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30 de Janeiro de 2014 - 07:00

Grupo em Passat fez disparos de arma, mas não acertou rapaz, que acabou atingido por carro e puxado por vários metros. Em retaliação, duas motos foram incendiadas

Por Sandra Zanella

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Marcas de pneu e de sangue podiam ser vistas na Rua José Tavares, no Jardim Gaúcho
Marcas de pneu e de sangue podiam ser vistas na Rua José Tavares, no Jardim Gaúcho
Duas motos foram incendiadas. Calor de fogo ainda danificou pintura de Tempra
Duas motos foram incendiadas. Calor de fogo ainda danificou pintura de Tempra
Revólver calibre 32 foi apreendido em terreno do colégio
Revólver calibre 32 foi apreendido em terreno do colégio

Uma tentativa de homicídio a tiros seguida do atropelamento de um adolescente, 17 anos, na noite de terça-feira, desencadeou uma série de episódios violentos envolvendo gangues dos bairros Jardim Gaúcho e Cidade Nova, Zona Sul, e mobilizou a Polícia Militar até a manhã desta quarta-feira (29). Depois de a vítima ter sido atingida por um Volkswagen Passat e arrastada por vários metros, duas motos foram incendiadas, em suposta retaliação ao crime, na madrugada. Já nas primeiras horas do dia, a PM conseguiu evitar um provável confronto entre moradores das duas áreas. Houve perseguição, e um revólver calibre 32, com quatro munições, foi apreendido. Dois suspeitos, de 15 e 16 anos, acabaram conduzidos à 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil por participação na rixa e porte da arma. Durante a manhã, quando muitos militares ainda ocupavam a região para impedir briga entre as gangues, policiais localizaram o Passat. De acordo com o comandante da 32ª Companhia da PM, capitão Ricardo Schafer, o carro estava em uma garagem alugada no Bairro Vale Verde, na mesma região. O veículo foi apreendido para ser periciado.

Na manhã desta quarta, ainda eram visíveis as marcas de pneu e de sangue no local do crime. Segundo a PM, o atropelamento aconteceu por volta das 22h15. O jovem estava na Rua Marciano Pinto, no Sagrado Coração, quando surgiu o Passat, e um dos três ocupantes sacou uma arma e efetuou disparos na direção dele. O rapaz escapou dos tiros e correu para a Rua José Tavares, no Jardim Gaúcho, mas foi perseguido e acabou derrubado pelo carro. O adolescente ficou preso embaixo do Volkswagen, sendo arrastado por vários metros pelo asfalto. A cena violenta só teve fim com a intervenção de populares, que apelaram para o motorista parar.

A vítima sofreu escoriações pelo corpo, além de apresentar suspeita de fraturas. Ela foi socorrida por moradores e levada para uma casa, até a chegada da polícia e do Samu. Logo depois, o atropelado foi encaminhado para atendimento médico e, até a noite desta quarta, permanecia internado na enfermaria do HPS, conforme a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde. O paciente passou por procedimento cirúrgico, mas estava lúcido, orientado e estável. Viaturas realizaram rastreamento em busca dos suspeitos, que seriam moradores do Cidade Nova.

Já por volta das 3h, moradores de uma casa na Rua Maurício Gonçalves Filgueira, no Cidade Nova, acordaram com um barulho e foram surpreendidos pelas chamas que destruíram duas motos Honda da família, estacionadas em uma garagem aberta da residência. "Ouvi um barulho e pensei que era algum menino meu chegando. Depois, vi as chamas, e meus filhos acordaram também, mas não conseguimos apagar logo, porque não tinha água perto para jogar", lamentou a cozinheira, 45 anos, mãe de três homens, de 19, 22 e 25 anos. "Meus filhos são trabalhadores, não estão envolvidos nessas confusões", disse a mulher.

 

Novo embate

Por volta das 9h desta quarta, quase 12 horas após o adolescente ter sido atropelado, cerca de 20 jovens que seriam integrantes de gangue do Jardim Gaúcho, pelo menos um deles armado, chegaram ao Cidade Nova. O grupo não contava com a presença da PM na Rua Maurício Gonçalves Filgueira e foi surpreendido pela equipe, que aguardava a chegada da Polícia Civil para a perícia nas motos. Integrantes do bando correram por todos os lados, dando início a um novo rastreamento. Três suspeitos foram abordados em um primeiro momento, mas acabaram liberados por não portarem materiais ilícitos, e uma faca dispensada na fuga foi apreendida. O suspeito de estar com o revólver ainda pulou o muro de uma escola municipal e conseguiu escapar, mas acabou capturado cerca de duas horas depois dentro de uma casa em construção, onde estava na companhia de um comparsa. O revólver calibre 32 que ele estaria portando no momento da perseguição foi apreendido em meio ao matagal do terreno do colégio. "Se a viatura da Polícia Militar não estivesse aqui, teria acontecido coisa muito pior", desabafou um morador do Cidade Nova.

 

 

Rixa de gangues iniciada há um mês

A violência presenciada por moradores de bairros da Zona Sul desde a noite de terça-feira até a manhã desta quarta está relacionada a várias ocorrências anteriores, conforme afirmou o comandante da 32ª Companhia da PM, capitão Ricardo Schafer. Segundo ele, apesar de a rivalidade entre moradores do Jardim Gaúcho, Cidade Nova e bairros adjacentes ser antiga, os ânimos estariam mais exaltados há pouco mais de um mês, quando um confronto deixou gravemente ferido um homem de 40 anos, agredido com golpes de facão no Sagrado Coração. O crime aconteceu no dia 24 de dezembro e começou com o apedrejamento de um Passat, mesmo modelo do veículo envolvido no atropelamento do adolescente. A vítima sofreu um extenso corte no couro cabeludo, com exposição de massa encefálica, e também teve fratura no crânio, sendo internada no CTI do HPS e depois transferida para a enfermaria da unidade, onde continua internado.

Já no segundo dia de janeiro, dois jovens acabaram presos por disparos após uma briga entre gangues no Previdenciários, também na Zona Sul. O confronto aconteceu entre moradores do bairro e do vizinho Vale Verde, levando pânico à população. Uma padaria foi invadida e teve o vidro de um expositor quebrado, enquanto um rapaz, agredido a socos e pauladas, pegou uma faca para se defender e golpeou um adversário no peito.

"Há rivalidade antiga entre grupos de bairros, principalmente por tráfico. Mas tudo desencadeou neste último mês, quando atiraram em um dos envolvidos que, certamente, já teria ameaçado alguém", disse o capitão Schafer. Ele ainda analisou os fatos recentes: "O Passat atropelou o adolescente. Depois, queimaram as motos. Tudo ação e reação de briga deles. Mas já estamos tomando as providências para trazer a tranquilidade de volta", garantiu o comandante. "Apreendemos muitas armas e estamos intensificando as operações nesta área", completou.

Para o assessor de comunicação do 27º Batalhão da PM, capitão Jean Michel Amaral, um dos principais objetivos das ações policiais, além de capturar envolvidos, é evitar mortes, já que muitos confrontos de gangues rivais terminam em tentativas de homicídio e assassinatos. "Por causa de desavenças e do atropelamento de ontem (terça-feira), quiseram fazer um acerto de contas hoje (quarta), mas conseguimos impedir", disse o assessor.

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