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15 de Dezembro de 2013 - 07:00

Tribuna voltou a áreas afetadas por tragédias na última década e encontrou alguns locais com mesmas situações de risco

Por DANIELA ARBEX

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Seis anos depois de ter tido a casa parcialmente destruída por um deslizamento de terra durante um temporal, a dona de casa Érica Cristina da Silva Marques dos Santos ainda vive no local onde ela, na época grávida de 8 meses, e o filho de 4 anos escaparam da morte em 2007. Apesar de o imóvel localizado entre as ruas São Pancrácio e São Tarcísio, no Bairro Nossa Senhora Aparecida, na Zona Leste, continuar sob risco, a mulher enfrenta mais um período chuvoso sob o medo. E Érica não é única. A Tribuna realizou levantamento de mais de uma década de ocorrências, que deixaram pelo menos 15 mortos e mais de 1.600 desalojados e desabrigados nesse período. Ao voltar às áreas afetadas por soterramentos e deslizamentos de terra, o jornal descobriu que muitas delas permanecem sem intervenções do Poder Público apesar dos riscos. Mais do que isso. Socorridas no momento da tragédia - quando receberam aluguéis sociais temporários -, muitas famílias que perderam tudo se viram, tempos depois, sozinhas para recomeçar.

Hoje, mãe de quatro filhos, Érica Cristina, 31 anos, conta que teve a casa parcialmente soterrada em 16 de janeiro de 2007. Na ocasião, o primo dela Cris Jhones Leopoldino, então com 18 anos, ficou preso nos escombros quando tentava salvar os parentes e uma inquilina que residia no andar de baixo do imóvel. Presa em casa, ela conseguiu deixar o lugar afetado após Cris Jhones quebrar com marreta a parede do quarto do filho, Samuel, saindo com a criança pela laje do imóvel vizinho. Dois dias depois, abrigada na casa de uma vizinha, Erica deu à luz João Vítor. "A única coisa que consegui salvar foi o enxoval do bebê. Levou mais de três meses para a Prefeitura começar a pagar o meu aluguel social, na época, R$ 180. Fiquei três anos morando no Parque Guarani, longe dos meus familiares. Acabei me separando e voltando para cá em 2010. Mesmo com medo, queria estar perto dos meus parentes", diz ela.

Somente este ano, a dona de casa, que recebe auxílio doença, conseguiu juntar dinheiro para construir um muro de arrimo em parte do terreno. A água da chuva, no entanto, continua atingindo a casa, já que a Rua São Pancrácio, localizada acima, não tem boca de lobo. Para minimizar o problema, a Prefeitura construiu uma mureta na via. Com isso, a água desvia do barranco, mas inunda o escadão que dá acesso à moradia de Érica, impedindo a entrada e a saída da família.

Em Graminha, na Zona Sul, onde três pessoas de uma mesma família morreram soterradas pela queda de um barranco em janeiro de 2003, na Rua Joaquim Vicente Guedes, a vegetação tomou conta do local. "Essa família saiu de Petrópolis (RJ) para cá, fugindo das chuvas. Mas eles acabaram morrendo aqui", comenta a vizinha Aparecida Augusto, 48 anos. No desastre, um adolescente, à época, ficou órfão de pai e mãe, perdendo ainda o único irmão. Hoje, já adulto, o rapaz vive em São Mateus. Embora ninguém resida no terreno, atualmente, a terra do barranco continua descendo, levando insegurança a moradias do entorno.

De acordo com o secretário de Obras, Amaury Couri, as duas áreas estão entre as 41 identificadas pela Defesa Civil até 2011 como de risco nos graus de 1 a 4. "Já temos R$ 40 milhões em recursos do Ministério da Cidade para realização de obras nesses locais. Cerca de 90% dos projetos de engenharia já foram entregues para a Caixa Econômica Federal para análise. Os recursos serão liberados de acordo com as licitações. A nossa expectativa é que todas as obras estejam licitadas até o final do ano que vem e que pelo menos um lote comece a ser executado no primeiro semestre. No entanto, não dá para adiantar qual área será contemplada primeiro, porque vai depender das liberações feitas pela Caixa." Em relação à São Pancrácio, ele prometeu avaliar o que pode ser feito de imediato no local.

 

Comunidade amedrontada

Na Vila Ideal, Zona Sudeste, onde mãe e filha morreram soterradas na Rua Giussepe Novelino, em novembro de 2009, após a queda de um barranco de 30 metros, o terreno onde tudo aconteceu foi colocado à venda, conforme placa de vende-se afixada na entrada. Na ocasião, o motorista de ônibus Luiz Fernando de Nascimento, 30 anos, perdeu a esposa de 25 anos e a única filha, de 2. Parcialmente soterrado, ele foi retirado com vida dos escombros, mas permaneceu internado. Segundo o irmão do rapaz, Luiz Fernando só soube do que aconteceu quando as duas já haviam sido sepultadas.

No local, porém, as obras de drenagem iniciadas pelo Poder Público ainda não foram concluídas. O barranco foi cortado por uma estrada que liga Vila Ideal ao Guaruá. O novo acesso preocupa os moradores da Rua Jorge Angel Livrada, no Solidariedade, que fica bem acima do terreno onde a terra cedeu. Na época em que o deslizamento provocou as duas mortes, mais de dez famílias da Jorge Angel tiveram que deixar suas casas, retornando meses depois. Após o desastre, a Prefeitura realizou serviço de canalização na via, mas hoje a água cai exatamente sobre a nova estrada. Vizinha do imóvel atingido, a aposentada Sônia Francisco Oliveira, 55, diz estar muito preocupada com os temporais. "Esta semana, desceu muita lama de lá. Quero sair daqui, pois tenho medo do que possa acontecer." O secretário Amaury Couri explicou que as obras de drenagem da área em questão serão concluídas após a terraplanagem na via que liga os dois bairros. Com isso, segundo ele, o Solidariedade ficará protegido em relação ao barranco, afastando o risco de novos deslizamentos.

 

Dona de casa perdeu marido e três filhos

Quando fez três anos, em 18 de janeiro de 2003, Estefani, a terceira filha da dona de casa Aparecida de Oliveira Maria Pascoal , ganhou uma festa de conto de fadas. Apesar das dificuldades financeiras da família,o imóvel de placas de muro e telhas de amianto da Rua Otávio Pereira Torres foi todo enfeitado de rosa. O sorriso da filha compensou o sacrifício para pagar a comemoração que acabou sendo a primeira e única da menina. Quase um ano depois, em 9 de janeiro de 2004, o pai de Estefani, o balconista José Raimundo da Silva, 32 anos, foi acordado por um barulho no imóvel erguido em terreno cedido no Bairro Nossa Senhora Aparecida. O relógio marcava 6h. No cômodo dormiam ele, a esposa, a menina e outros três filhos de 4 meses, 8 anos e 11. Às 6h05 tudo veio abaixo.

Na tentativa de salvar a esposa da montanha de terra que, em segundos, encobriu o quarto, José Raimundo a jogou para fora da cama. Quando o muro de contenção do terreno caiu com o barranco, o arco da cama onde o casal dormia atravessou o pescoço do bebê Wendell. As paredes cederam, soterrando o beliche onde dormiam Ítalo, 8 anos, e Silas, 11. Ítalo foi o único que conseguiu correr. Os pais e irmãos ficaram presos sobre os escombros. Com o corpo colado a Aparecida, José Raimundo ficou apenas com os olhos para fora da terra. Ela parcialmente soterrada. Depois de ver seu bebê morto, Aparecida assistiu à morte do marido. Sua esperança era que Stefani sobrevivesse, pois conseguia ouvi-la. "Ela gemia o tempo todo. Mas quando os bombeiros chegaram e retiraram o pai dela, Stefani deu o último grito", relembra, em lágrimas, a dona de casa, hoje com 36 anos. Na tragédia, ela perdeu o marido e três dos quatro filhos: Wendell, Estefani e Silas. Restaram ela e Ítalo, hoje com 18 anos. "Foi um pesadelo. Naquele momento, meu mundo acabou. Perdi toda a minha família. Não há um dia sequer que eu não pense nos meus filhos. Apesar de minha vida ser muito difícil, minha casa era abençoada", diz Aparecida, que casou novamente e, além de Ítalo, tem uma menina de 8 anos. Somente agora, nove anos após a tragédia, a mulher conseguiu visitar o antigo endereço, onde hoje foi erguido um prédio.

Em frente ao imóvel, Aparecida lembrou que, dias depois do desastre, tentou salvar a memória da família. Em meio ao barro, resgatou fotos e acabou encontrando, no que restou do armário, a boneca que Estefani ganhou na sua única festa de aniversário. "Eu queria que ela tivesse aquilo para sempre, por isso só a deixava brincar com a boneca no final de semana. Mas me arrependo, pois Estefani se foi, e a boneca dela ficou aqui, novinha, na caixa", lamenta.

 

Cinco anos à espera de indenização

Ao sair de casa com a roupa do corpo, em 8 de março de 2008, a aposentada Maria José Freitas Fusário, 80 anos, jamais pensou que perderia em minutos toda a história da sua vida. Moradora da Rua José Ladeira 186, no Bairro Santa Tereza, Zona Sudeste, ela assistiu, impotente, a demolição do imóvel onde passou mais de 40 anos. Além dela, os três filhos, que residiam em imóveis independentes construídos no mesmo terreno, mas com entrada pela Rua Edgar Carlos Pereira, também viram ruir o sonho de uma vida. Da noite para o dia, os quatro ficaram sem moradia. Ao todo, 13 famílias do bairro tiveram suas casas derrubadas após o aparecimento de rachaduras no solo e nas paredes das edificações. Quase seis anos depois da tragédia, ninguém foi indenizado. Pior: o Poder Público deixou para as vítimas o ônus de provar que as causas do desastre na área não são naturais, como sustenta até agora a versão oficial. E eles não são os únicos desassistidos.

"A partir daquele março de 2008 mudou tudo na nossa vida. Eu, minha mãe e meus dois irmãos nos vimos, de repente, na rua. Morávamos no mesmo terreno, no Santa Tereza, onde nos encontrávamos todos os dias. Depois que fomos convencidos pela Defesa Civil a sair de nossas casas - a demolição aconteceu sem ordem judicial -, cada um foi viver em um canto da cidade. Hoje, passados cinco anos da demolição de nossos imóveis, minha mãe mora de favor na casa de um filho, no Bairro Guaruá. Eu e meu marido moramos de aluguel no Bairro Santo Antônio, e meu outro irmão faleceu de infarto, há dois anos, após entrar num quadro grave de depressão por não suportar a nova condição. Isso fragilizou nossos laços familiares, nos fez perder o chão", relata, comovida, Sônia de Fátima Fusário das Graças, 59 anos, filha da aposentada Maria José Fusário.

Além destas quatro famílias, outras nove com imóveis demolidos no Santa Tereza ainda tentam recomeçar. Do total de 13 famílias afetadas, cinco moram de aluguel, cinco ainda vivem de favor com parentes e outras três deixaram a cidade. Todas as vítimas acionaram a Justiça com pedidos de indenização e esperam por uma sentença. Para o Poder Público, vale o único laudo concluso apresentado pela perícia do Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais, que atribui a causas naturais toda a movimentação de terra na área. Já o relatório do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de São Paulo, e da própria perícia nomeada pelo juízo atestam que faltam elementos para determinar se o problema foi provocado por causas naturais ou pela ação humana, já que vazamentos nas redes de água e esgoto da região foram registrados. No laudo de 46 páginas, feito por solicitação da Justiça, é citada a falta de uma "investigação complementar, a deficiência de drenagem profunda e a saturação do solo". Para Antônio Francisco das Graças, 66, marido de Sônia, os levantamentos da Polícia Civil e do IPT foram feitos em um curto período de tempo e em terreno já descaracterizado pelas demolições. "Apesar de tudo que estamos passando, ainda confio na Justiça", afirmou o encarregado de obras que hoje paga aluguel de R$ 680 de um sobrado no Bairro Santo Antônio.

 

Muro de contenção

Já o local afetado ganhou um muro de contenção orçado em R$ 3.023.047,97. A obra, iniciada em maio, está concluída e aguarda apenas os serviços de urbanização. De acordo com o secretário de Obras, Amaury Couri, os donos do terreno da Rua José Ladeira poderão voltar a construir no local desde que respeitem as novas condições do terreno. Na rua de cima porém, ele diz que a Prefeitura identificou que a faixa de 5 metros do alinhamento da via pertence ao Poder Público e que a questão está sendo discutida judicialmente. Além de Santa Tereza, o secretário diz que a cidade tem em execução outros R$ 12 milhões em obras de contenção e drenagem, que incluem, entre outros, os bairros Ladeira, Três Moinhos, JK, Borboleta e Santa Rita.

 

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