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18 de Julho de 2014 - 06:00

Passageiras de ônibus atingido por caminhão desgovernado contam os momentos de pânico que viveram

Por NATHÁLIA CARVALHO, SANDRA ZANELLA E MARCOS ARAÚJO

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"Vi gente sendo lançada de um lado para o outro, crianças e idosos literalmente 'voando' sem conseguirem se segurar. Quando paramos, me lembro de um menino olhando pra mim. Achei que o motorista estava morto e que o ônibus ia explodir." O relato de quem estava no acidente da Avenida Itamar Franco, viveu, sofreu e ainda se recupera do susto permite imaginar como foram aqueles momentos de caos no início da tarde de quarta-feira. Moradora do São Pedro, a jornalista Ana Cláudia Ferreira, 26 anos, estava sentada no meio do coletivo da linha 549-Nova Germânia, do lado do trocador, quando o veículo foi atingido pelo caminhão desgovernado. O acidente deixou marcas e, ontem, ainda com muitas dores e à base de remédios, ela contou à Tribuna o que viveu naquela tarde. O caminhão ainda atingiu um Honda Fit, outro veículo de carga e só parou quando chocou-se na parede do Independência Shopping. Ela e outras 37 pessoas ficaram feridas. Três ainda estão internadas.

"Fiz sinal para o (ônibus) 532, mas o motorista não parou e tive que pegar o Nova Germânia. Por sorte, consegui sentar, porque esses ônibus vivem lotados. Mas umas sete pessoas estavam em pé, algumas já preparadas para descer no ponto em frente ao shopping. Aí veio a primeira batida. Não me lembro direito, foi tudo muito rápido, um susto muito grande. O motorista perdeu o controle e começamos a balançar muito, numa sequência de socos, com gente caindo e sendo jogada. Segurei muito forte no banco da frente. As batidas continuaram, e aí veio a última, quando o poste enfiou no ônibus, e achei que íamos capotar. A cena seguinte era terrível, forte, com gente chorando, gritando e se entreolhando sem saber o que tinha acontecido. Aquele momento congelou na minha mente. O cobrador estava em estado de choque. Implorávamos pra abrirem as portas, e finalmente alguém abriu. Fui uma das primeiras a sair e corri para o Hospital Monte Sinai desesperada, gritando que o motorista tinha morrido. Não consegui mais olhar pra trás", relembra, ainda emocionada.

A jornalista diz que, juntamente com outras vítimas, ela permaneceu no hospital durante a tarde, ainda tentando entender o que tinha acontecido. "Quando fui na varanda e vi os estragos, não acreditei, achei que tinha morrido muita gente, desesperei. Depois, saí na avenida e vi o motorista em pé, conversando. Não acreditei que ele estava vivo e comecei a chorar. E ainda soube que foi ele quem abriu as portas. No meio da confusão, perdi uma latinha com meus cartões. Me entregaram ela depois toda suja de sangue." Além do abalo psicológico, Ana Cláudia convive com as dores deixadas pelo acidente. "Bati a cabeça, o joelho e o peito. Estou sentindo muita dor muscular, estou zonza ainda e só consigo ficar deitada. Fico me perguntando por que não existe cinto de segurança nesses ônibus. Se ele tivesse capotado, teríamos morrido."

O trauma que ficou

A auxiliar de serviços gerais Maria da Glória Silvestre, 46, também era uma das passageiras do ônibus 549. Ontem, ainda traumatizada, ela sentia dor no pulso esquerdo, devido a uma pancada. Em sua visão, foi a mão de Deus que, de forma providencial, não deixou que houvesse mortos. Ela contou que embarcou no coletivo no São Pedro. "Pararam três ônibus, e, não sei porque, peguei o Nova Germânia, talvez estivesse mais vazio. Entrei, sentei e fui ouvir orações do padre Reginaldo Manzotti. Era o que estava fazendo na hora. De repente, escutei duas buzinas e não dei conta de nada. Logo em seguida, escutei um grande barulho e vi o teto do ônibus afundando, como se fosse cair sobre os passageiros. Era o poste que caía sobre nós. Só nessa hora me dei conta do que acontecia. Também vi uma pessoa caindo no chão perto da roleta. Pensei: Meu Deus, vou morrer!", relatou, lembrando o pânico dentro do coletivo.

"Fiquei muito desesperada quando vi uma menina chorando muito e sangrando, as pessoas querendo sair. Foi um trauma e hoje (ontem) já chorei mais de duas vezes. Pensei nos meus netos que poderiam estar lá." Segundo Maria da Glória, após o acidente, ela foi conduzida para o Monte Sinai, onde foi medicada com calmantes. "Na hora, estava desesperada, querendo ajudar as pessoas, mas, depois que a ficha caiu, entrei em estado de choque. Dou graças a Deus de estar bem e de poder estar aqui contando essa história."

 

Testemunha

Do lado de fora, a universitária Lais Marques, 22, assistiu a tudo porque descia da UFJF. "Quando atravessei a pista e cheguei no canteiro central, vi o caminhão descendo, buzinando. Dei dois passos para trás e ele desceu, desgovernado, e pegou os outros veículos". Lais relata o desespero das vítimas e das testemunhas. "Os passageiros do ônibus estavam muito desesperados, havia muitas crianças desmaiadas, passando mal. Uma menina ficou com a cabeça presa entre a escada, a porta do ônibus e o poste. A mãe e a avó dela gritavam, achando que a criança ia morrer."

 

Polícia Civil instaura inquérito

A Polícia Civil instaurou inquérito ontem para apurar as causas e responsabilidades do acidente. Das 38 vítimas conduzidas para atendimento médico em hospitais da cidade, três permaneciam internadas na noite de ontem. Um dos casos mais graves é o da adolescente de 16 anos passageira do ônibus. De acordo com a assessoria do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ), a jovem segue na UTI, sedada e com quadro estável. Já o ajudante do caminhão-baú atingido, que inicialmente estava na UTI, foi transferido para a enfermaria do HMTJ. Continua no Monte Sinai a psicóloga, 61, que dirigia o Honda Fit atingido frontalmente pelo veículo desgovernado. Ela havia sofrido fratura na perna, passou por cirurgia e ficou internada no quarto, com quadro estável. A criança, 6, ocupante do coletivo, recebeu alta na noite de ontem. A assessoria de comunicação do Hospital de Pronto Socorro (HPS) informou que todas as nove pessoas atendidas na unidade já foram liberadas.

 

Causas

O inquérito que investiga o caso foi aberto pelo titular da 1ª Delegacia de Polícia Civil, Eurico Cunha Neto. Segundo ele, além de aguardar os laudos periciais, será colhido o depoimento de algumas pessoas envolvidas no acidente, principalmente dos condutores dos veículos. "Vamos ouvir pessoas relacionadas ao fato, como o motorista do ônibus, a mulher que estava no carro", disse. Segundo o delegado, caso o motorista do caminhão desgovernado não esteja no município, ele será ouvido por carta precatória. "O principal são os laudos periciais, para apurarmos as causas." Ainda conforme Eurico, sendo identificadas responsabilidades, os envolvidos poderão responder por prática de lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, conforme o artigo 303 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que prevê: "detenção de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor." O prazo inicial para conclusão do inquérito é de 30 dias, mas o período pode ser prorrogado.

O diretor da empresa Marina, responsável pelo caminhão desgovernado, Carlos Roberto de Souza, disse ontem que aguarda a apuração da polícia para se pronunciar de uma forma mais precisa sobre o assunto.

 

Vestígios

A Avenida Itamar Franco, principal ligação entre a Zona Sul e a Cidade Alta, voltou a fluir normalmente ontem, mas, pela manhã, ainda era possível ver vestígios do acidente, inclusive na parede do Independência Shopping, onde o caminhão parou após derrubar uma palmeira imperial. O veículo foi retirado na madrugada, por volta das 3h, depois de ter sido concluído o transbordo da carga de produtos de limpeza. Com a luz do dia, funcionários varreram o local, ao lado da entrada principal, e recolheram os cacos de vidro de uma mureta quebrada. O jardim também estava danificado, assim como o canteiro central da Itamar, que teve quatro palmeiras arrancadas no momento em que o caminhão acessou a contramão.

 

* colaborou Guilherme Arêas

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