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24 de Maio de 2014 - 07:00

Por Daniela Arbex

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Em meio a marcas da violência, mães confeccionam corações que serão usados em evento
Em meio a marcas da violência, mães confeccionam corações que serão usados em evento

A ordem natural da vida é que os pais morram antes dos filhos. Mas a violência na Vila Olavo Costa interferiu na sequência das coisas e fez com que mais de 70 mães do bairro enterrassem seus filhos nos últimos cinco anos, conforme levantamento da ONG Delevigas, que atua no local desde 2009. Quando a pesquisa da instituição foi iniciada, os números eram tímidos. Mas, em três meses de apuração de porta em porta, a responsável pelo trabalho, Silvia Gomes, 48 anos, foi vendo a tragédia ser ampliada. No último dia 6, quando a Polícia Militar recebeu ofício sobre a realização de uma passeata que terá como concentração a Rua Filonila Carlota de Jesus, os assassinatos contabilizados na área eram 54. De lá para cá, somaram 72 casos, conforme dados da ONG, e ainda há muitos endereços a serem percorridos. Além disso, o trabalho não inclui os números de desaparecidos. São essas mães que choram silenciosamente pela perda e pelo abandono social a que foram submetidas que sairão do anonimato neste domingo (25) para protestar. Para estarem ao lado delas, as mães da Candelária e as de Acari, no Rio de Janeiro, foram convidadas e estão sendo esperadas para o evento, com início previsto para 14h. Em comum, todas essas mulheres carregam a dor de terem sido privadas da palavra futuro.

A representante da entidade, Silvia Gomes, disse que o movimento foi iniciado em função da frequência de casos que resultam no extermínio de rapazes cada vez mais jovens. Nem todos os homicídios estão diretamente ligados ao tráfico de drogas. Há desavenças, rivalidade de território e motivos fúteis por trás de muitos assassinatos. E também um movimento cíclico de vingança, que faz com que mais e mais pessoas tornem-se alvos. Sem ações imediatas capazes de estancar tudo isso, as perdas se multiplicam na área escolhida pela Prefeitura para implantação do projeto "JF + cidadania". A ideia é investir R$ 10 milhões em recursos federal, estadual e municipal no bairro, na tentativa de reverter o quadro de exclusão e violência. "Comecei esse trabalho ao perceber que as mães que perderam filhos ficam desassistidas, sem nenhum tipo de assistência psicológica. Encontrei mulheres que, cinco meses após a morte do filho, ainda lavam a roupa que eles vestiam no dia em que foram assassinados. Isso é muito duro. Apesar de saber que é difícil colocar fim à matança, quero ajudar as mulheres que choram pela ausência dos filhos, pelos desaparecimentos, pela presença deles nas drogas, pelo descaso das autoridades que não apuram muitos desses crimes", afirma Silvia.

A expectativa é que cerca de mil pessoas participem do encontro. Entre elas, Delfina Aparecida da Silva, mãe de Thomas Marley Alves da Silva. Sílvia conta que o rapaz era filho único e morreu aos 18 anos com um tiro na cabeça no final do ano passado. Thomas foi encontrado caído na Rua da Esperança com a Rua Filonila Carlota de Jesus pouco tempo depois de ter pedido a rapazes que mexeram com sua namorada que ela fosse respeitada. Outro caso ainda sem solução é o do vendedor Rodrigo Santiago Sebastião, 22, que saiu de casa no início de abril deste ano e, desde então, não foi mais visto. O carro dele foi localizado pela PM na estrada União e Indústria, no Bairro Granjas Bethel, abandonado e aberto. "Entre as mulheres que fazem artesanato aqui na ONG, cinco também tiveram filhos assassinados", comenta Silvia.

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