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06 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Vítima recebe alvará de soltura e é baleada ao deixar a cadeia; crime ocorreu na frente de agentes penitenciários

Por Sandra Zanella e Marcos Araújo (colaborou Michele Meireles)

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Rapaz de 19 anos havia sido liberado devido a um alvará de soltura
Rapaz de 19 anos havia sido liberado devido a um alvará de soltura
Helicóptero Pégasus da PM deu apoio aos trabalhos e sobrevoou toda a região
Helicóptero Pégasus da PM deu apoio aos trabalhos e sobrevoou toda a região
Policiais fizeram rastreamento em busca dos suspeitos
Policiais fizeram rastreamento em busca dos suspeitos

Dois homicídios foram registrados na Zona Leste da cidade nesta quarta-feira (5), em menos de 12 horas, elevando para três o número de mortes violentas nos primeiros cinco dias de fevereiro e para 16 os óbitos em decorrência de crimes este ano no município. No final da manhã, um jovem de 19 anos foi morto a tiros perto da guarita do Ceresp, no Bairro Linhares. Os disparos à luz do dia levaram pânico a dezenas de familiares de detentos, incluindo crianças e idosos, que estavam no local para a entrega de sacolas, com alimentos e outros produtos, destinadas aos acautelados. De acordo com informações da assessoria da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), Victor Sanders da Rocha Santos havia recebido alvará de soltura e deixava a unidade prisional quando foi assassinado. Ainda conforme a pasta, o rapaz estava preso desde o dia 31 de janeiro pelo crime de receptação. Já na madrugada, um homem, 33, foi morto com dois tiros, na cabeça e tórax, no Bairro Santa Paula. Elias Gomes da Silva estava em uma moto e ainda tentou pedir socorro em um bar, mas não resistiu. Segundo a PM, a suspeita é de que o homicídio teve motivação passional.

O crime ocorrido na saída do Ceresp chamou a atenção pela ousadia dos bandidos, que agiram com violência na presença de agentes penitenciários. Moradores da região revelaram terem escutado cerca de dez tiros, e alguns populares afirmaram que agentes teriam revidado os disparos na tentativa de conter os criminosos. Uma mulher, que preferiu não se identificar, estava na espera para entregar a sacola quando foi surpreendida pelas balas. "Os agentes também deram muitos tiros. Foi horrível, estou tremendo até agora." A assessoria da Seds, no entanto, afirmou que não houve qualquer disparo por parte dos trabalhadores do sistema prisional. Após o episódio, familiares foram orientados a retornar para suas casas, e as visitas de advogados também foram canceladas.

De acordo com informações do boletim de ocorrência, quatro homens participaram da ação criminosa, ocorrida por volta das 11h. O grupo já estaria esperando a saída de Victor disfarçado em meio aos parentes de presos que aguardavam a entrega de sacolas. Quando a vítima passou pela guarita, andou cerca de 150 metros e foi surpreendida por pelo menos quatro disparos. Ela teria sido atingida primeiro no braço, voltou correndo para a unidade prisional, mas foi alvejada na cabeça e caiu ao lado da guarita. O óbito foi confirmado pelo Samu, e peritos da Polícia Civil realizaram os trabalhos no local. A PM acredita que o crime pode ter sido motivado por desavenças.

 

Sobrevoo na região

Os policiais militares foram acionados logo após o crime e iniciaram rastreamento em busca dos assassinos. O helicóptero Pégasus da PM deu apoio aos trabalhos e sobrevoou toda a região, cercada por morros e áreas de mata. O Monza usado na fuga foi abandonado na Rua Diva Garcia, na altura do número 2.361, perto de um ponto de ônibus. Parte do veículo estava sobre o passeio. A PM acredita que o carro apresentou falha mecânica.

Logo depois, um revólver calibre 38, que pode ter sido usado no crime, foi achado enrolado em uma blusa dentro de um bueiro do Linhares. As quatro munições do revólver estavam deflagradas. De acordo com o sargento da 70º Companhia da PM, Ronaldo Bernardes, que participou das buscas, a suspeita é de que os criminosos fugiram a pé ou embarcaram em um coletivo. Cães farejadores também deram apoio na tentativa de capturar os bandidos. Até o fechamento desta edição, ninguém foi preso.

Procurado pela Tribuna, o diretor do Ceresp, Giovane de Moraes Gomes, disse que apenas a Seds se pronunciaria sobre o caso. Já a assessoria da Seds, limitou-se a informar os dados da vítima e não comentou o homicídio, enfatizando que o mesmo aconteceu fora dos muros do Ceresp, e que a investigação está a cargo da Delegacia Especializada de Homicídios e Antidrogas.

 

Situação caótica

O assassinato ocorrido tão próximo do Ceresp, levando medo a familiares de detentos, evidenciando a ousadia por parte dos criminosos, uma vez que eles agiram sem recearem a presença dos agentes penitenciários, preocupou a Subseção da OAB de Juiz de Fora. De acordo com o presidente do órgão, Denilson Clozato, esse tipo de ocorrência só traduz o quanto a situação está caótica. "É uma ousadia. Acertos de conta estão sendo feitos na porta da cadeia. Já não se respeita o Poder Judiciário, com invasões de gangues dentro do Fórum. Agora, na porta de uma unidade prisional. Com certeza, a segurança dos advogados que atuam naquele local, assim como das outras pessoas, fica fragilizada", argumenta Clozato, acrescentando que: "Temos que pensar na frente desses meliantes. As autoridades têm que pensar nesse sentido", afirma o presidente da OAB.

Segundo ele, o Laboratório de Estudos da Violência, do qual a OAB faz parte junto com a UFJF, Instituto Vianna Júnior, Prefeitura e Câmara Municipal, prepara um estudo que mapeia a criminalidade na cidade. "O mapa já está em fase de finalização e será divulgado assim que for concluído e entregue às autoridades competentes."

O ocorrido também foi repercutido pelo presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara Municipal, vereador Wanderson Castelar (PT). Para ele, esse assassinato só demonstra o desprezo de seus autores pelas forças de segurança da cidade e o aumento da insegurança por parte da população. "Percebemos que há um descontrole. Vivemos a situação mais crítica da história da cidade no que diz respeito à segurança pública."

De acordo com o diretor do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF, Paulo Fraga, o crime ocorrido perto Ceresp tem contornos de uma execução, que seria a principal característica dos homicídios ocorridos em Juiz de Fora. Ele pontua que os assassinatos que têm esse perfil, com as vítimas sendo baleadas e sem a ocorrência de roubo, são os que mais crescem no município. "Essa morte, com a vítima recém-saída da prisão, pode indicar a existência de confrontos entre grupos rivais", avalia o pesquisador. Ele ainda pontua que essas ações violentas "precisam de investigação para que haja respostas para a sociedade, evitando a sensação de impunidade".

  

Motociclista é assassinado no Santa Paula

O assassinato de um homem de 33 anos com dois tiros, no início da madrugada desta quarta-feira, no Bairro Santa Paula, Zona Leste, pode ter tido motivação passional, segundo a Polícia Militar. O principal suspeito é um jovem, 20, ex-namorado de uma adolescente, que estaria reatando o namoro com a vítima. Por volta de meia-noite, a PM foi acionada e encontrou Elias Gomes da Silva caído em meio a uma poça de sangue, em frente a um bar na Rua Maria Luiza Alves. O óbito foi constatado pelo Samu. O proprietário do estabelecimento, 51, contou à PM que a vítima havia chegado em uma motocicleta dizendo que havia sido baleada e pedindo ajuda. No entanto, o homem não resistiu aos ferimentos e caiu na via pública. Três estampidos semelhantes a disparos foram ouvidos por moradores da região.

Peritos da Polícia Civil realizaram os levantamentos e verificaram que Elias havia sido atingido por um tiro no lado esquerdo do tórax, cujo projétil ficou alojado, e por outro que alvejou a parte posterior da cabeça, ocasionando sua morte. O corpo foi removido e encaminhado para necropsia no Instituto Médico Legal (IML). A moto que a vítima conduzia no momento em que foi baleada, uma Honda CBR 300, foi entregue a um parente.

Ainda durante o atendimento da ocorrência, a PM recebeu as informações de que Elias estava reatando o relacionamento amoroso com uma adolescente do Santa Paula, a qual havia terminado com o namorado anterior um dia antes do crime. Acompanhada da mãe, ela foi com os policiais até a casa do suspeito, com quem namorava, mas ele não foi encontrado.

Na manhã de quarta, enquanto aguardava a liberação do corpo no IML, o primo da vítima, Elias de Assis Santos, 39, contou que o homem era caminhoneiro e morava no Progresso, na mesma região da cidade em que foi morto. Segundo ele, Elias era o caçula de cinco irmãos e deixou um filho. "Ele era uma pessoa muito alegre, extrovertida e trabalhadora. Não esperávamos por isso." O marceneiro lamentou a morte brutal de seu primo e xará. "A mãe dele é minha madrinha e quis colocar o mesmo nome." Ele contou que a vítima estava com o capacete no braço quando buscou ajuda. "Ele devia estar parado quando foi baleado. Essa violência na cidade é resultado da quantidade de armas e dessa impunidade. A insegurança é total. Só Deus sabe o que pode acontecer. Fica a pergunta: será que vai haver justiça com tanta injustiça?"

  

Homem é esfaqueado no Jardim Casablanca

Ainda nesta quarta-feira, por volta de 15h30, outro crime violento foi registrado na cidade. Um homem, que não teve a idade divulgada, foi esfaqueado no Bairro Jardim Casablanca, Cidade Alta. De acordo com informações da Polícia Militar, a vítima foi atingida com diversos golpes de faca nas mãos e nas pernas na Rua Engenheiro Leger Palmer. A suspeita da tentativa de homicídio é uma mulher, os dois teriam discutido antes do crime. Ela fugiu e não foi localizada.

De acordo com o boletim de ocorrência, a vítima foi socorrida pelo Samu e levada para o Hospital de Pronto Socorro (HPS). Porém, tanto o hospital quanto a Secretaria de Saúde garantem que o paciente não deu entrada na unidade.

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