Publicidade

07 de Janeiro de 2014 - 07:00

Problema da falta de médicos afeta toda a rede pública; secretaria diz que tem dificuldade para contratar

Por Kelly Diniz e Flávia Crizanto (colaborou Eduardo Valente)

Compartilhar
 
Dezenas de pessoas esperavam desde 4h
Dezenas de pessoas esperavam desde 4h

O ano de 2014 começou tumultuado para os pacientes do SUS que procuraram o setor de ortopedia. Na madrugada desta segunda-feira (6), por volta das 4h, dezenas de pessoas esperavam por atendimento no PAM-Marechal. Entretanto, todos tiveram que voltar para casa sem resolver o problema, correndo o risco de ter o quadro clínico agravado, já que alguns tentam uma solução desde 27 de dezembro. A unidade está com os atendimentos reduzidos devido à ausência de dois profissionais do quadro. A previsão é que a situação seja regularizada somente em 20 de fevereiro, quando um profissional retorna das férias. O outro se encontra em licença sem vencimento por seis meses. O problema da falta de médicos, principalmente na área de ortopedia, atinge toda a rede pública. Nos últimos meses, a Tribuna verificou ausência da especialidade no Hospital de Pronto Socorro (HPS), nas unidades de pronto atendimento (UPA) Norte e São Pedro e até em hospitais conveniados. O secretário de Saúde, José Laerte Barbosa, explica que não há ortopedistas para serem contratados. "Nos últimos seis meses, foram contratados de seis a dez médicos, e saíram entre cinco e seis (na especialidade). Então, ainda temos a nossa escala em falta."

Na manhã desta segunda, guardas municipais faziam a segurança no PAM-Marechal, já que o desespero e a revolta inflavam os ânimos dos cidadãos que buscavam uma possível resposta para a situação. As reclamações também chegaram à Ouvidoria Municipal de Saúde. Segundo a ouvidora Samantha Borchear, esta segunda foi um dia atípico, com o setor chegando a atender o dobro de pessoas do habitual, sendo 30 casos de reclamações relacionadas às especialidades de ortopedia e traumatologia.

A assessoria da Secretaria de Saúde afirma que não há possibilidade de transferência de outro profissional para o local, pois não há disponibilidade de especialistas. Os atendimentos estão sendo realizados às quartas e sextas-feiras.

O promotor de Justiça de Defesa da Saúde, Rodrigo Ferreira de Barros, enfatiza que, em casos de férias ou licença dos profissionais da saúde, o Município tem a obrigação de garantir a continuidade do serviço, mesmo que por contrato temporário. "Enquanto não forem criadas medidas que valorizem financeiramente o profissional, uma gestão melhor do sistema, melhores condições de trabalho e realização de concursos públicos, dificilmente se terá a resolução dessas questões."

O presidente do Sindicato dos Médicos, Gilson Salomão, concorda com o promotor e alega que o problema é uma questão de gestão e mercado. "A categoria lamenta que os usuários passem por esse calvário. Nós esperamos que haja sensibilidade do Poder Público para a abertura de concurso público, com carreira e salários atrativos. Enquanto não houver isso, a situação só vai piorar." José Laerte conta que estão sendo realizados estudos financeiros no orçamento do Município para aumento na remuneração dos especialistas. "Queremos pagar a média que o mercado está pagando. No ano passado, conseguimos um aumento, mas não foi suficiente para manter os médicos." Atualmente, o vencimento por 20 horas semanais de trabalho para médicos de várias especialidades é de R$ 1.682,24. Para quem trabalha na urgência e emergência, a gratificação pode chegar a R$ 6.113,01 com as realizações de plantões.

 

Emergência

No dia 27 de julho do ano passado, foi publicado o decreto que determinava estado de emergência no município em relação ao atendimento de saúde de urgência e emergência em Juiz de Fora. Válido por 180 dias, o decreto vence no próximo dia 22. Nesta situação, a Administração pode, por exemplo, fazer contratações diretas de médicos, comprar medicamentos e insumos sem licitação e realizar remanejamento de servidores públicos para atender demandas da Secretaria de Saúde. No entanto, José Laerte alega que o decreto não resolveu o problema da falta de especialistas.

 

 

'Não aguentamos mais previsões e promessas'

A constante falta de médicos nas unidades públicas de Juiz de Fora tem causado desconforto e riscos aos pacientes que buscam socorro e não são atendidos. Na manhã desta segunda, no PAM-Marechal, o marido de uma idosa pedia ajuda. Com a clavícula fraturada, ela não conseguia conversar por causa da dor. Do outro lado, outro homem falava com a reportagem. "Queremos médico hoje, sobe lá em cima e pede para a administração dar um jeito. Traz uma resposta para gente. Não aguentamos mais previsões e promessas." Diabético, Isaías de Paula, 61, perdia as esperanças. "Acho que não vai ter jeito, estou com sete pinos neste braço, a ferida está vazando e dando mau cheiro. Estou com medo."

A espera pelo atendimento pode ser tempo demais para Josias Alves Ferreira, 65 anos. O idoso teve a perna amputada há 15 dias por causa de problemas de circulação. Se sentindo mal, ele esperava na porta do setor. Com a ajuda de um amigo, tentava encontrar uma possibilidade de atendimento. "Saí de casa cedo, gastei com táxi para chegar aqui. Agora estou dando o dinheiro do ônibus para meu colega ir até o HPS e tentar me auxiliar. É humilhação demais."

Na sexta-feira, um funcionário público levou sua filha de 16 anos ao HPS para examinar uma torção que dificultava a adolescente a andar. A informação recebida foi a de que não havia traumatologista e que a paciente deveria procurar a UPA Norte. De acordo com ele, a atendente informou que não há o serviço nos finais de semana há mais de seis meses. "Gastamos dinheiro para vir ao HPS para receber a notícia de que não tem médico. Agora vou ter que gastar ainda mais para ir à UPA Norte. Sem contar que a maioria dos pacientes que utiliza o serviço aqui não tem dinheiro e precisa utilizar o transporte público mesmo com o pé quebrado." Segundo ele, no momento em que estava na unidade, outros dois pacientes chegaram carregados e obtiveram a mesma resposta.

A professora Elídia Maria Brugiolo acompanhou o drama do pai, Sebastião Brugiolo, 90 anos, que ficou internado no HPS por cinco dias com fraturas no fêmur e na clavícula. Segundo Elídia, nesse período, ele não foi avaliado por nenhum médico, recebendo apenas medicamento para dor. No dia 16 de dezembro, ele foi transferido para o Hospital Maternidade Therezinha de Jesus, onde passou por cirurgia.

Com a implantação da Rede de Urgência e Emergência da Macrorregião Sudeste, prevista para fevereiro, o secretário de Saúde, José Laerte, acredita que os problemas nos atendimentos da cidade serão minimizados, e o HPS será desafogado. "Essa grande demanda que chega para o HPS vai parar. O HPS atenderá somente fraturas simples e pacientes que não precisem operar imediatamente."

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que o Rio vai conseguir controlar a violência até a Copa do Mundo?