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11 de Julho de 2012 - 07:00

Maioria dos 400 ciclistas ouvidos usa bicicleta para ir trabalhar; tema será debatido na Câmara

Por Guilherme Arêas

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Sem faixa exclusiva, ciclistas dividem espaços com carros nas ruas
Sem faixa exclusiva, ciclistas dividem espaços com carros nas ruas
Flagrantes de abusos são comunsnas ruas, como o calçadão da São João
Flagrantes de abusos são comunsnas ruas, como o calçadão da São João

Juiz de Fora tem apenas 2,2 quilômetros de ciclovia pública. A dimensão refere-se à extensão do anel viário do Campus da UFJF, espaço que serve mais para o ciclismo de esporte e lazer do que propriamente para o deslocamento na malha viária da cidade. Quando o assunto é utilizar as bicicletas como meio de transporte no dia-a-dia, os poucos juiz-foranos que se arriscam nas pedaladas travam uma batalha desigual com motos, carros e caminhões. Importantes obras de reestruturação urbana, como as das avenidas Deusdedit Salgado, Rio Branco, Presidente Costa e Silva e Getúlio Vargas, ignoram as ciclovias. A situação piora quando os próprios ciclistas desrespeitam regras previstas no Código de Trânsito. Uma audiência pública às 15h de hoje, solicitada pelo vereador Flávio Cheker (PT), vai debater o assunto na Câmara Municipal.

Não há dados oficiais sobre o número de bicicletas em Juiz de Fora. Sabido até agora é que há demanda reprimida pelo uso do modal como transporte, principalmente no Centro. Essa foi a conclusão a que chegou o gestor ambiental Ugo Castañon em sua dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Transportes (Coppe) da UFRJ, cujos dados serão apresentados na audiência desta tarde. Os 400 ciclistas entrevistados (ver arte) apontaram que a topografia irregular do município não é tão desestimulante como poderia se supor. "A falta de infraestrutura é o principal ponto de impedância para a circulação de mais bicicletas em Juiz de Fora", conclui o autor, ressaltando que 85% dos entrevistados estariam dispostos a pedalar todo dia se houvesse infraestrutura.

A quantidade de carros circulando com apenas uma pessoa dentro chama atenção na cidade. São cidadãos que, em parte, poderiam deixar o automóvel em casa e adotar as "magrelas" como meio de transporte menos poluente, mais saudável, barato e com dimensões bem menos impactantes para o trânsito.

Quem teve a oportunidade de pedalar por quase dez mil quilômetros em cinco países da América do Sul é categórico: "Nossa cidade não está preparada para o uso da bicicleta." A constatação é do administrador juiz-forano Carlos Werner, 29 anos, que, ao lado de dois amigos, largou tudo para tentar dar a volta ao mundo sobre duas rodas, há dois anos. A façanha do projeto "Nova origem" ainda não foi concluída, mas já foi possível perceber que Juiz de Fora continua tratando como problema o que muitos municípios já encaram como solução. "Em Bogotá, na Colômbia, a criação de mais de 350 quilômetros de ciclovias fez com que o número de ciclistas aumentasse em sete vezes. Em Quito, no Equador, as ciclovias cruzam a cidade de Norte a Sul, Leste a Oeste, dando opção ao ciclista de pedalar por toda a cidade."

O estudante de direito Guilherme Mendes, 36 anos, usa a bicicleta todos os dias entre o São Mateus, onde mora, e o Centro, onde trabalha como protético. Por meio do projeto "Bike anjo", ele auxilia amigos que querem adotar o mesmo hábito, mas ainda se sentem inseguros. Guilherme também é o responsável pelo "Coletivas JF - bicicleta parada não leva a nada", um projeto que nasceu em São Paulo e tem o objetivo de democratizar o uso deste tipo de veículo. "A ideia é juntar sucata de bicicleta e, quanto tiver peças suficientes, realizar oficinas abertas e gratuitas para a montagem de bicicletas novas, que serão cuidadas por síndicos, responsáveis por emprestá-las a pessoas que queiram usar nas ruas", resume.

"Hoje temos o paradigma do automóvel: uma pessoa que vai fazer 18 anos pensa logo em tirar carteira. Não pensa que pode usar bicicleta ou continuar tomando ônibus, até porque o transporte público tem muitos problemas. Esse paradigma tem que ser quebrado", sugere Ugo Castañon.

Abusos

Nas ruas, além de o número de bicicletas ser restrito, é comum os usuários não utilizarem itens de segurança. Como o uso de capacete é facultativo e não há fiscalização quanto à adoção dos equipamentos obrigatórios (campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, e espelho retrovisor esquerdo), fica por conta dos próprios ciclistas a adoção ou não destes. Trafegar pela calçada ou na contramão também são situações comuns.

Settra teme pela segurança de usuários

A falta de infraestrutura é reconhecida pela Prefeitura, que teme pela segurança dos ciclistas, principalmente no Centro, e não estimula o uso de bicicletas em Juiz de Fora hoje. Um dos argumentos é de que a quantidade de usuários das bikes é muito menor do que o de carros e pedestres, e que, mesmo com a criação de ciclovias, os deslocamentos sobre duas rodas não aumentariam tanto a ponto de melhorar o trânsito. "Enquanto a média do Brasil é de 2% a 3% de deslocamentos feitos por bicicletas no espaço urbano, em Juiz de Fora, esse índice é de 0,78%, segundo o plano diretor de 1996", explica o subsecretário de Mobilidade Urbana da Settra, Carlos Eduardo Meurer. A topografia da cidade também é apontada pelo subsecretário como desfavorável.

Ainda conforme Meurer, a PJF aguarda avaliação da Caixa Econômica Federal para liberação de recursos para a ciclovia da Zona Norte, ligando o Bairro Francisco Bernardino ao Distrito Industrial, com ramificação na Avenida Simeão de Faria, totalizando 8,8 quilômetros. "Seria uma ciclovia segregada, bidirecional, com 2,5 metros de largura."

Para a Cidade Alta, a Settra pediu autorização ao Dnitt para instalar uma ciclofaixa provisória de esporte e lazer, enquanto as obras da BR-440 estiverem paralisadas. A intervenção seria feita da Rua Roberto Stiegert até a altura do Spina Ville II. "Neste caso, seria uma ciclofaixa unidirecional, de dois metros e funcionando no mesmo sentido do fluxo de carros."

Já a lei que prevê a implantação de ciclofaixas em ruas do Centro aos domingos e feriados, das 7h às 15h, ainda precisa de regulamentação. "O projeto demanda sinalização vertical e horizontal, o que vai confundir com a sinalização que já existe. Não estamos vislumbrando facilidade em fazer isso", constata Meurer.

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