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29 de Janeiro de 2014 - 07:00

Justiça esperava liberação de vaga em unidade prisional para que Alex Sandro Furiati fosse submetido a exame de sanidade mental

Por Daniela Arbex

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Alex Sandro Furiati, 34 anos, que confessou ter matado a tiros o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Juiz de Fora, Vandir Domingos da Silva, 63, na manhã de segunda-feira, não deveria estar na rua no dia do crime. A Tribuna descobriu que a Justiça esperava, desde 2 de dezembro do ano passado, a liberação de uma vaga para o internamento de Furiati em unidade prisional por até 90 dias, a fim de que fosse submetido a exame de sanidade mental. O ofício (ver fac-símile ao lado), assinado em 28 de novembro de 2013 pelo juiz da 2ª Vara Criminal de Juiz de Fora, Edir Guerson de Medeiros, foi encaminhado quatro dias depois à Superintendência de Articulação Institucional de Gestão de Vagas da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), em Belo Horizonte. Após 55 dias da solicitação, completados no dia do assassinato ocorrido em um estacionamento na Rua Marechal Deodoro, no Centro, o pedido do magistrado ainda não havia sido atendido. Além da burocracia do Estado para liberação de vagas no estrangulado sistema prisional, o fato é que Alex, preso em flagrante em novembro de 2012 por porte ilegal de armas - ano em que a Polícia Militar encontrou dois revólveres calibre 32 e 38 na sua casa -, ficou sete meses no Ceresp, mas teve a prisão relaxada em junho do ano passado, por dilação de prazo do processo que ainda está em tramitação. Em 2006, ele obteve liberdade provisória após ser preso por furto. Além disso, sua certidão de antecedentes criminais é extensa e vai de lesão corporal a medidas protetivas de urgência, embora os processos tenham sido baixados por renúncia da pessoa afetada ou decadência, quando a vítima não comparece às audiências.

"Acredito que se ele estivesse acautelado para fazer o exame, como foi solicitado, o crime de homicídio não teria ocorrido. Mas a questão da vaga não é uma exceção, porque a vaga para réu solto demora ainda mais para sair, já que a fila de exames de sanidade até para réu preso é imensa. Geralmente, o tempo de espera é de quatro a seis meses", afirma o juiz Edir Guerson. Segundo ele, a confirmação da insanidade, a partir de uma nova avaliação, levaria Alex a ser recolhido em hospital geral até que o processo fosse finalizado, como é de praxe em casos desta natureza. Com a conclusão da sentença e a constatação da sua total incapacidade, Alex poderia ser submetido à medida de segurança ou tratamento ambulatorial em caso de sua incapacidade ser relativa.

 

Solicitação de exame

O pedido de um novo exame de sanidade mental foi apresentado pela defesa do rapaz em outubro do ano passado, já que o advogado de Alex Sandro Furiati afirmava discordar do primeiro laudo realizado no Hospital de Toxicômanos, em Juiz de Fora. Encaminhado para a Justiça em 3 de maio de 2013, o perito constatou "total normalidade psíquica" de Alex. Já a perícia complementar, feita no mesmo hospital, apontou esquizofrenia e transtorno bipolar. No documento, porém, o perito chama atenção para o fato de que os sintomas de doença mental podem ou não ser manifestados e que, naquele período em que Alex esteve sob avaliação, cerca de 40 dias, identificou as duas patologias. Ainda assim, a defesa alegou que o laudo complementar tinha falhas em relação aos esclarecimentos sobre os quesitos elaborados, pedindo novo exame. A disparidade entre os dois documentos levou o Ministério Público a concordar com o pedido, por considerar que uma negativa poderia ser utilizada como argumento para um futuro pedido de nulidade processual por cerceamento da defesa. Apesar da solicitação judicial, o terceiro exame ainda não ocorreu. A Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi) confirma a ocupação da vaga por Alex no Hospital de Toxicômanos entre março e maio de 2013.

Menos de nove horas depois de ser filmado atacando o presidente da CDL no estacionamento da Marechal Deodoro, Alex Sandro Furiati se entregou à polícia no 27º Batalhão da PM, na Zona Norte. Depois de prestar depoimento na sede da 1ª Delegacia Regional de Polícia Civil, ele foi encaminhado ao Ceresp.

 

 

Inquérito será relatado em dez dias

Alex Sandro Furiati é considerado, até o momento, o único responsável pelo homicídio de Vandir Domingos da Silva, embora a Polícia Civil não descarte outras hipóteses. Em seu depoimento na delegacia, ele citou, aleatoriamente, vários nomes, alguns deles conhecidos na cidade, mas o titular da delegacia especializada de Homicídios, Armando Avolio Neto, afirmou que todos foram "jogados" durante uma fala desconexa e meio delirante. Em um dos momentos, ele chegou a dizer que estava sendo vigiado pela polícia internacional, demonstrou sentir grande revolta contra a vítima, mas não conseguiu explicar a motivação do crime. Disse apenas que aquele era o dia em que Vandir teria que morrer.

As imagens do circuito interno de TV, instaladas no estacionamento onde o empresário foi atacado, contam a história de um crime praticado em 21 segundos. Todos os momentos do assassinato foram flagrados pelo equipamento de segurança. Nele, Alex aparece logo atrás de Vandir dentro do estacionamento na Rua Marechal Deodoro. Ainda de costas, a vítima percebeu a presença do autor. Ao virar-se, recebeu o primeiro golpe de chuço no pescoço. Tentou lutar contra o agressor, mas, novamente atingido pela arma artesanal, caiu no chão, ao lado do seu carro. Os funcionários do estabelecimento correm na direção do cliente mensalista para ajudá-lo, mas foram intimidados por Alex que tira a arma de dentro de uma mochila. Ele dispara quatro tiros à queima roupa contra o presidente da CDL e sai correndo do estacionamento. A gravação está na perícia da polícia, e a íntegra não será divulgada, segundo o delegado, por conter imagens muito fortes e para preservar a família do empresário.

Segundo Armando Neto, o inquérito deverá ser relatado em dez dias. Esta semana, novas pessoas prestarão depoimento, mas o delegado não quis citar nomes. O responsável pelas investigações disse que não acredita na existência de um mandante, embora não elimine qualquer hipótese. "A gente não descarta nenhuma possibilidade, nem a de um mandante, mas a gente não acredita nisso", comentou. O delegado comentou que foi no final de semana anterior ao crime que Alex disse ter resolvido matar a vítima e que sabia que Vandir sempre parava o carro ali. Disse, ainda, que não pretendia usar a arma de fogo, para chamar menos atenção possível, mas que decidiu utilizar o revólver ao perceber a reação dos funcionários do estacionamento.

Até o momento, o que é possível afirmar é que Alex tem um histórico complexo. Trabalhou para o presidente da CDL, em 1999, e seu último vínculo trabalhista é de 21 de julho de 2012, quando foi empregado em serviço de teleatendimento, tendo se afastado posteriormente por motivo de doença. Em novembro daquele mesmo ano, a mãe dele, que é cabeleireira, acionou a PM após sofrer uma tentativa de agressão do filho. No relato do BO, ela diz que Alex jogou uma caneca de café quente contra seu rosto. Com a chegada da polícia, a mãe dele autorizou uma busca no imóvel onde residiam. Desta forma, além de duas armas, a polícia encontrou munições. Na ocasião, Alex estava recém-saído da Casa de Saúde Esperança, onde ficou internado por 30 dias. Para os policiais, ele explicou que "estava sendo ameaçado de morte por um indivíduo" e que havia comprado os revólveres na feira livre, um deles com numeração raspada, para se defender. Levado para o Ceresp no dia 28 de novembro de 2012, ficou preso até 4 de junho de 2013. No final de 2007 e início de 2008, ele passou pelo Hospital São Domingos para "tratamento especializado". Em 2009, foi internado no Hospital Ana Nery para tratamento de dependência química.

 

 

Parentes e amigos prestam última homenagem

Corpo do presidente da CDL é levado para o cemitério

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Juiz de Fora (CDL/JF), Vandir Domingos da Silva, 63 anos, foi sepultado na manhã desta terça-feira (28) no Cemitério Municipal. Pouco depois das 10h, o corpo foi levado do saguão da Câmara Municipal, onde estava sendo velado, e seguiu escoltado por viaturas da Polícia Militar. Dezenas de parentes e amigos de Vandir acompanharam emocionados o cortejo até o jazigo da família e deram o último adeus ao som de uma salva de palmas.

O presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pelizzaro, veio à cidade despedir-se de Vandir. Ele lembrou que o empresário foi vítima da violência contra a qual ele mesmo lutava. "Foi uma tragédia para a cidade e para o movimento lojista. Ele era uma pessoa que sempre iluminou muito pela sua proatividade. A morte dele também levanta esta questão da violência. Ele teve sua vida ceifada por uma ineficiência da sociedade em conter isso. Foi uma perda muito grande."

Também presente no enterro, o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Minas Gerais (FCDL-MG), José César da Costa, enfatizou que Vandir foi um exemplo de líder. "Era um homem de posição, uma forte liderança que nos ajudou muito na vice-presidência da federação e como presidente da CDL." José César falou ainda sobre o homicídio. "A violência chegou até o interior. Espero que as autoridades possam pensar mais na população, que está desprotegida."

O presidente do Centro Industrial de Juiz de Fora e do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon), Leomar Delgado, lamentou a morte. "Foi uma perda muito grande, era uma pessoa muito ativa, influente, com a qual tive um relacionamento institucional junto à Fiemg e ao Centro Industrial." Para o vice-presidente da CDL, Marcos Tadeu Casarin, que passou a responder interinamente pela entidade, vai ser complicado superar a perda. "Estamos juntos na CDL há 11 anos, e substituir um líder é muito difícil. Foi uma surpresa desagradável, ninguém esperava por isso. Graças a Deus, o caso já foi praticamente solucionado."

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