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26 de Dezembro de 2013 - 23:00

Mulher soterrada no Jardim Natal é a primeira vítima deste período chuvoso; Defesa Civil fez 205 atendimentos

Por Eduardo Valente, Marcos Araújo e Marina Sad

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Três casas desabaram de um barranco na Rua Miguel Marcos Peres, no Jardim Natal
Três casas desabaram de um barranco na Rua Miguel Marcos Peres, no Jardim Natal

O Natal deste ano foi marcado por tragédias em Juiz de Fora em razão das fortes pancadas de chuvas registradas entre o fim da tarde e o início da noite de quarta-feira. Além da morte de uma mulher de 53 anos, que teve a casa soterrada no Bairro Jardim Natal, Zona Norte, uma pessoa ficou ferida, três estão desabrigadas e 123, desalojadas, sendo 95 apenas em Igrejinha, na Zona Norte. Barrancos atingiram imóveis e interromperam o fluxo de ruas em diversas regiões da cidade. Ao mesmo tempo, árvores caíram, e pontos de alagamentos causaram transtornos, principalmente em áreas próximas a córregos. Se a noite do feriado foi de preocupação, nesta quinta-feira (26) o dia foi de contabilizar prejuízos e recuperar os danos, já que algumas áreas ainda estão em risco. Conforme balanço divulgado pela Defesa Civil, 205 atendimentos foram registrados pelo órgão entre as 17h de quarta e 16h35h desta quinta, sendo a região Norte a mais atingida, com 45 ocorrências. De acordo com o prefeito Bruno Siqueira (PMDB), não está descartada a possibilidade de ser decretada situação de emergência no município e, caso haja necessidade, as escolas municipais, além do Cesporte, em Santa Terezinha, poderão ser colocadas à disposição para atender desabrigados.

O óbito do Bairro Jardim Natal, de Maria da Conceição Aparecida do Nascimento, foi o primeiro registrado pela Defesa Civil neste período de chuva, iniciado em novembro. Três casas desabaram de um barranco na Rua Miguel Marcos Peres. A vítima fatal estava dentro de um destes imóveis, e seu corpo foi localizado pelos Bombeiros quase sete horas após o acidente, ocorrido no fim da tarde. Além dela, outra mulher, 50, também ficou soterrada e foi salva por populares, apresentando apenas ferimentos leves. Ela foi encaminhada ao HPS. De acordo com a Secretaria de Saúde, havia a expectativa de ela ser liberada ainda na noite desta quinta, após passar por avaliação de um neurologista.

Ainda não se sabe as causas deste deslizamento de terra. Em entrevista à Tribuna, o prefeito informou que a Defesa Civil já monitorava a área onde houve a tragédia, embora nunca tenha havido uma ocorrência naquele local específico. Segundo o subsecretário de Defesa Civil, Márcio Deotti, "a primeira (casa) que estava mais acima, caiu sobre a segunda, vindo a atingir a terceira que estava mais abaixo". A energia elétrica ao redor foi cortada pela Cemig, a fim de garantir a segurança dos Bombeiros, uma vez que fios da rede elétrica se misturavam aos escombros.

O leitor Nelson Eduardo Batitucci Müller passava o feriado na casa da irmã, no Bairro Jardim Natal, quando registrou antes e depois a área atingida pelo deslizamento de terra no bairro. "Como estava se aproximando uma tempestade, acabei tirando uma foto panorâmica, sem pretensão, do tempo. A primeira foto foi tirada meia hora antes de a chuva cair. Foi uma das piores sensações ter sido testemunha de um evento tão triste. Uma foto sem pretensão acabou virando um dou últimos momentos de uma tragédia", relata Nelson em e-mail à Tribuna.

 

Igrejinha

O córrego que corta o Bairro Igrejinha transbordou, e a enchente atingiu cerca de 200 residências. Conforme a Defesa Civil, 95 pessoas tiveram que ser deslocadas para casas de parentes e vizinhos. Elas poderiam retornar para os imóveis assim que o nível da água se normalizasse. Assistentes sociais da Prefeitura foram acionados para realizar atendimentos no local. Equipes do Demlurb também foram deslocadas para os serviços de limpeza. Outro caso de alagamento foi registrado no Bairro Industrial. O córrego que corta o bairro e um trecho do Rio Paraibuna transbordaram, atingindo algumas residências. Equipes da engenharia e da assistência social da Defesa Civil fizeram atendimentos e levantamentos.

Quatro linhas de ônibus da Zona Norte tiveram problemas para cumprir o itinerário devido aos transtornos causados em algumas vias, como buracos e concentração de lama.

 

Chuva recorde

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a forte tempestade no Natal durou aproximadamente quatro horas, somando 85,2 milímetros de chuvas. Foi o maior acumulado deste período chuvoso em um único dia, representando 26% do esperado para todo dezembro. Apenas no pluviômetro do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), instalado no Bairro Graminha, Zona Sul, o acumulado é de 511,8 milímetros, quantidade suficiente para encher 2.500 piscinas olímpicas, segundo o hidrólogo Mosefran Firmino. A previsão é de novas pancadas nos próximos dias.

Além dos 56 atendimentos na Zona Norte, 45 ocorreram na Leste, seguidos de Sul (34), Sudeste (30), Nordeste (23), Centro (12) e Cidade Alta (5). Deste total, 81 correspondem a deslizamentos de talude, 59 ameaça de escorregamento de terra e 14 orientações técnicas preventivas. Os outros registros foram em razão de alagamentos, trincas em paredes e lajes e reavaliações.

 

 Doações

Com mais de cem famílias afetadas pelas chuvas na cidade, a Prefeitura iniciou uma campanha para arrecadação de roupas e outros itens. Ao todo, oito postos de arrecadação estarão recebendo desde vestuário a gêneros alimentícios não perecíveis. As doações podem ser feitas no Espaço Cidadão JF, localizado no Parque Halfeld, nas unidades regionais Nordeste, Oeste, Norte e Sul, na Secretaria de Desenvolvimento Social, na sede da Prefeitura (prédio da Avenida Brasil), e no Centro Pop, que atende pessoas em situação de rua na Oswaldo Veloso 190, Centro.

 

Apreensão e medo em várias regiões

No Bairro Milho Branco, Zona Norte, a queda de um barranco, por volta das 16h30 de quarta-feira, derrubou a parede da sala de uma casa da Rua José Barbosa de Almeida, conhecida como Rua Dois. A moradora Maria Margarete da Silva, 37 anos, contou que perdeu estante, sofá, televisão e cama. Segundo ela, a Defesa Civil esteve no local, mas não isolou a área. "Os vizinhos estão com medo, a rua está sem energia, pois a fiação elétrica foi atingida e também não temos água."

A queda de um barranco derrubou a parede da sala de uma casa no Milho Branco

 

Na mesma região, uma casa foi parcialmente destruída no Cerâmica depois de ter sido atingida por um deslizamento de terra. A cozinha e o banheiro do imóvel, na Rua Mamede Camilo, caíram na noite do Natal, por volta das 19h. Não havia ninguém na residência na hora.

No Cerâmica, um imóvel foi parcialmente destruído após ser atingido por um deslizamento de terra

 Já no Monte Castelo, na Rua Expedicionário Antônio Novaes, uma barreira caiu de uma encosta e fechou a via, por volta das 15h30 de quarta, deixando o fluxo impedido até a tarde desta quinta, quando foi liberado. Perto dali, no Jardim Cachoeira, a parede de uma galeria de águas pluviais caiu, e uma equipe da Secretaria de Obras foi até o local para fazer a limpeza e analisar o que poderia ser feito, de forma emergencial, para proteger a galeria.

Situação preocupante também no Esplanada, onde o talude caiu sobre uma casa abandonada na Rua Professor Walquirio Seixas de Farias. Conforme moradores, a movimentação de terra está colocando o asfalto da rua em risco.

Rua Professor Walquirio Seixas de Farias, no Esplanada

 Caso semelhante ao observado na Rua Maria Florice dos Santos, no Três Moinhos, Zona Leste, onde o asfalto estaria cedendo, com risco de atingir outras vias, entre elas a Rua Diva Garcia. Uma moradora da rua, a promotora de vendas Samiln Silva, conta que, há cerca de duas semanas, a Prefeitura enviou uma equipe ao local para consertar um buraco na via. Algumas vigas para a contenção foram colocadas, mas o serviço foi paralisado. Ela acredita que essa situação, somada às chuvas, pode ter influenciado no desmoronamento do asfalto, já que foram utilizadas máquinas pesadas, e o serviço não foi finalizado. A moradora reclama que toda a via está rachada, meios-fios quebrados e poste caído, além de árvores que ameaçam despencar sobre as casas.

De acordo com a assessoria de comunicação do Demlurb, uma equipe será enviada ao local para verificar o problema. Já segundo a assessoria da Secretaria de Obras, os serviços na rua não estão paralisados. Eles fazem parte de uma verba de R$ 15 milhões recebida para contenção de encostas em nove bairros. Outras duas vias do Três Moinhos foram contempladas. Entretanto, as obras na Rua Maria Florice dos Santos ainda estão na fase inicial, quando são colocadas estacas. A assessoria explica que a área é de risco e, por isso, não foi possível evitar o deslizamento. Entretanto, uma equipe da pasta irá ao local fazer uma proteção de rip rap, espécie de contenção com sacos, para proteger e evitar novos deslizamentos. As obras serão retomadas quando a chuva parar.

 

Muro cai

No Bairro São Benedito, na Zona Leste, o problema está na queda de um muro de divisa, que resultou no desmoronamento de terra, causando transtorno em três imóveis. De acordo com a professora Talita da Silva Assis, 25 anos, o barranco cedeu sobre a janela da cozinha, onde a mãe estava minutos antes. "Por pouco ela não foi atingida." Com a queda do talude, o corredor de acesso para duas casas de fundo ficou impedido e, na tarde desta quinta, os vizinhos providenciavam a retirada da terra.

 Muro caiu no Bairro São Benedito

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