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03 de Dezembro de 2013 - 07:00

Patologização da infância encontra eco nos colégios, que não sabem como lidar com comportamentos fora da regra

Por Daniela Arbex

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A patologização da infância por meio de diagnósticos de transtornos mentais tem encontrado eco dentro das escolas. Há colégios sugerindo, inclusive, endereço de clínicas especializadas onde os pais devem levar os filhos que não se encaixam no perfil do aluno ideal ou que se mostram menos adaptados às regras da instituição de ensino. O assunto, que já foi alvo de matéria publicada no domingo, divide a sociedade que, em parte, se movimenta, por meio de fóruns, contra a medicalização indiscriminada de crianças e adolescentes. À frente das discussões está o fato de que o fracasso escolar deixou de ser um problema da qualidade de ensino para ser atribuído, em muitos casos, ao próprio estudante e a doenças como o déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Em entrevista à Tribuna, o pai de uma criança de 11 anos, que há sete é medicada com cloridrato de metilfenidato para tratar de TDAH, relata que "os professores ficavam incomodados" com o comportamento do menino, considerado diferente de outras crianças "quietinhas". Por meio das redes sociais, a mãe de outro aluno conta que ele foi diagnosticado por um neurologista com o transtorno e que chegou a fazer uso de tratamento medicamentoso, mas acabou revendo isso. "Percebo que os professores não têm paciência para lidar com o diferente, com aquele que dá mais trabalho. No caso do meu filho, muitas questões eram e ainda são emocionais. Apesar de serem um desafio, não é a Ritalina (nome comercial do metilfenidato) que irá resolver", declara.

A psicóloga e supervisora de atenção a educação na diversidade da Secretaria de Educação de Juiz de Fora, Margareth Moreira, afirma que as crianças de hoje têm sido assimiladas nas suas diferenças na perspectiva da patologização da infância. "A Secretaria de Educação tem tentado fazer um movimento contrário a isso. Por isso, investimos muito na questão da educação infantil, em um novo currículo. Além disso, há dez anos trabalhamos com os laboratórios de aprendizagem, para que, antes de qualquer encaminhamento no tocante à dificuldade de aprendizagem, se busque formas de resolver os problemas na própria escola. Os núcleos especializados de atendimento à criança escolar nasceram numa perspectiva como essa ainda em 2004. A rede vem trabalhando com a formação de seus professores, procurando reorganizar esse tempo e esse espaço escolar no entendimento do tempo da criança e buscar o enfrentamento dessas questões na escola. Não estou negando que existam casos de TDAH. Há crianças que vão precisar da medicação, sim, mas não é desta forma. Numa sociedade de vínculos empobrecidos, a relação com o medicamento substitui vínculos. Nós temos muito por fazer, pois uma escola que se abre para todos precisa se ressignificar para atender com qualidade social todas as crianças. Acredito que a rede municipal de Juiz de Fora tem perseguido isso a partir da formação dos professores, da continuidade desse processo de formação, de pensar na escola em seus múltiplos aspectos, qualidade e investimento da valorização profissional. Somos uma rede que se abriu para a questão da educação inclusiva."

Anna Gilda Dianin, diretora administrativa do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe Sudeste), disse que a questão nunca foi discutida pelo sindicato, mas que, a partir da publicação da reportagem na Tribuna, o tema será debatido na próxima reunião, marcada para o dia 16. "Na sociedade moderna, a criança não tem mais espaço para se expressar e, muitas vezes, não consegue identificar a qual adulto ela deve se reportar, quem é a autoridade familiar. A escola só está dentro do eixo do problema, mas ela não é a ocasionadora dele. Por ser uma questão bem complexa, ela merece ser discutida sob a ótica dessa complexidade", analisa.

 

Discussão deslocada

Na opinião do presidente do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo, Rogério Giannini, a discussão de fracasso escolar foi deslocada do seu eixo principal. "O TDAH e o remédio acabaram sendo recebidos pela comunidade escolar como uma salvação, já que o problema do fracasso escolar passou a ser da doença da criança. Assim, a gente não entra na discussão de que escolas queremos. Isso acabou virando uma chave de interpretação para a gente pensar outros aspectos da vida social em que as questões sociais e culturais se transformam em questões individuais e biológicas. O comportamento passa a ser sintoma, e os sintomas agrupados passam a ser doenças. É uma imprecisão violenta."

Para o juiz de Caxias do Sul (RS) Leoberto Brancher, referência no país em justiça restaurativa, a maior parte dos casos de infrequência escolar que chega ao sistema Judiciário por meio de ficha de comunicação já passou ou está inserida na ótica da medicalização. "Isso já está incorporado nas dinâmicas institucionais."

 

 

'Quero que ele viva sem isso'/ Entrevista com pai de criança que usa cloridrato de metilfenidato

Aos 6 anos de idade, L. começou a ser medicado, em função de crises de epilepsia. Na época, mais de quatro décadas atrás, ele foi taxado de agitado e tratado com Gardenal e fenotropil até os 18 anos. Hoje, aos 52, ele é pai de I. um menino de 11, que também é medicado desde os 4 anos com Ritalina (cloridrato de metilfenidato), época em que a criança foi diagnosticada com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Nesta entrevista reveladora, o pai, que é comerciante, demonstra não ter certeza se a adoção do remédio é o melhor caminho, mas admite que o medo de o filho ser rejeitado na escola por não conseguir acompanhar as aulas o incentivou a tratá-lo. "Não dou remédio para ficar livre dele, só para que frequente a escola." Atualmente, I. está fora do país com a mãe

 

Tribuna - O que o levou a medicar seu filho com o cloridrato de metilfenidato?

L. - Desde pequeno, ele era agitado. Não parava quieto, tinha que ir atrás dele para comer, só prestava atenção no que queria. Como sou hiperativo, o levei ao médico. Lá recebi um questionário com dez perguntas. O médico detectou, por meio desse questionário, que ele também era hiperativo.

 

- O médico chegou a ouvir o seu filho?

- Sim. Tanto é que ele entrou no consultório e começou a mexer nas coisas. Naquela consulta, o médico disse: nós vamos entrar com medicação. No começo, eu fui reticente, porque eu tomei medicação até os 18 anos e sei qual é a barra de tomar remédio.

 

- Com quantos anos seu filho começou a ser medicado?

- Cedo, a partir dos 4 anos. Já em casa, começamos a observá-lo. Na escola, o colégio particular nos chamou atenção sobre isso.

 

- E como foi quando ele entrou no colégio?

- A agitação continuava. A gente dava Ritalina, mas não adiantava. Aí aumentou-se a dose para ele aguentar a tarde na escola. Depois que ele fazia a tarefa em sala de aula, ia perturbar outra criança ou então ficava viajando. Quando esqueciam de dar Ritalina para ele, não fazia as tarefas. Na infância dele, a gente ficou muito por conta de medicamento para que ele concentrasse e não ficasse excluído.

 

- Você demonstra grande preocupação de o seu filho incomodar os outros. Por que? Teme que ele sofra rejeição?

- Porque os professores não gostavam. A criança entrava no colégio, assistia a aula, fazia a tarefa e depois ia para o recreio. Ele não respeitava isso, em função da hiperatividade.

 

- Era um menino desobediente?

- Não, nunca foi e nem tirou nota baixa, mas só que não parava, e os professores ficavam incomodados com aquilo, porque as outras crianças eram quietinhas. Hoje ele estuda fora, gosta de computador e jogos eletrônicos.

 

- Passou pela sua cabeça a ideia de que a agitação dele pudesse ser apenas uma característica de criança?

- Não. Um dia meu pai disse: está vendo seu filho? Ele é pior do que você, e eu sou hiperativo. A nossa preocupação é com a fase adulta, por isso cuidamos dele e tentamos direcioná-lo. Se você guiar o seu filho para o lado bom, mesmo sendo hiperativo, é mais fácil de ele ter sucesso na vida com trabalho e com o estudo do que descambar para um caminho marginal, porque foi influenciado por vagabundo.

 

- Como vê o diagnóstico de TDAH?

- No começo, tive medo de dar remédio ao I. Mas, depois, fui vendo que o remédio o acalmava. Um dia, me ligaram da escola: ele não havia tomado a medicação. Fui lá, o mediquei e, algum tempo depois, a professora telefonou dizendo que ele tinha mudado da água para o vinho. A química do medicamento segura a criança de um jeito que ela fica bobinha, praticamente dopada. É tomar, e ele ficar xarope, baixar a bola. O medicamento pega muito pesado nisso. Ele desmontava. Depois aquelas quatro horas do colégio passavam, e o efeito do remédio acabava, e ele começava a ficar normal.

 

- E isso também não te incomoda?

- Sim, não quero meu filho deste jeito. Tanto é que, quando está comigo, não toma Ritalina. Sem o remédio, eu tive que aguentar algumas crises dele, mas depois passa.

 

- Você tem dúvida em relação ao diagnóstico do seu filho?

- Gostaria que houvesse um diagnóstico baseado em exames físicos. Mas a medicação está ajudando meu filho a ficar concentrado, continuar tirando notas boas. Não quero que ele seja um estorvo e que seja excluído.

 

- Qual I. você prefere, o que usa Ritalina ou o outro, sem medicamento?

- Prefiro o de sempre, porque o dopado é muito ruim, eu o vejo doente. Prefiro ele agitado. O dopado é só para fazer as tarefas. Espero que isso dure pouco tempo e que não entre na adolescência dele e nem na fase adulta. Quero que ele viva sem isso.

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