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11 de Dezembro de 2011 - 07:00

Segundo o IBGE, em uma década, número de idosos acima desta idade subiu de 6.152 para 10.885, o que significa aumento de 77%

Por Fernanda Sanglard

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Em 10 anos, população aumentou em 77%
Em 10 anos, população aumentou em 77%

Juiz de Fora precisa se preparar para ser uma cidade de idosos. Este é o alerta feito por especialistas e o que pode ser inferido a partir dos Censos Demográficos de 2000 e 2010 e das Estatísticas de Registro Civil, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Enquanto há dez anos pessoas com 60 anos ou mais representavam 48.274 habitantes e 10,56% da população juiz-forana, no ano passado, a cidade já somava 70.288 idosos, que correspondem a 13,61% do total de moradores. Em números absolutos, houve crescimento de quase 50%. Apesar do aumento em todas as faixas etárias a partir dos 60 anos, o maior salto ocorreu entre aqueles com idade superior aos 80. Nesse grupo, eram 6.152 pessoas em 2000 e, no ano passado, foram computados 10.885. A população com mais de 80 cresceu 77% no comparativo da década (ver quadro) e superou todas as faixas etárias (ver quadro na capa da Tribuna).

Apesar de não haver números sobre a expectativa de vida por cidade, os levantamentos demonstram que, além do crescimento, a população idosa está vivendo mais no município. A novidade é que, em dez anos, o número de óbitos permaneceu aproximado na faixa dos 60 aos 84 anos, mas aumentou significativamente a partir dos 85. Isso significa que a população está morrendo mais tarde. Conforme o assistente social e gerontólogo José Anísio da Silva, o Pitico, que também é integrante do Conselho Municipal dos Direitos do Idoso, a cidade deve deixar de ser vista como universitária para se tornar também um lugar de idosos.

Entre os municípios mineiros com mais de 500 mil habitantes, Juiz de Fora é o que possui a maior proporção de pessoas acima dos 60. A porcentagem é superior à registrada no último Censo em Belo Horizonte (12,6%), em Uberlândia (10,2%) e em Contagem (9,2%). Por isso, segundo o coordenador do Laboratório de Demografia e Estudos Populacionais da UFJF, Luiz Fernando Soares de Castro, é preciso conscientização sobre as mudanças e preparação da cidade para melhor atender este segmento, que, em alguns anos, será a maioria populacional. "Segundo estimativas, nas próximas quatro décadas, a população idosa irá mais que triplicar no Brasil." Ele lembra que os levantamentos do IBGE também demonstram queda vertiginosa da fecundidade, declínio da mortalidade infantil e aumento da expectativa de vida ao nascer (de 65 para aproximadamente 73 anos), o que alterou a distribuição etária da população, "diminuindo o número de jovens e aumentando o de idosos." De acordo com o pesquisador, essas mudanças não são apenas demográficas, pois trazem impactos sociais.

Pitico concorda. "Traz impactos políticos se essa parcela se organizar e mostrar o poder que tem, e econômicos, já que o aumento da expectativa de vida interfere no fator previdenciário, nos preços dos planos de saúde e na participação no mercado de trabalho." No social, ele diz ser preciso haver mais investimentos na saúde, principalmente na prevenção e na prática esportiva, preparar os equipamentos públicos para melhor atender essas pessoas e estimular que os idosos ocupem a cidade.

"Juiz de Fora não é diferente da maioria das cidades brasileiras, há falta de abrigos públicos, não há calçamento adequado, o transporte público não atende com a qualidade que deveria, o trânsito está cada vez mais perigoso, e os idosos estão entre as principais vítimas. Os medicamentos são caros e nem todos estão disponíveis no SUS. Há também o endividamento e a aplicação de golpes contra os mais velhos. Para reverter esse quadro, é preciso fazer, em dez anos, o que não foi feito em 150", defende o vereador Isauro Calais (PMN), que preside a Comissão Especial do Idoso.

Para a fisioterapeuta e administradora de três espaços voltados para o atendimento de idosos na cidade, Luciana Fortuna Freguglia, diante de tantas mudanças, ainda há barreiras e tabus que precisam ser quebrados. "O envelhecimento é uma certeza, por isso, as pessoas devem estar dispostas a conviver com os mais velhos e a respeitá-los."

Cidade tem sete mil idosos analfabetos

É entre a população com mais de 60 anos que se concentra a maior quantidade de analfabetos. Em Juiz de Fora, conforme as Estatísticas do Registro Civil de 2010, divulgadas este mês pelo IBGE, mais de sete mil pessoas nessa faixa etária ainda não sabem ler e escrever, o que representa taxa de analfabetismo de 10,2%. O dado é preocupante, conforme o assistente social e gerontólogo José Anísio da Silva, o Pitico. "Sabemos que há uma questão histórica no país que levam a esses números, e que as políticas de erradicação do analfabetismo são recentes. Mas é preciso haver alguma medida para retirar os idosos dessa situação, para que os índices não sejam reduzidos apenas com a mortalidade e para que eles deixem de ter vergonha de não saber assinar o nome. Os órgãos de educação da cidade têm ações direcionadas aos mais velhos, mas são pontuais."

A professora da Faculdade de Serviço Social da UFJF e coordenadora do Polo de Enriquecimento Cultural da Terceira Idade, Sandra Hallack Arbex, reforça ainda que boa parte dos idosos analfabetos encontra-se nas classes menos favorecidas. "A formação profissional de hoje também deve se atentar para esse novo quadro social e investir em capacitação de pessoas que trabalhem com os idosos. A UFJF, como instituição de formação, pode se desenvolver mais nesse sentido."

De acordo com a Secretaria de Educação, a pasta tem uma supervisão voltada especificamente para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), que oferece turmas em 43 escolas da rede municipal, atingindo público com 18 anos ou mais. Uma das turmas conta, inclusive, com a participação de uma aluna de 92 anos. A assessoria de comunicação da secretaria também destaca a implantação, este ano, do Círculo de Alfabetização e Cultura, que ocorre no Curumin da Vila Olavo Costa e integra o programa "Travessia Bairros", do Governo estadual, sendo voltado para pessoas a partir dos 35 anos.

Pitico pondera que a educação para idosos exige metodologia diferenciada. "O EJA, como o próprio nome diz, é para jovens e adultos. O idoso vive uma condição especial, pois não está na expectativa de conseguir uma vaga no mercado de trabalho ou de ter melhoria salarial. Ele quer deixar de viver às margens, quer se sentir parte da sociedade."

'Algumas pessoas não nos respeitam, mas são minoria'

Boa parte dos idosos juiz-foranos vive nos arredores da região central, principalmente em bairros como Centro (onde representam 20% dos habitantes), Santa Helena (16,8%), Santa Catarina (15,9%) e Mariano Procópio (15,6%). Isso se deve não só ao histórico de ocupação da cidade, mas à oferta de serviços. Também por isso, o casal Justino Garcia de Paiva, 101 anos, e Edwiges Garrido de Paiva, 91, optou por permanecer morando na Avenida Rio Branco, no Manoel Honório, Zona Leste. "Nessa região ,nos conhecemos, criamos nossos filhos e vivemos juntos há 69 anos", conta Edwiges. Lúcidos, os dois são exemplos de que é possível envelhecer com qualidade de vida.

"Hoje não tenho mais compromisso, então rezo, descanso, converso, fico vendo o movimento e vou à missa", conta Justino, mais conhecido como Nininho. Segundo a filha Sônia, apenas há pouco tempo o pai começou a demonstrar os sinais da idade: "Ele tem repetido algumas coisas e está com mais dificuldade para ouvir e enxergar, mas não tem nenhum problema de saúde."

O aposentado Olílio Balbiano, 99, mora na região central e, apesar da idade, anda sozinho, embarca nos ônibus e conversa sobre qualquer assunto. Gosta de passear pelo Parque Halfeld e só teme levar um tombo devido às irregularidades das calçadas juiz-foranas. "Algumas pessoas ainda não nos respeitam, mas são minoria. A maior parte espera a gente entrar no ônibus e nos trata bem."

A coordenadora do Polo do Enriquecimento Cultural da Terceira Idade da UFJF, Sandra Hallack Arbex, ressalta que "existem muitas velhices", mas, entre todas, as dos menos favorecidos são as mais afetadas pelos problemas relacionados à idade. "Vemos isso nesses 20 anos de funcionamento do polo. A maioria do nosso público ainda é composta por pessoas com mais condições. As mais pobres têm dificuldade de acesso aos serviços. Por isso, iniciamos um trabalho no Bairro Dom Bosco e pretendemos ampliar para outras áreas." Segundo Sandra, antes de qualquer iniciativa, é preciso conhecer quem são os idosos juiz-foranos e, "nesse sentido, a Comissão Especial do Idoso tem feito um excelente trabalho".

O presidente da comissão,vereador Isauro Calais, explica que o grupo solicitou apoio do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF para realizar um diagnóstico da terceira idade, que já começou a ser feito e deve ser finalizado até julho de 2012. "As informações vão ser usadas para traçar políticas públicas."

De acordo com Isauro, além da pesquisa, a Câmara tem trabalhado para ampliar os investimentos e preparar a cidade para o envelhecimento. "Fizemos inserções no orçamento para que o Executivo possa aplicar mais recursos. Aprovamos a emenda que prevê a instalação de 200 kits de segurança nos banheiros das casas de idosos de baixa renda, porque há pesquisas que mostram que a maioria dos acidentes acontece dentro de casa e nesse local. Solicitamos a criação de uma instituição de longa permanência pública para os idosos, e recebemos parecer favorável da Settra para o projeto de lei que pretende ampliar de 90 para 120 minutos o tempo de permanência dos veículos de idosos no estacionamento rotativo (Área Azul)."

Pontos positivos

O assistente social e gerontólogo Pitico acredita que entre os avanços ocorridos na cidade estão a criação da Comissão Especial do Idoso, instituída este ano pela Câmara Municipal, e a permanência de projetos antigos, como os desenvolvidos pelo Pró-Idoso da Amac, pelo Polo de Enriquecimento Cultural da Terceira Idade da UFJF, e pelo Departamento de Saúde do Idoso da Prefeitura, além do próprio trabalho do conselho municipal. Contudo, ele ressalta que, nos últimos 20 anos, não houve implementação de novo serviço público para os idosos, principalmente para os mais dependentes e de baixa renda. "Houve apenas ampliação e fortalecimento dos projetos já existentes."

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