Publicidade

22 de Fevereiro de 2014 - 04:00

Secretaria de Saúde estima que gasto com acidentados em duas rodas é de 30% a 50% superior ao das vítimas de carros

Por Eduardo Valente

Compartilhar
 
Mais de 32 mil motos circulam hoje pelas ruas de JF
Mais de 32 mil motos circulam hoje pelas ruas de JF

O número de motos registradas em Juiz de Fora mais que triplicou em dez anos, de acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), subindo de 9.801 para 32.054 unidades entre dezembro de 2003 e dezembro de 2013, o que representa um salto de 227%. Além de impactar o tráfego como um todo, este crescimento causa reflexos no sistema de saúde do município. Dados do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PPTran) mostram que, no ano passado, ocorreram 1.441 acidentes envolvendo veículos de duas rodas (que ainda incluem motonetas e ciclomotores), resultando em 995 atendimentos no HPS, segundo a Secretaria de Saúde. Isso significa que, apesar de as motos representarem atualmente 14,5% da frota da cidade, a demanda por atendimentos médicos chega a 24,8% do total de acidentados no trânsito. Mais que isso: os gastos e o tempo de internação com este tipo de vítima são de 30% a 50% superiores, onerando os cofres públicos, em média, de R$ 850 a R$ 7.500 por pessoa.

O crescimento da frota de motos também resulta em mais vítimas fatais. Levantamento realizado a partir do banco de dados do Sistema Único de Saúde (Datasus) mostra que, em Juiz de Fora, os acidentes envolvendo duas rodas causaram nove mortes em 2003 e 24 em 2011, quando foi feita a última atualização do sistema. Neste intervalo, só não mudaram as características das vítimas, pois a maioria continua sendo de homens, solteiros, com faixa etária entre 20 e 29 anos. No Brasil, os óbitos desta natureza também estão em uma crescente e representam a maioria dos registros no trânsito desde o ano de 2007.

O alto índice de acidentes e mortes pode ser explicado a partir da observação do comportamento desses condutores nas ruas da cidade. Situações de imprudência, como transitar entre carros em movimento, avançar semáforo e trafegar em velocidade incompatível com a via, são flagradas a qualquer momento do dia ou da noite. Para quem passa a maior parte do tempo no trânsito, esta percepção é ainda mais clara. Para o presidente da Associação dos Motoentregadores, Antônio Carlos Lourenço, conhecido como Toninho Motoboy, a ampliação desta frota é perceptível e resulta em dificuldades para os profissionais. "As pessoas estão tirando carteira para não ter que andar de ônibus, que é mais lento. Moto é mais rápida, apesar de perigosa. Vejo muitas imprudências, principalmente daqueles que usam a moto para ir de casa ao trabalho. A verdade é que os condutores estão recebendo a habilitação sem ter noção do que é andar de moto na rua. Aquela autopista do Detran (Departamento Nacional de Trânsito de Minas Gerais), no Aeroporto, não reflete as dificuldades enfrentadas na cidade.

 

Cofres públicos

Conforme a subsecretária de Urgência e Emergência do município, Adriana Fagundes, o acidente de moto provoca mais traumas e, por isso, causa maiores prejuízos aos cofres do município. "São fraturas graves, principalmente de perna e coluna, que mobilizam o sistema como um todo, não apenas os profissionais do hospital, como as pós-consultas e acompanhamento com fisioterapeutas, além de gastos na Previdência Social. No HPS, este tipo de vítima requer um atendimento multidisciplinar, passando por exames de raios-X, tomografia e ultrassonografia." Adriana estima que, habitualmente, 70% dos leitos do pronto socorro fiquem ocupados por acidentados, com tempo de permanência superior entre aqueles envolvidos em ocorrências com veículos de duas rodas.

Este foi o caso do historiador Fabrício Fernandes, 24 anos, que se machucou no último dia 30 quando fazia aulas de direção, na pista do Detran/MG. "Caí e quebrei o braço. Fui levado ao HPS e depois transferido para a maternidade (Hospital Maternidade Therezinha de Jesus), onde tive que passar por cirurgia. Agora vou começar fisioterapia e não sei quanto tempo vai durar." Conforme Fernandes, que ainda está com uma tipoia no braço, o objetivo da habilitação era comprar uma moto para ir à UFJF, onde ele iniciará a graduação em ciências humanas. "Já estava com todas as aulas feitas, e passava por algumas extras antes de me submeter ao exame. Agora não sei se a moto vai continuar sendo minha prioridade."

Levantamento publicado no estudo "Mapa da violência 2013 - acidentes de trânsito e motocicletas", a partir das internações hospitalares no sistema público de saúde do Brasil, mostra que o custo para tratar estas vítimas em 2012 foi de R$ 210,7 milhões, e, desse total, R$ 102,07 milhões (48,4%) foram empregados no atendimento de motociclistas e caronas.

 

 

 

'Corrida da morte'

Conforme a doutora em ciências sociais Andreia Santos, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), um levantamento realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2009, mostrou que o país vive uma epidemia de mortes e acidentes envolvendo motocicletas. "É um problema de saúde pública porque muitos condutores e caronas, machucados, ficam impedidos de exercerem qualquer atividade remunerada após o dano, necessitando de apoio do Governo pelo resto da vida. O pior é que a maioria deste grupo é formada por jovens." Para Andreia, que é especialista em violência no trânsito, outro problema a ser observado é que, nos últimos três anos, aumentou o número de acidentes envolvendo condutoras mulheres, as quais, até então, só andavam na garupa.

De acordo com o sociológico Julio Jacobo Waiselfisz, diretor de pesquisa do Instituto Sangari e autor do "Mapa da violência 2013 - acidentes de trânsito e motocicletas", a estimativa é que, em até quatro anos, as vítimas de acidentes de moto representem a metade das ocorrências envolvendo trânsito no Brasil, onerando ainda mais os cofres públicos com os elevados custos para tratamentos. O especialista explica que a atual situação, de aumento nos casos de acidentes, é resultado da política de expansão industrial no século passado, quando as fábricas de carros e motos receberam incentivos fiscais para ampliar a frota nacional.

"O Governo pensava que seria correto incentivar o uso das motos pelo trabalhador, ao invés de investir na mobilidade urbana das cidades. É como se cada um resolvesse sozinho seu problema de transporte. Depois disso, na década de 1990, com a implantação do CTB (Código de Trânsito Brasileiro), não houve nenhum controle específico para este tipo de veículo, originando assim uma verdadeira corrida da morte. O mais interessante é que ainda hoje o Governo estimula a indústria automobilística, com a redução de impostos como o IPI (Impostos sobre Produtos Industrializados), como forma de aquecer a economia do país. Estamos em uma situação difícil, com trânsito das cidades completamente inviável. É preciso investir em mobilidade em longo prazo", argumentou.

No mesmo período em que a frota de motos aumentou 227% em Juiz de Fora, o crescimento no estado foi de 225% e, no país, 246%. Um dado interessante é que a proporção de veículos com duas rodas em relação ao total de automóveis registrados teve um dos maiores crescimentos de Minas Gerais em Juiz de Fora, com aumento de 5,9%. Esta ampliação só foi menor que a observada em Montes Claros, que subiu 8,8%. Naquela cidade, aliás, 42% dos veículos são motos, índice muito superior à média do estado e do país, ambas com 26,4%.

Galeria de Imagens

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que alertas em cardápios e panfletos de festas sobre os riscos de dirigir sob efeito de álcool contribuem para reduzir o consumo de bebidas por motoristas?