inicial." A professora de pedagogia e artista plástica Neide Marinho acredita que o problema está ligado ao sistema de ensino, que é baseado no modelo europeu e não adaptável à realidade brasileira. "Não é uma questão atual, trazida pelo Enem. Nunca houve uma humanização real do ensino."

Para agravar a situação, as escolas foram ranqueadas pela média de notas dos alunos no Enem. No mês passado, a Federação Nacional de Escolas Particulares (Fenep) protocolou no Ministério Público Federal (MPF) pedido para que se investigue a divulgação dessas notas.

O coordenador do curso de pedagogia da UFJF, Paulo Roberto Dias, afirma que o fato de algumas instituições entrarem com recurso por não estarem no ranking mostra que o foco não é a humanização. "Elas estão mais preocupadas com sua colocação do que com a metodologia que defendem."

O coordenador do ensino médio do Colégio Academia, Ricardo Beire, analisa que o ranking de notas acaba pressionando os colégios para uma formação mais conteudista. "Avaliar uma escola pelos alunos é uma metodologia simplista. E não se pode comparar uma escola de 200 alunos com uma de 50. Sem contar a comparação com instituições que utilizam processos seletivos."

Prejuízos

A formação conteudista, sem uma prática docente humanizadora, pode trazer prejuízos para a vida do estudante a curto e longo prazos. Para a orientadora educacional do terceiro ano e pré-vestibular da Academia, Leda Maria Fernandes Mansur Lisboa, o pior efeito do ranqueamento dos colégios, feitos a partir das notas do Enem, é aumentar a disputa entre os alunos por uma vaga no ensino superior. "Para incentivar essa competição acirrada, as escolas abrem mão de alguns valores. O estudante quer chegar lá a qualquer custo."

Paulo Roberto concorda que essa metodologia reforça ideias preconceituosas. "Quando você valoriza o individualismo, pode formar um cidadão que pisa nas pessoas, que se considera o melhor."


Formação cidadã dentro da sala de aula

Uma alternativa encontrada pelo Colégio de Aplicação João XXIII para reforçar a humanização da educação foi o desenvolvimento do projeto "Coletivos de trabalho", no qual os professores se reúnem e elegem um tema para trabalhar em sala de aula. Segundo a coordenadora do 1º ao 5º ano do ensino fundamental da escola, Cleuza Maria Abranches, a ideia é abordar as diferentes formas de preconceito. "O projeto é voltado para humanização, trabalha com a diferença."

Outra estratégia do João XXIII é abordar os conteúdos de forma crítica. A diretora da instituição, Andréa Fagundes, informa que dessa forma se busca um olhar ampliado. "Assim, conseguimos atender a demanda do Pism (Programa de Ingresso Seletivo Misto da UFJF) e do Enem, que a sociedade exige, e também propiciamos uma visão mais filosófica para os alunos."

No Colégio Academia, a orientadora educacional do terceiro ano e pré-vestibular, Leda Maria Fernandes Mansur Lisboa, conta que uma saída encontrada para minimizar os danos causados pelos vestibulares e pelo Enem foi substituir a competição entre os alunos por uma vaga no ensino superior pela competição consigo mesmo. "Por exemplo, a gente não publica lista de primeiros lugares. O aluno chega para gente e pergunta qual foi a sua classificação. Eu explico como ele está, onde precisa melhorar. No próximo exame, ele mesmo se analisa. O próprio aluno fala: 'naquela vez você falou para eu estudar isso e aquilo, olha como eu melhorei'. Eles se sentem motivados a buscar superação."

Tanto a Academia quanto o João XXIII possuem na grade curricular do ensino médio disciplinas como educação física, arte e música, entre outras. Para o chefe do Departamento de Filosofia da UFJF, Juarez Sofiste, essas disciplinas não fazem milagres, mas auxiliam no desenvolvimento. "A filosofia colabora para o senso crítico. Ensina o aluno a pensar por si mesmo, a formar uma linha de pensamento."

Os colégios também procuram ensinar para os alunos a importância de respeitar as regras. "No João XXIII, cada sala tem um professor coordenador de turma que, junto com os alunos, formulam as regras de convivência da classe. Estas normas ensinam que é preciso viver dentro de determinados limites", observa Cleuza. Ela também conta que o colégio busca formar valores e incentivar a solidariedade por meio da literatura.


Alternativas para o ensino conteudista

Ao longo do tempo estão ocorrendo modificações no mercado de trabalho, e os profissionais passam a ser exigidos para além de sua formação como especialistas. A expectativa atual é por trabalhadores responsáveis, éticos, criativos, com autonomia e capacidade crítica. "Para garantir este tipo de profissional, é preciso uma escola contemporânea", defende o professor de filosofia, Juarez Sofiste.

Segundo ele, atualmente, o colégio é um lugar "insuportável", onde se passa conteúdo. "O aluno é mero receptor. É preciso quebrar esse paradigma. O aluno deve ser o protagonista da escola. Ela deve ensinar o estudante a ter iniciativa, criatividade, a ser exemplar, a ter proatividade." Para Juarez, também falta a incorporação das tecnologias em favor da educação. "A escola hoje é igual há anos."

Para o coordenador do curso de pedagogia da UFJF, Paulo Roberto Dias, uma solução seria as instituições exporem seus valores e defenderem seu projeto pedagógico. Segundo ele, os colégios estão preocupados com o que o Governo e as universidades querem e não com o compromisso de um projeto pedagógico. "As escolas estão tentando se ajustar a essa política atual. Elas não têm se organizado para se rebelar contra a situação. Deveriam mostrar o tipo de escola que querem ser."

Já a professora de pedagogia e artista plástica Neide Marinho aponta o estudo da antropologia como forma de repensar a mentalidade na base. "É preciso discutir e mostrar quem somos. Levar a antropologia para os alunos, mas fazer isso com conexões com a cultura local." Neide acredita que é preciso mudar também os professores, começando por sua formação.

O coordenador do ensino médio do Colégio Academia, Ricardo Beire, enfatiza que a escola tem que oferecer um alicerce de formação humana. "A escola tem que estar viva. Não pode ficar presa a quatro paredes". Neide concorda. "A escola tem que ser externa e solar, não isolada. Ela precisa dialogar com a comunidade."

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