O setor de hemodinâmica em Juiz de Fora passa por um momento de risco. A cidade conta com dois hospitais credenciados ao SUS para a realização do diagnóstico de problemas cardiológicos e neurológicos, no entanto, há quase um ano, o serviço de hemodinâmica da Santa Casa está fechado, em função de reformas. Como a previsão de reabertura é somente para junho deste ano, os pacientes que precisam passar por exames de cateterismo e arteriografia ou pelo tratamento dessas doenças através da realização, por exemplo, de angioplastia coronária, só contam com o Hospital Doutor João Felício, que também possui credenciamento para a realização do serviço da alta complexidade. Enquanto o atendimento vem sendo realizado em apenas uma unidade, o Hospital Therezinha de Jesus está com seu setor de hemodinâmica pronto há um ano e dois meses, porém parado por falta de autorização para funcionar. Apesar de a unidade ter preferência no credenciamento, por ser filantrópica e 100% destinada ao atendimento do SUS, o Estado argumenta que há "excesso de serviços dessa natureza em Minas". Demanda, porém, não falta, já que Juiz de Fora é referência em saúde para a Macrorregião Sudeste e tem ultrapassado a meta prevista de 27 atendimentos mensais, chegando a 42. Só entre julho e dezembro de 2012, 251 procedimentos de angioplastia foram realizados na cidade que tem as doenças cardiovasculares como a principal causa de morte. O infarto agudo do miocárdio é campeão de casos, matando 814 pessoas de 2009 até os dias atuais. No ano passado, o município registrou um óbito por infarto a cada dois dias.
A questão é ainda mais polêmica pelo fato de o Therezinha de Jesus estar em processo final de credenciamento para realização de cirurgia cardíaca infantil. Quando isso acontecer, o estabelecimento será o segundo centro no estado a realizar o procedimento. Entretanto, não poderá fazer o diagnóstico, o que levará à necessidade de remoção da criança para outro serviço da cidade. "Quando nós tivermos que fazer o exame necessário para operar a criança, vamos ter que colocá-la numa ambulância e levá-la a outro hospital para fazer a hemodinâmica, porque o credenciamento da cirurgia infantil não vem junto com o da nossa hemodinâmica. A normatização do setor é fria e técnica. Ela não prevê, por exemplo, o enguiço da máquina que pode ficar seis meses parada ou simplesmente entrar em manutenção", ressalta o diretor-presidente do hospital, Ricardo Campello.
A assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde informou que o credenciamento de serviços de alta complexidade não é feito pelo órgão estadual, mas pelo Ministério da Saúde. No entanto, através do parecer técnico 133/2012, a Superintendência de Redes de Atenção à Saúde do Estado informou, em 17 de outubro, que, devido ao "excesso de serviços credenciados e em fase de credenciamento em alta complexidade cardiovascular em Minas Gerais" e em função da reestruturação da rede de atendimento de urgências e emergências e dos serviços de alto custo em cardiologia, posicionava-se desfavoravelmente em relação à habilitação do Centro de Referência Cardiovascular no Therezinha de Jesus. O Ministério da Saúde tem outra informação. Segundo a assessoria, o setor de hemodinâmica do Therezinha de Jesus não foi credenciado, porque não possui habilitação em serviços cardiovasculares cujo pedido é feito pelo gestor local. O secretário de Saúde, José Laerte, disse que vai reunir as subsecretarias de regulação e de urgência e emergência, a fim de fazer uma avaliação sobre a necessidade do município. "Como não temos memória anterior sobre os motivos que levaram os gestores locais a não terem pedido a habilitação do Terezinha de Jesus, temos que fazer um levantamento da nossa necessidade para que, se for o caso, possamos pedir o credenciamento do hospital", explicou.
Enquanto a situação está indefinida, o João Felício continua sendo o único hospital da cidade a ter um setor de hemodinâmica funcionando para o atendimento dos pacientes do SUS, embora um defeito técnico no aparelho possa deixar Juiz de Fora sem condições de atender os usuários do sistema único de saúde que apresentem problemas cardíacos, neurológicos e angiológicos. De cada dez procedimentos de revascularização de infartados no Brasil, oito são minimamente invasivos e apenas dois necessitam da cirurgia tradicional, em função do aparelho de hemodinâmica. A diretora administrativa do João Felício, Marli Guedes, disse que, mesmo com a Santa Casa fechada, o movimento no setor está abaixo da capacidade de atendimento do hospital. Ela afirma, ainda, que a principal demanda da unidade vem do SUS.
Saúde diz que não tem havido dificuldades
Apesar do quadro atual, o secretário de Saúde, José Laerte Barbosa, afirma que Juiz de Fora não tem enfrentado dificuldade em acessar vagas no João Felício. Já a Santa Casa admite que precisará de pelo menos mais dois meses para regularizar a situação. De acordo com a assessoria da filantrópica, dois novos aparelhos de hemodinâmica foram adquiridos, o que dobrará a capacidade de atendimento. "Para a instalação dos equipamentos, está sendo construído um prédio, de dois andares, com rigor estrutural, elétrico, hidráulico e de refrigeração. O prazo de conclusão é junho de 2013", explicou a assessoria. Ainda de acordo com o setor de comunicação da filantrópica, o paciente tem recebido o primeiro atendimento na Santa Casa, sendo encaminhado para o João Felício para a realização do procedimento de alta complexidade, quando há necessidade. A assistência, segundo informação da assessoria, tem sido coordenada pelas equipes dos dois hospitais e pela própria Secretaria de Saúde. O hospital ressalta, ainda, que nenhuma reclamação foi encaminhada a Ouvidoria em relação ao fechamento temporário do setor, não havendo "nenhum prejuízo à assistência."
Procurado pela Tribuna, Ricardo Campello, diretor-presidente do Hospital Therezinha de Jesus, diz que o não credenciamento do setor de hemodinâmica da unidade prejudica a população. "O importante é que vidas sejam salvas, e nós temos os recursos para isso. Além disso, temos todos os pré-requisitos para o credenciamento: somos um hospital de ensino, filantrópico e 100% SUS."



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