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25 de Dezembro de 2013 - 07:00

Dificuldade de manutenção do piso acaba agravando riscos de tombos dos pedestres

Por Renata Brum

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A falta de cuidados está presente nos passeios de pedras
A falta de cuidados está presente nos passeios de pedras

Elas estão por toda a parte, nas principais áreas públicas e tornaram-se característica marcante da cidade. Mas apesar da arte reproduzida nos mosaicos de pedras portuguesas - geralmente de calcita branca e basalto negro -, os riscos do revestimento são cada vez mais questionados por especialistas e pedestres devido ao prejuízo à mobilidade, sobretudo, para os cadeirantes ou pessoas com outra dificuldade de locomoção. Elas são causadoras de um número elevado de tombos e torções, destroem os sapatos, principalmente femininos, e, quando se soltam, podem se transformar em armas quando arremessadas por vândalos. Em Juiz de Fora, a instalação do revestimento em áreas íngremes e a falta de manutenção aumentam o perigo. A Tribuna circulou pela área central e constatou que, além da falta de cuidados com os passeios de pedras, tanto em áreas públicas quanto em calçadas de edifícios residenciais e comerciais, obras recentes de empresa de telefonia também trouxeram transtornos e potencializaram os riscos de quedas, já que parte das pedras precisou ser retirada para passagem de nova rede de fiação. No Calçadão e no Parque Halfeld, elas foram recolocadas, mas ainda há elevações e desníveis em alguns pontos.

"Fico com medo de caminhar pelo Centro, pois as calçadas estão abandonadas, e há muitos buracos. Como já estou de idade, perco o equilíbrio facilmente, por isso uso bengala, mesmo assim é perigoso. Uma irmã fraturou a bacia após tropeçar no Calçadão", contou a aposentada Maria Luísa Mota, 84 anos. "As pedras podem formar belos mosaicos, mas são perigosas, pois são escorregadias. Ainda mais no estado em que se encontram. É reduzir muito os problemas se falarmos dos tropeços. Imagina a situação para um deficiente? É preciso mais cuidado com manutenção", apontou o técnico em processamento de dados Jadir Ferreira, 58. "Esse tipo de piso escorrega muito, principalmente quando chove. Subi o calçadão bem devagar porque, além de escorregar, elas formam poças enormes", reclamou a dona de casa Maria José Domingues, 52. "Também acontece de os saltos ficarem presos entre as pedras e, como algumas se soltam, é comum tropeçar. Trabalhamos na Creche Central (alto da Rua Halfeld), e muitas mães já caíram com as crianças por conta das pedras", contou a auxiliar de serviços gerais Rosane Fátima, 36, falando do passeio na Halfeld, próximo à Igreja São Sebastião.

A calçada deveria ser um lugar seguro e agradável para se andar, mas o que se vê é o contrário, comenta o arquiteto, historiador e presidente de patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) seção Juiz de Fora, Marcos Olender. "As pedras não são adequadas para o calçamento da cidade. São muito escorregadias e não oferecem segurança. O que se observa é que falta capacitação para o assentamento e manutenção deste tipo de piso. O cimento colocado entre elas sempre se solta, sobretudo onde muitas pessoas passam. As pedras saem, e aparecem os buracos."

Tradição desprezada

A pedra portuguesa foi empregada pela primeira vez em Lisboa no ano de 1842, em aplicação tipo zigue-zague. No Brasil, foi no século XX que as rochas de calcita e basalto negro foram utilizadas, e a partir daí difundidas em vários estados, sobretudo no Rio de Janeiro, e Juiz de Fora acabou adotando a técnica nos anos 1970. Há quem seja contrário à retirada das pedras. O arquiteto paisagista José Tabacow, autor do artigo "Pedra Portuguesa: ascensão e queda de uma tradição", na revista digital de arquitetura Vitruvius, critica o processo de substituição do revestimento. "A arte está sendo cada vez mais desprezada e, embora tradicional e forte identificadora de cidades importantes, vem merecendo desprezo em detrimento de pisos industriais, notadamente os de cimento do tipo pave (blocretes - blocos de concreto intertravados) e assemelhados. A técnica da pedra portuguesa encontra hoje resistências e repúdio por parte das prefeituras, que se preocupam com a manutenção e com possíveis desconfortos."

 

Previsão de troca gradativa de revestimento

Em cidades como o Rio de Janeiro, há projetos para a proibição do uso das pedras portuguesas. A proposta, apresentada no site Rio+, é de substituição gradativa por placas de concreto ou piso cimentado, com exceções para calçadões tradicionais, como o da Praia de Copacabana. Em Juiz de Fora, a Prefeitura também iniciou a retirada de pedras de passeios da Rua Santo Antônio e de praças revitalizadas. Mas o projeto de mobilidade das calçadas não avançou. Nenhuma outra via recebeu novos passeios. Segundo a Settra, as calçadas estão previstas no "Plano de mobilidade" do município, mas ainda não há data para as mudanças.

Enquanto isso entidades estão realizando a troca das pedras por calçadas que garantam maior acessibilidade. Foi o caso da Receita Federal, no Manoel Honório, que retirou todas as pedras do passeio em frente ao órgão. Segundo o vigilante, Aislan Matos, os buracos que se formavam após algumas pedras se soltarem serviam de armadilhas para pedestres. "Havia muito tombos e reclamações. Na entrada do estacionamento, os carros passavam e jogavam as pedras para o alto, quase atingindo quem passava."

Subsecretário de operação urbana da Secretaria de Obras, José Walter Ávila explica que a tendência é de troca das pedras, mas ressalta que a modificação em todos os locais é inviável. "Trocar tudo seria impossível agora, pela grande extensão de áreas com pedras portuguesas, mas a Prefeitura já está raciocinando nesse sentido visando à mobilidade. Após obras de revitalização, as praças e áreas públicas estão recebendo pisos cimentados, intercalado com grama e blocrete intertravado", explicou Ávila, lembrando que as praças do Jardim Glória e do Quintas da Avenida são alguns exemplos.

O arquiteto Marcos Olender defende a implantação de ladrilhos hidráulicos próprios para áreas externas. "Seria uma forma de aliar mais segurança à história da cidade. O único ponto para o qual defendo a permanência das pedras é no Calçadão, que foi inspirado no Calçadão de Curitiba e concebido para ser feito com pedras."

Parque Halfeld

Segundo Ávila, em alguns locais, como no Parque Halfeld, a previsão é de que as pedras sejam mantidas. "A Prefeitura vai licitar, no ano que vem, o serviço para refazer o calçamento do Parque Halfeld por conta dos buracos e das deformidades, algumas provocadas pelo levantamento das raízes das árvores. As pedras serão retiradas, será realizada nova compactação de terra, e elas retornarão."

A reutilização é um ponto positivo, na visão de Ávila. No entanto, "uma desvantagem é que elas não suportam peso, e o que acontece é que, comumente, caminhões passam ou param sobre as pedras, quebrando algumas, o que leva à soltura de outras. Além disso, a manutenção é mais cara, assim como o calçamento de poliedro (pé de moleque), que é mais oneroso que o asfalto. Mas há prós e contras em todos os pisos. O cerâmico, como é o caso do Calçadão da São João, da Praça do Manoel Honório e do acesso ao prédio da Câmara Municipal, tem outro problema: a reposição. Os pisos saíram de linha ou as fábricas fecharam, e os reparos são feitos com cimento apenas, e esteticamente não fica perfeito."

O subsecretário destacou que, para a manutenção das pedras em áreas públicas, a Secretaria de Obras conta com uma equipe especializada. "Um deles trabalha com isso há mais de 30 anos. Temos sempre que ir treinando alguém, mas também não tem grande mistério." Já em calçadas de imóveis particulares, a fiscalização da Secretaria de Atividades Urbanas (SAU) garante que notifica os proprietários para realizarem o conserto dentro do prazo que varia de dez a 30 dias. Caso a obra não seja feita no período estipulado, o morador é autuado.

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