Publicidade

22 de Novembro de 2012 - 07:00

Condenado a mais de 12 anos de prisão, Ademar Cardoso se apresentou ontem na cadeia de Mar de Espanha

Por Daniela Arbex

Compartilhar
 
Ademar Cardoso foi colocado em uma cela com mais seis sentenciados
Ademar Cardoso foi colocado em uma cela com mais seis sentenciados

Após 16 anos do pega de carro que matou cinco pessoas de uma mesma família, na MG-126, entre Bicas e Mar de Espanha, um dos envolvidos na tragédia, o médico Ademar Pessoa Cardoso, 65 anos, começou ontem a cumprir a pena a que foi condenado. Às 7h30, ele se apresentou na cadeia pública de Mar de Espanha, onde reside, após ter a prisão decretada na segunda-feira, pelo juiz da Comarca de Bicas, Ricardo Domingos de Andrade. Ele foi condenado por homicídio doloso a 12 anos e nove meses de prisão. Junto com o industrial Ismael Keller Loth, condutor da Blazer que atingiu na contramão o Fusca onde estavam as vítimas, Ademar apresentou, ao longo do processo, 27 recursos no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outros seis no Supremo Tribunal Federal (STF). O advogado do médico, Wellington Marcos Rodrigues, 47, disse ontem que não irá impetrar ordem de habeas corpus, mesmo porque o entendimento jurídico é de que não cabe mais recurso. O advogado José Ramos, que representa a família dizimada pelo racha, informou que a prisão de Ismael também já foi peticionada e o processo concluso. No entanto, um recurso ainda tramita na Justiça. Ele já foi condenado a 16 anos em júri popular realizado em 2004.

Quando deu entrada na cadeia pública, o médico, que é casado e pai de quatro filhos, estava acompanhado de Wellington, que, além de advogado, foi eleito prefeito de Mar de Espanha este ano. Segundo o representante do réu, Ademar, que sofre de diabetes, estava muito abatido no instante da prisão. Ele foi colocado numa cela com outros seis sentenciados, mas não havia cama disponível, tendo sido providenciado um colchão. Para dentro da cadeia, o obstetra e geriatra só conseguiu levar uma roupa de cama. "Ele tinha esperança de anular o processo, mas aceitou a condenação. A minha orientação foi que iniciasse o cumprimento da pena", afirmou o advogado. Em 2007, ele e Ismael ficaram detidos por alguns dias.

A notícia da prisão de Ademar foi recebida com emoção pelo engenheiro aposentado José Geraldo Carnaúba Corrêa de Souza, 80 anos, pai e avô das vítimas do acidente de trânsito provocado pelo pega. Ele é pai de Adriana, 31 anos, avô de Victória, 2 anos, e Theodora, 7 meses, além de sogro de Júlio César, 32, todos passageiros do Fusca atingido no acidente. Morreu ainda Isabel Benecdita, 93, que também estava no carro e era parente da família. "Não dá para esquecer um acidente provocado por um veículo a 155 quilômetros por hora. Minha filha teve parte da face arrancada e quebrou o pescoço. Minha netinha mais nova, um bebê, foi jogada contra o barranco. Meu genro morreu prensado pela porta do carro, e a Tia Belinha, que estava no carona, foi arremessada a mais de 40 metros. Além de ter provocado o acidente, o Ademar, que é médico, não prestou socorro", diz José Geraldo, que acaba de perder a esposa, Delizete Carnaúba. Ela morreu em julho, aos 77 anos, de enfisema pulmonar. Para o engenheiro, sem o esforço da mulher, o caso não teria tido esse desfecho. "Ela era uma lutadora e a porta-voz da família. Era Delizete quem deveria estar dando essa entrevista. Mas, em nome dela, eu vou continuar perseguindo a punição deles, porque é a impunidade que nos faz criar um tribunal paralelo. Além da parte criminal, quero que o CRM (Conselho Regional de Medicina) casse o diploma de Ademar, porque ele não socorreu nossas netas."

A Tribuna solicitou, junto ao advogado do médico, permissão para realizar uma entrevista com o cliente dele, mas Wellington disse que Ademar não está em condições de falar no momento. Em todas as vezes que se manifestou, porém, ele alegou inocência e rejeitou a acusação de ter participado de um pega.

A reportagem tentou contato com o juiz da Comarca de Bicas na tarde de ontem, para saber sobre a possível transferência do médico para uma penitenciária do estado, mas o magistrado estava em audiência.

 

 

 

Obstinação da família

A obstinação da professora aposentada Delizete Carnaúba, falecida há quatro meses, foi responsável não só pela continuidade do processo que resultou na prisão de Ademar Pessoa Cardoso, mas na mudança do entendimento dos tribunais em relação aos crimes de trânsito provocados por pega. "Ela prestou um grande serviço à nação brasileira, porque mudou o entendimento dos tribunais em relação a esse tipo de crime, que passou a ser considerado dolo eventual. Significa que, embora não haja a intenção de matar, assume-se o risco. Esse caso é um divisor de águas, porque, a partir dele, houve um aprimoramento do sistema. Hoje a tendência dos tribunais é punir excessos no trânsito com dolo eventual", explicou José Ramos, advogado da família de Delizete.

Segundo José Geraldo Carnaúba, mesmo com a saúde comprometida, a esposa deixou números de telefone e informações para que ele pudesse dar andamento ao caso. "Ela pressentiu que morreria e deixou escrito os nomes de quem eu devia procurar, inclusive os telefones da Tribuna. Ela conseguiu mudar a jurisprudência no país e transformar o pega num crime de dolo eventual. Delizete deixou patente que a nossa luta valeu a pena e que a nossa família não morreu em vão. Estou vivo para continuar lutando em nome dela. Desde o acidente, nossa vida virou um inferno. Perdi tudo que tinha para mover o processo e colocá-los na cadeia. Levei sete anos para provar que a primeira perícia feita sobre a velocidade do carro de Ismael, a qual apontava 45 quilômetros por hora, estava errada. Para mim, não é uma questão de dinheiro, mas de punição."

Na última entrevista que Delizete concedeu ao jornal, quando Ademar ainda estava solto, ela revelou a mágoa por nunca ter ouvido dos condenados nenhuma palavra de conforto. "Não houve nenhum dia em que esses dois senhores chegassem junto de nós para dizer que erraram. Eu ficaria profundamente gratificada se, pelo menos, eles tivessem perdido a carteira de motorista. Mas isso não aconteceu."

 

 

Galeria de Imagens

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que o subsídio do Governo vai alavancar a aviação regional?