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13 de Julho de 2014 - 07:00

Praticantes defendem uso do equipamento para locomoção e são cada vez mais vistos em vias como a Rio Branco

Por CÍNTIA CHARLENE

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Desrespeito na esquina das ruas São João e Batista
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Jovens se arriscam na contramão
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Jovens dividem a pista central da Avenida Rio Branco com os coletivos
Jovens dividem a pista central da Avenida Rio Branco com os coletivos

Considerado por alguns adeptos como meio de transporte e por outros apenas como equipamento de lazer, o skate é cada vez mais visto nas ruas e avenidas de Juiz de Fora. Flagrantes de jovens circulando em meios aos carros e ônibus podem ser vistos diariamente, principalmente nos finais de tarde. A pista central da Avenida Rio Branco, por onde circulam apenas os coletivos urbanos, é o principal trajeto escolhido por muitos skatistas para fugir do congestionamento dos veículos. No início de abril, um adolescente de 13 anos pulou o canteiro central, sendo posteriormente atingido por um coletivo no cruzamento entre as avenidas Rio Branco e Itamar Franco. O jovem foi levado em estado grave para o hospital.

Apesar dos riscos, os praticantes defendem o uso do skate também como meio de locomoção. É o caso do professor e atleta Nicolas Dias. Morador de Benfica, na Zona Norte, ele utiliza o equipamento diariamente para ir e vir do Centro até a UFJF, onde treina as manobras. "Se houvesse ciclovia, nós iríamos preferir andar em um lugar que não tivesse carro. Acho que normalmente as pessoas que usam o skate no trânsito é porque não têm condição de pagar ônibus. Na Rio Branco, ando na pista central porque tem menos movimento. Não tenho medo de ser atropelado, porque, se não der para eu atravessar, vou esperar."

Já o estudante José Armando de Moura Neto, 16, usa o skate há dois anos como lazer, mas, em alguns casos, não o descarta para se locomover de forma mais rápida. Ele diz que as pistas de skate construídas em áreas de lazer não atendem à demanda da categoria. Desta forma, os skatistas acabam indo para o meio do tráfego. Mesmo assim, ele alerta: "Não recomendo andar na rua, principalmente nos horários de pico."

 

'Situação complicada'

O motorista Paulo Cesar Rosa da Silva, 52, que trabalha há 20 anos na profissão, vem percebendo um aumento no número de usuários do equipamento na pista central da Rio Branco nos últimos três anos. "A situação é complicada, trabalho mais preocupado e atento. Todos os dias, depois das 18h, encontro com eles na avenida. Muitos se concentram em uma área de carga e descarga de um supermercado no final da via. Depois, descem fazendo manobras. Alguns até filmam."

Sobre dividir as pistas com os coletivos, o engenheiro e especialista José Alberto Castañon chama a atenção para os perigos a que estão sujeitos. "O grande problema é que os condutores de ônibus não conseguem enxergá-los, quando se colocam em uma posição cega. Então, o skatista precisa ter consciência do grande risco que corre. Acho que é muito difícil coibi-los." O atleta Nicolas Dias também alerta: "Não é pegar o skate agora ou daqui a um ano e sair remando, senão vai ser atropelado. Não tinha acidente assim na cidade antes, mas é que os meninos mais novos estão vendo que o skate acontece na rua", explica.

 

Maior número de lesões e fraturas em adeptos

O chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Universitário, Elmano Loures, explica que o uso do skate hoje está associado a um número alto de lesões traumáticas e fraturas. Se praticado de forma correta e com proteções, quando a pessoa cai, vai apoiar o corpo com a mão estendida, e o risco será menor. Nestes casos, é mais comum haver fraturas nos membros superiores, como punho, antebraço e clavícula. "Porém, quando a pessoa pratica este esporte no meio do trânsito, a gravidade dos acidentes muda de figura. A possibilidade é de que o traumatismo seja de maior energia em casos de atropelamento ou colisão com um veículo. Então, além das fraturas, a pessoa pode ter traumas de crânio e fraturas nos membros inferiores. Um atropelamento, por exemplo, podemos ter um trauma de crânio, lesão de medula, fraturas de fêmur, tíbia." O ortopedista ainda completa: "Isso eleva ainda mais os custos com internações. Muitos destes casos poderiam ser evitados. O Brasil é um dos países do mundo que mais faz vítimas no trânsito, e isso repercute no custo da saúde pública e no serviço previdenciário."

Para o engenheiro e especialista em trânsito José Alberto Castañon, não há como coibir a prática do skate e apenas a adoção de medidas alternativas pode minimizar o impacto da atividade nas ruas. "Se tivéssemos, por exemplo, ciclovias, haveria a possibilidade de eles serem colocados em vias segregadas, onde estariam mais seguros."

 

 

Ciclovia é alternativa apontada

Segundo o secretário de Governo, José Sóter de Figueirôa, o Plano de Mobilidade Urbana, que deve levar em consideração a boa convivência entre os vários meios de locomoção, deve ser aprovado no final do ano ou no início do próximo. O secretário explica que um estudo de implantação de uma rede cicloviária no município está em fase avançada. Essa rede vai contemplar, na sua primeira fase, o tronco principal, que liga o Bairro Barbosa Lage, na Zona Norte, ao Viaduto Augusto Franco, na região central. Este projeto já foi encaminhado ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e está em fase final de negociação, com custo aproximado de R$ 1,5 milhão. A proposta é construir a ciclovia com a faixa de 2,5 metros na Avenida Brasil e no Acesso Norte. Desta forma, a faixa poderá ser usada também pelos skatistas. "A partir deste tronco, teremos futuramente vias secundárias nos grandes corredores de bairros. Está prevista também a instalação de bicicletários, em pontos de confluência, onde os corredores de bairros se interligam com o tronco principal."

Sobre a instalação de ciclovia no Bairro São Pedro, na Cidade Alta, Figueirôa revelou que, somente após a conclusão das obras da BR-440, ela poderá ser cogitada. "Já tivemos pequenas melhorias e devemos fazer uma sinalização vertical, com alertas aos motoristas sobre a presença de ciclistas na pista. Não cabe uma intervenção maior enquanto as obras não forem finalizadas. Após este período, vamos tentar a municipalização da BR-440, que hoje está sob a supervisão e administração do Governo federal. Só aí podemos cogitar transformar esta área em um grande espaço de lazer, com a implantação da ciclovia."

 

Várias pistas carecem de manutenção

A falta de manutenção das pistas destinadas à prática do skate, segundo alguns adeptos, contribui diretamente para que alguns jovens optem por andar na rua. Segundo o diretor da Associação Juiz-forana de Skate, Brunner Venâncio Lopes, existem cerca de 20 pistas na área urbana. A maioria foi construída antes de 2005. "Temos pistas em várias partes da cidade, só que, algumas, estão há mais de dez anos sem manutenção preventiva. Elas estão esburacadas e sem iluminação adequada, isso afasta os frequentadores. O skate é um esporte que surgiu nas ruas e, depois, veio o advento das pistas, que chegaram para proporcionar mais segurança à prática. Mesmo com estes espaços, vai ter o skate no trânsito, mas, certamente, se as pistas estiverem em condições adequadas, os skatistas possivelmente não ficarão andando e fazendo manobras no trânsito."

O secretário de Esporte e Lazer, Francisco Canalli, não acredita que o fato de as pistas de skate não estarem em perfeitas condições de uso, influencie o jovem a andar nas vias públicas. "Não consigo compreender isto como desculpa. Quer dizer que se a pista de skate está ruim, então, ele vai descer a Rio Branco. Não é por aí. Até porque pista é diferente de uma rua. O que vejo é que o skatista está enxergando o skate como meio de transporte."

Nos últimos meses, a Secretaria de Esporte e Lazer realizou um levantamento das condições de todas as pistas da cidade. Em acordo feito entre a Prefeitura e a Associação Juiz-forana de Skate ficou decidido que as pistas da Praça Antônio Carlos e do Bairro Vitorino Braga seriam reformadas. O início das obras estão previstas para o segundo semestre deste ano. "Sabemos das dificuldades dos skatistas. Nosso objetivo é melhorar e ampliar o espaço deles na cidade aos poucos, já que, pela dificuldade de verba, não é possível fazer tudo de uma só vez", esclareceu o secretário Francisco Canalli.

Na Avenida JK, próximo à entrada do Bairro Araújo, na Zona Norte, uma nova praça onde haverá uma pista de skate será inaugurada, entre final de agosto e início de setembro. O lugar, que será denominada Centro de Esporte Unificado (CEU), contará com uma estrutura diferenciada. Além da pista, haverá centro comunitário, teatro, auditório e espaços para lazer. "É um equipamento público fantástico, com verba do Governo federal. Um espaço de convergência na área de esporte, lazer e cultura", declarou o secretário de Governo, José Sóter de Figueirôa Neto.

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