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25 de Abril de 2014 - 07:00

Taxistas e motoboys admitem evitar algumas áreas devido ao medo da violência

Por Marcos Araújo

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"Já era tarde da noite, e meu filho, de 17 anos, começou a ter uma crise de epilepsia. Entrei em desespero. Primeiro liguei para o Samu, mas a informação que recebi era de que a ambulância iria demorar. De imediato, liguei para uma operadora de táxi, mas, quando disse que morava nos 'predinhos' do Sagrado Coração de Jesus, a atendente disse que os taxistas não atendiam corridas para o local. Foi um desespero. Tive que pegar meu filho no colo e sair do Residencial Araucárias. Andei pelas ruas do bairro carregando ele nos braços até achar um táxi, que me levou para um hospital", relata com tristeza uma mulher de 49 anos que, há dois reside no Residencial Araucárias, na Zona Sul. O drama contado pela dona de casa, que pediu para não ter o nome mencionado, é muito parecido com os de outros cidadãos juiz-foranos que moram em áreas consideradas violentas. Em razão dos altos índices de assaltos e de casos de homicídios, algumas áreas da cidade vivenciam a "exclusão" de serviços, sendo penalizadas pela estigmatização.

Alguns taxistas, por exemplo, já admitem que evitam certos destinos, como forma de assegurar a integridade física e preferem levar multa, uma vez que a recusa de passageiro é ilegal. Além deles, motoboys estão deixando de fazer entregas em algumas áreas devido ao medo. De acordo com a Associação de Motoentregadores de Juiz de Fora (AME-JF), o município possui atualmente de 1.600 a dois mil motoboys em atividade. "A maior parte está evitando certas comunidades. Sabemos que a população, formada em sua maioria por pessoas honestas, fica prejudicada. Mas não dá para correr riscos, temos que voltar para nossas famílias", afirma o presidente da AME-JF, Antônio Carlos Lourenço.

O acesso de taxistas e entregadores no conjunto de prédios onde mora a senhora, personagem que abriu essa reportagem, é complicado. Outra moradora, 35 anos, que também pediu o sigilo do nome, aponta que, quando usa o serviço de táxi, já sabe que vai ter que desembarcar alguns metros antes do residencial. "Os taxistas sempre deixam a gente um pouco mais para baixo. Eles têm medo de entrar aqui, pois muitos já tiveram os carros apedrejados ou assaltados. Além disso, tem gente que chama o táxi e não paga ou então ameaça o taxista com arma de fogo."

Do outro lado da cidade, no Santa Rita, Zona Leste, a situação também é parecida. Trabalhando há 23 anos no ramo, o proprietário de uma farmácia, localizada em outro bairro da mesma região do Santa Rita, deixou de fazer entregas há um ano naquela comunidade. O profissional, que também optou pelo anonimato, afirmou que prefere perder dinheiro a ter funcionários em perigo. "O motoqueiro que hoje trabalha comigo, antes de começar aqui, já tinha sido assaltado lá. Assim, acho melhor me precaver", afirma o comerciante, acrescentando que esse tipo de situação era inimaginável há alguns anos. Uma comerciante instalada no bairro, de 51 anos, conta que, depois das 22h, é impossível conseguir táxi. "Sair de casa depois deste horário para quem não tem carro é um problema. Eu já fiz até um cadastro na operadora de táxi. Assim eles já me conhecem e, quando preciso, não tenho problema. Agora, quem é desconhecido dos motoristas sofre, pois os profissionais têm muito medo de assalto."


População se sente 'isolada'

Recentemente, a Tribuna mostrou que moradores das vilas Esperança I e II, na Zona Norte, estavam acuados, vivenciando uma rotina conturbada com ataques de gangues, comprometendo as atividades da população, como ir ao médico, à escola ou à igreja. Na mesma região, no Parque das Águas, a comunidade também se sente isolada. Uma moradora, de 44 anos, relata que estava com uma ferida no pescoço e se dirigiu à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro São Pedro, na Cidade Alta. Na hora de voltar para casa, como sentia muita dor, optou pelo táxi. Entretanto, quando disse à motorista que o destino era o Parque das Águas, esta se negou, alegando que "nem pensar" faria corrida para esse local. A mulher questionou a taxista sobre o motivo, e a profissional alegou que o bairro era muito perigoso. "É um absurdo. As pessoas de bem serem confundidas e não poderem utilizar esses serviços mesmo pagando." Uma dona de casa, 27, alega que, à noite, a falta de táxi se agrava. "Se um idoso ou uma criança passar mal, não sabemos como agir. Não temos ônibus toda hora e, se ligar chamando o táxi, a recusa é certa."

Uma senhora, 64, que mora no Parque das Águas há dois anos afirma que já passou por diversas dificuldades. Quanto ao serviço de táxi, alega que, quando alguém viaja e chega de madrugada na rodoviária, precisa ir para casa de ônibus, já que os taxistas se negam a fazer a corrida. "A pessoa chega cansada e ainda tem que ficar horas esperando o primeiro ônibus da linha, quase ao amanhecer." Ela também conta que, como não há farmácia no bairro, conseguir um remédio no período noturno é difícil. "A gente tem sempre que se precaver. É a mesma situação quando a gente quer pedir uma pizza ou um lanche. Esse serviço de entrega não funciona para o Parque das Águas."

Até para fazer reformas nas suas moradias os residentes passam dificuldade. Segundo eles, as lojas de material de construção estão se recusando a fazer entregas depois que a equipe de um caminhão foi assaltada no local. "Infelizmente, o bairro carrega fama de perigoso, mas a maioria de moradores é gente de bem. Estamos pagando pelo erro dos outros", afirmou um morador, 26, admitindo que ouve sons de tiros às vezes.


Especialista critica políticas equivocadas

Para o presidente da Associação de Motoentregadores de Juiz de Fora (AME-JF), Antônio Carlos Lourenço, que já foi assaltado quando fazia uma entrega, a situação de crimes contra a categoria se agravou nos últimos anos. "Cada motoboy, por experiência própria, já adota medidas de segurança, evitando algumas rotas. Muitos de nós já fomos roubados, inclusive tendo a motocicleta levada por bandidos. Há casos também em que o entregador chega em determinado local, é ameaçado e tem a chave da moto subtraída."

O presidente do Sindicato dos Taxistas, Aparecido Fagundes da Silva, também admite que profissionais da categoria são ameaçados em determinados bairros. Ele ressalta que já houve casos de apedrejamentos de veículos no Santa Rita, no alto do Jardim Natal e no Milho Branco, inclusive com casos de tiros. "A gente tende a recusar devido ao medo. Infelizmente isso prejudica o usuário." Aparecido ressalta que, conforme o regulamento do serviço de táxi, a atitude é proibida e passível de multa. "Muitos motoristas, porém, preferem arcar com o prejuízo a ter sua vida em risco."

De acordo com o sociólogo e cientista político da PUC Minas, Moisés Augusto Gonçalves, a estigmatização das comunidades periféricas deve-se à falta de informação sobre a vida dentro dessas áreas. "O estigma é um olhar da casa grande sobre a senzala, que a considera um lugar de perigo, de contenção." Apesar disso, na visão dele, os profissionais que se recusam a prestar serviços nesses locais o fazem com razão, uma vez que o risco é real. "Eles estão diante de uma situação na qual o exercício da profissão acontece sem proteção do aparato do Governo. Por isso, eles têm o direito de preservar a própria vida", destaca o sociólogo. Para ele, o crescimento da criminalidade nas cidades do interior, que tem como consequência essa realidade de exclusão de serviços, deve-se à banalização da vida e a políticas públicas de segurança equivocadas. "Elas estão voltadas para atacar os sintomas, mas não há ações que incidam sobre suas causas. São políticas de superfície."

Moisés Gonçalves enfatiza que vivemos num período em que vigoram as ações de repressão. "Entretanto, essas medidas estão se mostrando ineficazes. É preciso estratégias com resultados a médio e longo prazos, que surtam efeito na raiz. Essa é uma discussão que não se vê na academia, no Poder Público e na mídia."

Em entrevista à Tribuna, publicada em março, o secretário de Estado de Defesa Social, Rômulo Ferraz, afirmou que vai discutir metas de combate à criminalidade junto com os comandos das polícias Militar e Civil, Justiça e Ministério Público. Ele enfatizou que não vai admitir que o cidadão mineiro tenha cerceado seu direito circular e impedido de acessar serviços em razão da presença de criminosos. Na visão dele, esse tipo de situação vem acontecendo porque a criminalidade se tornou mais agressiva. O secretário adiantou que o Estado está se endurecendo e se preparando para enfrentar esse tipo de situação.

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