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20 de Maio de 2014 - 07:00

Rapaz foi atacado por mais de 30 pessoas, que repetiam: 'Estuprador tem que morrer'

Por Daniela Arbex

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Imóvel onde ocorreu espancamento foi todo revirado
Imóvel onde ocorreu espancamento foi todo revirado

Um homem de 25 anos, morador da Vila Olavo Costa, está internado desde sábado em estado grave no Hospital e Maternidade Terezinha de Jesus (HMTJ), depois de ter sido atacado e agredido por mais de 30 pessoas dentro do imóvel onde mora. O grupo entrou na casa de apenas dois cômodos aos gritos, com pedaços de pau e barras de ferro, repetindo que "estuprador tem mesmo que morrer". Sem chance de defesa, o morador foi deixado no local inconsciente, embora seus agressores acreditassem que ele já estivesse sem vida. Só por isso, eles colocaram fim à sessão de espancamento, como se a tarefa tivesse terminada. Apesar das acusações, não há ocorrências que liguem o rapaz a abusos sexuais. Aliás, os sistemas de dados das polícias Civil e Militar não identificaram passagens de crime envolvendo o jovem. Independentemente do discurso da inocência ou da culpa, chama atenção não só a brutalidade do caso, mas a frequência de episódios nos quais os autores supõem estar fazendo Justiça com as próprias mãos. Para especialistas, o episódio lança por terra a ideia de que o povo brasileiro é pacífico e chancela um título cada vez mais incômodo para a nação: o de que o Brasil é, sim, um país violento e intolerante.

Na Rua Filonila Carlota de Jesus, uma das recordistas em número de homicídios na cidade, o clima é de indignação. "Foi uma covardia o que fizeram com ele", disse uma das poucas vizinhas que resolveu se manifestar sobre o episódio. O depoimento foi dado sob a condição de que seu nome fosse mantido no anonimato. Outros moradores apontaram o caminho do beco que dá acesso ao barraco sem luz da Vila Olavo Costa, bairro encravado num dos principais bolsões de pobreza da cidade e que foi escolhido pela Prefeitura para integrar o projeto "JF + cidadania", que contará com R$ 10 milhões de investimentos federal, estadual e municipal, na tentativa de reverter o quadro de exclusão e violência da área. Indicar o local foi a maneira silenciosa que a maioria encontrou para dar visibilidade ao episódio que muitos temem cair no esquecimento, já que a vítima "não é socialmente importante", afirmou um morador.

Revirado e sujo, o imóvel ainda guarda as marcas da tentativa de homicídio. Além de manchas de sangue, há pedaços de madeira que foram deixados para trás. Sem luz elétrica, o beco às escuras acabou facilitando a fuga dos agressores. Por medo de retaliação, quem viu os autores diz não ter enxergado rosto nenhum. A vítima, que teve afundamento e traumatismo de crânio, fratura de mandíbula e diversas escoriações pelo corpo, permanece internada em risco.

 

Medo e dor

Funcionária de um posto de gasolina, Andriléa do Carmo Souza, 48 anos, diz estar assustada com tudo que ocorreu. Filha da mulher que cuidava do rapaz, ela contou que ele cresceu amparado por Florinda Ramos Teodoro, 71, na Vila Ideal, já que os pais dele têm problemas de saúde. Há quatro anos, porém, com a morte de Florinda, o jovem passou a beber e andar sem paradeiro pelas ruas. Pouco antes disso, apresentava problemas com álcool e drogas, tendo, inclusive, passado por internação psiquiátrica. Com o falecimento de Florinda, a filha Andriléa cedeu, no seu terreno, um espaço para abrigar o rapaz. Ela não estava em casa, quando homens armados com pau e ferro invadiram o lugar para executá-lo. Não viu, quando ele foi retirado de casa descalço e sem camisa pelo Samu para ser socorrido. Quando chegou no beco escuro que dá acesso a sua casa, Andriléa não encontrou explicações para a violência. No local, deparou-se apenas com o medo e a dor.

 

 

Especialistas repudiam atos de execução

O Registro de Eventos de Defesa Social (Reds) da polícia utiliza a palavra linchamento para definir a causa presumida da ocorrência. E, apesar de faltarem muitas peças nesse quebra-cabeça, não há explicações ou justificativas viáveis para as agressões coletivas cada vez mais presentes. O presidente da OAB Subseção/Juiz de Fora, Denilson Clozato, vê com preocupação o atual momento do país e o ciclo de violência que só serve para alimentar mais violência. "A população está tão descrente com a segurança pública que está agindo com as próprias mãos, o que nós repudiamos. Nós, como OAB, precisamos apoiar a Polícia Militar, Polícia Civil e o Judiciário, a fim de que essas instituições cuidem da segurança pública. Também defendemos a revisão das leis brasileiras e sua atualização."

Para o jurista Paulo Nader, episódios como o da Vila Olavo Costa e de outras vítimas recentes no Brasil, como o da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33, em São Paulo, espancada até a morte, indicam a insatisfação coletiva contra a organização social, a falta de oportunidades e a deficiência na educação. "A igualdade de oportunidades é a base de todo estado democrático de direito, porque pressupõe o respeito à vida e à liberdade. Ela é o ponto de partida. Além disso, o acesso à Justiça é um direito fundamental e implica em ter oportunidade de conduzir uma causa e de obter solução satisfatoriamente justa. No entanto, a Justiça tardia, apesar de ser melhor do que a total injustiça, não satisfaz. Há tanta insatisfação interior e revolta, que muitos não conseguem reprimir sua raiva contra fatos da sociedade."

Doutor em sociologia, o mineiro Rudá Ricci dispensa o termo linchamento e chama de execução os atos que não têm nada a ver com o sentimento de justiça. Para ele, a cultura da intolerância está cada vez mais presente no país e em atitudes de extermínio.

"Episódios como esse refletem a ausência do Estado e das instituições públicas que nascem para preservar os valores de convivência construídos historicamente. Eles revelam a nossa cultura da intolerância e o hábito de excluir os diferentes da nossa convivência. Primeiro, a gente expulsa. Depois, agride e violenta o outro como inimigo. A minha impressão é que as manifestações de junho do ano passado liberaram emocionalmente as tensões latentes, trazendo para junto de nós demandas absolutamente sadias, mas também todo o mal-estar da sociedade brasileira. Após os discursos de vandalismo, vieram os rolezinhos, chamados de arrastões, embora nenhum tenha sido registrado, e agora esses linchamentos", diz Rudá. Para o consultor em políticas públicas de Belo Horizonte, o empobrecimento do discurso intelectual encontrou eco em um discurso altamente emocional e radicalizado. "Há uma aposta de muitos segmentos do Brasil na irracionalidade e na exploração do medo, e isso é perigosíssimo. Revela que o país está contaminado por uma visão grupal e não republicana. Considerado uma nação pacífica porque não faz guerra, o Brasil contabiliza um número de mortos muito superior ao de países em guerra. Vivemos a violência individual e grupal, na qual homens batem em mulheres, adultos batem nas crianças, heterossexuais batem em homossexuais e brancos batem em negros. Somos um país violento, intolerante e absolutamente marcado por relações emocionais, nunca pela razão", enfatiza Rudá.

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