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12 de Janeiro de 2014 - 07:00

Grupo de ativistas de JF luta por mais humanização no atendimento a parturientes

Por FLÁVIA CRIZANTO

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Grupo Amma-JF orienta gestantes sobre procedimentos considerados violentos por elas, mas que ainda são vistos como
Grupo Amma-JF orienta gestantes sobre procedimentos considerados violentos por elas, mas que ainda são vistos como 'normais'

Juiz-foranas alertam a sociedade para um tipo de abuso sofrido por gestantes no momento do parto: a violência obstétrica. Apesar de o termo ser pouco conhecido entre profissionais da saúde, pacientes e Judiciário, uma pesquisa chamada "Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado", realizada pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Sesc, mostrou que uma em cada quatro mulheres entrevistadas já foi vítima de procedimentos que, segundo ativistas, ultrapassaram os limites do respeito aos direitos humanos. Entre as formas de abusos e maus-tratos constatados estão cortes desnecessários e não autorizados, exames de toque dolorosos, recusa para alívio da dor, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais com a paciente durante o atendimento, negativa de assistência, xingamentos e humilhações. Apesar de Juiz de Fora não possuir um levantamento oficial, em 2012, um documento foi entregue ao Ministério Público de Minas Gerais e à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa com denúncias e histórias de 24 mulheres mineiras, sendo quatro delas juiz-foranas. O número não tem valor estatístico, mas alerta a sociedade para a necessidade de maior conscientização sobre os direitos das mulheres e das decisões relacionadas ao seu próprio corpo. A discussão ganha mais vulto com o retorno previsto para este ano da Casa de Parto, agora chamada de Centro de Parto Natural.

A funcionária pública e ativista Eliana Nunes Cunha, de Belo Horizonte, acredita que o desconhecimento sobre o assunto atrapalha a apuração dos casos. "O próprio Ministério Público teve dificuldade em entender o que estávamos relatando, o que nos leva a deduzir que a quantidade de mulheres que sofre esse tipo de violência é muito maior." O que pode ser a situação vivida pela dona de casa M., 29 anos. Ela nunca ouviu falar sobre o assunto, só sabe dizer que as intervenções feitas no seu corpo no hospital, em outubro de 2013, ficarão eternamente como uma das suas piores memórias. "Não sei explicar como me senti. É um trauma para sempre. Depois do parto, só chorava, e não era de alegria, era de dor, no corpo e na alma. Até hoje dói." As dificuldades começaram na porta da instituição, onde M. relata ter esperado por duas horas. "As contrações vinham, e eu me agarrava à cadeira. As pessoas olhavam umas para as outras e comentavam. Eu não podia fazer nada. Depois vieram com uma varinha e começaram a me cutucar. Eu sentia muita dor, era como se estivessem me machucando, e ninguém me explicava nada. Ainda tive que ouvir que não era bom ficar gritando porque atrapalhava outras pessoas. Quando decidiram me levar, ninguém pôde me acompanhar. Foi quando eles amarraram as minhas pernas e me cortaram."

 

'Isso não é parto normal'

O médico ginecologista/obstetra e homeopata Ricardo Herbet Jones é um dos líderes no país na discussão sobre a melhoria da qualidade no atendimento às parturientes. Para ele, a maneira como o parto é realizado na maioria dos hospitais não pode ser considerada normal. "O termo não é adequado. Melhor seria restringirmos o nome para "vaginal", já que a forma como muitos destes partos é realizada não obedece a nenhuma "normalidade" do ponto de vista fisiológico. O uso de intervenções de forma exagerada e abusiva retira esta qualificação dos atendimentos que vemos cotidianamente. Além disso, a maioria dos protocolos de hospitais está repleta de procedimentos sem embasamento científico para a sua aplicação. Com isso, mais do que restringir a barbárie das cesarianas sem justificativa, faz-se mister "normalizar" o parto como o entendemos no contexto atual."

 

Questionamentos

Entre os procedimentos questionados por profissionais da saúde e pelas parturientes estão o uso da ocitocina (sorinho) para acelerar o parto, a episiotomia - corte feito entre a vagina e o ânus para ajudar a passagem do bebê, a proibição de ingestão de líquidos, o rompimento de bolsa, a obrigatoriedade de ficar na posição ginecológica no momento do parir e ficar deitada de lado durante os trabalhos de parto. Segundo o Ministério da Saúde, tudo isso já não faz mais parte das recomendações, na verdade são contraindicados. Outro mito, que induz muitas mulheres a realizarem a cesárea, e que também passou a ser colocado em xeque, é a circular de cordão (cordão umbilical enrolado no recém-nascido). "Trinta e oito por cento dos bebês têm algum tipo de circular, seja cervical, em "gandola" ou no corpo, e elas não conferem risco aumentado pós-natal. Além disso, o bebê respira pelo cordão umbilical", explica Ricardo.

Quanto à proibição de acompanhantes à escolha da gestante para o momento do parto, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde informa que, desde 2005, a Lei 11.108 garante esse direito e, no caso de hospitais que se negam a cumprir a lei, o cidadão pode entrar em contato com o órgão por meio da ouvidoria, disponível pelo telefone 136, pelo site www.saude.gov.br/ouvidoria ou por cartas.

 

 

Mudança de mentalidade

A enfermeira obstetra Lorena Andrade, mesmo sendo uma profissional da área de saúde, sentiu-se violentada na hora do parto. Ela disse ter recebido, sem desejar, a ocitocina (sorinho), o que provocou fortes dores e ainda foi obrigada a passar horas sem tomar água. "Aquela dor não era minha, não era do parto. Acabei tomando água do chuveiro. Depois disso, me costuraram uma laceração, me tiraram a placenta e me deixaram com muito frio. Não pude ficar perto da milha filha." Hoje ela faz parte da Aliança de Mulheres pela Maternidade Ativa de Juiz de fora (Amma-JF), um grupo que milita pela não violência e por um tratamento mais humanizado às parturientes, além de prestar orientações e suporte.

A existência da violência obstétrica desperta dúvidas, mas, para a coordenadora do Amma, Soraya Perobelli, ela sempre existiu. "Agora as pessoas estão compreendendo que o que antes era considerado "normal" ou "rotina" é uma forma de desrespeito. Os médicos e as entidades necessitam se atualizar, já existem muitas revisões que substituem esses procedimentos cruéis."

Para o ginecologista e obstetra Ricardo Herbet Jones, o excesso de intervenções no parto está ligado à visão social que ainda se tem da mulher. "Intervenções em medicina são usadas em portadores de enfermidades, desviados de sua rota de saúde. O parto, por seu turno, faz parte da fisiologia, está inscrito no repertório de eventos naturais da vida de uma mulher, como ovular, menstruar, amamentar e adentrar na menopausa. Intervir em eventos fisiológicos só se justificaria caso eles se afastassem da rota natural e trilhasse o caminho da patologia. Para isso, é claro, deixaria de ser fisiologia para se tornar enfermidade, e é nesse momento - e somente aqui - que a intervenção se faz necessária para proteger o binômio mãe-bebê. Agredir a vivência normal e natural de uma mulher no seu parto denuncia os conceitos depreciativos da mulher fortemente inseridos na cultura e historicamente sustentados pelo patriarcado em sua manifestação mais grosseira: o machismo."

 

 

Centro de Parto será ativado

Entre as cobranças feitas por mulheres e profissionais que lutam pela humanização do parto em Juiz de Fora estava a reabertura da Casa de Parto, fechada em 2007. Entretanto, a UFJF anunciou que, em agosto deste ano, as mulheres poderão novamente optar por ter seus filhos de forma natural e humanizada. A maternidade, agora chamada de Centro de Parto Natural, estará unida ao novo Hospital Universitário (HU), no Dom Bosco, na Cidade Alta.

De acordo com diretor geral do HU, Dimas Augusto Carvalho, a estrutura, apesar de estar unida ao HU, funcionará em um modelo isolado. "O Centro de Parto Natural foi pensado dentro de uma lógica de atendimento que preza pelo acolhimento do casal e da mulher como protagonista do processo. Cada uma terá seu quarto. Parto e pós-parto serão realizados no mesmo ambiente." Serão três quartos, preparados para realizar um parto cada um. "O que atende a demanda da cidade." A equipe será multidisciplinar, formada por enfermeiras obstetras, mas também vai incluir médicos obstetras e pediatras.

 

Enfermeiros obstetras

"Desde 2004, os enfermeiros têm sidos inseridos nas políticas públicas do Ministério da Saúde como instrumentos de inserção da vivência humanizada e como profissionais responsáveis por diminuírem os altos índices de cesariana no país, pois são os profissionais habilitados a assistirem os partos de risco habitual ou baixo risco", explica a enfermeira obstetra e ativista Lorena Andrade. Para ela, essa estratégia colabora para implementação da cultura de respeito à mulher e humanização do parto. "As formações do enfermeiro generalista e obstetra se dão por uma ótica minimamente intervencionista, com objetivos educacionais e de formação de consciência."

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