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08 de Dezembro de 2013 - 07:00

Sondagens nas redes sociais vêm sendo feitas na tentativa de identificar integrantes de gangues e reais suspeitos de crimes nas ruas

Por MICHELE MEIRELES

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As provocações de grupos de jovens no mundo virtual, por meio das redes sociais, têm se transformado em confrontos frequentes no mundo real. E, como num ciclo sem fim, se um conflito ocorre em uma área pública, rapidamente os grupos se organizam novamente pelo Facebook, acelerando as revanches, que têm se tornado mais graves, com perdas de vidas precoces. A exposição destes jovens na internet, muitos deles ostentando armas e confessando crimes, não é novidade, mas torna-se mais visível com a ampliação do acesso à internet. A preocupação com o aumento dos grupos que incitam a violência na internet levou a Polícia Militar a incrementar o monitoramento nas redes há cerca de seis meses. De acordo com levantamento da PM, 600 grupos vulneráveis à prática criminal foram identificados, sendo que cem seriam fan pages de gangues rivais. São pelo menos 1.100 perfis monitorados, sendo 80% ligados a possíveis gangues e drogas. As sondagens apontam, ainda, a suspeita de envolvimento destes jovens com casos de homicídios. A Polícia Civil também afirma que as redes sociais são usadas em quase 100% das investigações ligadas a assassinatos e brigas de gangues e que, por meio da internet, a instituição tem conseguido chegar até a prisões e apreensões. Tanto a PM quanto a Polícia Civil confirmam que crimes planejados virtualmente ocorrem de fato nas ruas.

Durante dois meses, a Tribuna acompanhou as postagens de cerca de 30 jovens que, ao invés do sobrenome, incorporam o nome dos grupos aos seus e passam a formar uma "família". São adolescentes que estampam em suas páginas o ódio a outros jovens só por morarem em bairros diferentes. Além dos conflitos já conhecidos entre moradores de bairros vizinhos, jovens de regiões distantes, como São Judas, na Zona Norte, São Benedito, na Zona Leste, e Ipiranga, na Zona Sul, se unem 'contra' outros bairros, que também fazem o mesmo. Desta forma, as rixas ficam pulverizadas por toda a cidade (ver quadro).

Pelo levantamento, o jornal encontrou indícios de que 14 confrontos ocorridos nas ruas nos últimos meses tiveram repercussão no Facebook e promessa de revanches. As ameaças de vingança se acirram ainda mais durante os finais de semana. Os jovens prometem ir para o Centro se encontrar com os oponentes para embates. Na noite da última sexta-feira, um dos garotos de Santa Cruz, prometeu que haveria rixa neste fim de semana. Segundo afirmação dele, adolescentes de Santa Luzia estariam cercando ônibus do São Judas Tadeu na Avenida Getúlio Vargas. "'haam inttt '' luzia ta gostando de cercar onibus de são judas ' na getulio ' amanhã noiis vaii partir de bonde vamos ver quem e quem '" (sic).

Em cada embate que ganha as ruas, a vontade de vingar os colegas vem à tona por meio de novas postagens. Um dos garotos escreveu que "si quise acabr com o bonde vai ter q mata todo mundôh (sic)"(ver quadro). Alguns adolescentes se apresentam no perfil da rede social como "traficante", "bandido" e dizem trabalhar na "empresa malandragem", afirmando que frequentam a "faculdade do crime". Não têm medo de se mostrar como se estivessem na criminalidade, ao contrário, desejam é deixar indícios de que participaram de crimes. Aqueles que estão nestes grupos sabem do risco que correm, e, mesmo assim, dizem não se importar. Um dos garotos do São Judas Tadeus, do "Bonde dos Beckham", escreveu em sua página, em 24 de outubro, que "essa vida é difícil mas a gente tem que conpriender, hoje nois mata amanhã nois pode morrer"(sic). Outro garoto, que diz integrar o Bonde dos Malvadinhos, do Santo Antônio, admite a banalização da vida: "Por causa de um boné, por causa de descussão. Hoje em dia os menor tão matando até irmão"(sic).

 

Exibição na rede mostra disposição para crimes

O promotor da Vara da Infância e Juventude, Alex Fernandes Santiago, se diz "impressionado" com a atuação das gangues na cidade. "Juiz de Fora tem um perfil violento, e o que chama a atenção é esta violência gratuita que estes garotos promovem: brigam apenas por serem de bairros rivais, é absurdo." Na avaliação dele, a exibição nas redes sociais demonstra a disposição em cometer crimes e atos infracionais. Segundo o promotor, diversos procedimentos encaminhados ao Ministério Público vêm com postagens feitas na internet. "Só esta incitação da violência já é um ato infracional, e eles podem responder por isto. Nas redes sociais, marcam conflitos, afrontam. Muitas coisas começam ali."

Para ele, "a participação destes jovens em atos infracionais é a forma que eles têm de se destacar no meio que vivem. É a chance que têm de comprar roupas de marca, de serem admirados pelas garotas. O problema é que, quando estes meninos chegam aqui, todos os mecanismos sociais já falharam. É como se chegasse ao CTI de um hospital. O que tenho feito é pedir representação destes meninos também por formação de quadrilha."

Segundo ele, um dos indícios de que a violência entre os jovens é preocupante na cidade é de que 80% dos acautelados no Centro Socieducativo, planejado para receber adolescentes de toda a região, são de Juiz de Fora. "Esta é uma prova da proporção da violência na cidade", finaliza.

 

'É uma violência estúpida e sem sentido'

Na avaliação do assessor organizacional da 4ª Região da Polícia Militar (RPM), major Jeferson Ulisses Pires, o embate entre as gangues no início do ano, que, segundo ele, começou na rede social, foi o grande responsável pelo aumento no número de homicídios. "Com a prisão e apreensão de alguns cabeças destes grupos, os ânimos se acalmaram. Porém, as provocações continuam. Mas acredito que os embates recentes só chegam a acontecer quando há motivo a mais para brigarem."

Segundo estimativa da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil, 45% dos crimes violentos registrados na cidade neste ano estão relacionados à rivalidade entre grupos. O delegado Rogério Woyame disse que não é possível determinar o que leva estes jovens a se enfrentarem. "Temos casos em que moradores de ruas diferentes são rivais. É uma violência estúpida e sem sentido, que já está colocando inocentes na mira. O que temos feito para frear isto é, no caso de crimes contra vida, pedir a prisão e o acautelamento não só de quem comentou o ato, mas de todo o grupo."

Mesmo com o monitoramento policial das redes sociais e com a prisão ou apreensão de antigos integrantes dos bondes, os garotos parecem não se intimidar e muitos afirmam que "a cadeia é longa, mas não eterna". A Tribuna encontrou na rede social perfis indicando novas formações de dois bondes dados como extintos pelas polícias: o Scooby, do Bairro Santa Cruz, e os Malvadinhos, do Santo Antônio. Segundo as polícias, os dois grupos foram responsáveis por mortes, tentativas de homicídios, depredações de ônibus e roubos em vários pontos da cidade. Entre os casos mais graves atribuídos a estes grupos estão a morte do radialista Joelson Jaime, em abril do ano passado, que teria sido praticada por integrantes dos Malvadinhos, e homicídios ocorridos nos últimos anos na Zona Norte, pelo "Bonde do Scooby."

 

'Status'

Para o assessor organizacional da 4ª RPM, major Jeferson Ulisses Pires, a glamourização do crime também contribui para a situação. "Acredito que há novas formações, sim. É natural haver esta mudança dos grupos: os cabeças saem, como nos casos dos Malvadinhos e do Scooby, porque eles estão presos. E, assim, entram novos membros. Estar em um bonde, para eles, é questão de status. Este status também está ligado às meninas, que acabam valorizando isto."

Em consequência das prisões de alguns integrantes, é comum ver postagens nas páginas no Facebook com as iniciais "P.J.L", fazendo referência a paz, justiça e liberdade, que são solicitações para os "irmãos" presos. Alguns prometem dar continuidade ao que eles faziam antes de serem presos.

A delegada regional da Polícia Civil, Sheila Oliveira, acredita que estas afirmações comprovam uma inversão de valores. "Prender pode ser uma forma de mostrar para estes jovens que aquilo que repetem não é certo. Mas, na maioria das vezes, causa revolta entre eles. Na mente deles, formada neste meio, cometer crimes não é errado."

O professor da Faculdade de Comunicação da UFJF Wedencley Alves, que coordena pesquisas ligadas a comunicação, saúde e violência, destaca que este tipo de comportamento é a forma que estes jovens encontram para deixarem de ser invisíveis socialmente."Ser temido é uma forma de ter poder. A identificação com aquele que pratica o ilícito acaba acontecendo."

A juíza da Vara da Infância e Juventude, Maria Cecília Gollner Stephan, ponderou que não acredita que haja sensação de impunidade entre os adolescentes. "Quando não tem respeito, carinho e afeto em casa, eles se juntam a estes grupos. Se juntam para melhorar a autoestima, fazer sucesso com as meninas, que são quem incentivam estes atos. Eles ficam assustadíssimos com a possibilidade de serem acautelados. Estas afirmações são só para contar vantagem."

 

Jovens buscam marcar território

Além das ameaças, os jovens tentam demonstrar poder por meio da demarcação de territórios. Diversos adolescentes de Santa Cruz, na Zona Norte, postaram recentemente, em suas páginas, uma foto na qual o bairro aparece mapeado pelas gangues e com os dizeres: "Quero ver quem tenta com a Cruiiz." São dez grupos, cada um deles aparece em uma parte do bairro, como se dominassem o local. Os jovens de São Judas Tadeu, São Benedito, Jardim Casablanca e Santa Luzia têm a mesma atitude. Os últimos publicaram uma foto em que sugerem que dominam toda a cidade.

Eles também são enfáticos ao afirmar que é proibida a entrada dos inimigos em seus bairros. Alguns postam fotos com armas e munições e fazem ameaças explícitas. No último dia 23, um dos garotos que diz ser integrante do bonde dos "Beckham" escreveu: "Pra entrar em São Judas tem q tá ligado pra n pizar em lugar errado. Em terra de são Judas santa cruz n entra" (sic). O mesmo jovem já havia publicado em sua página no Facebook uma foto na qual aparece com um revólver.

Um rapaz do Bairro Santa Luzia, Zona Sul, do Bonde dos "Lindovick", que tem rixa com moradores do Ipiranga, e, consequentemente com São Judas, também posta foto de três armas e escreve: "Deixa eles vim, tá tudo palmiado (dominado), é calibre avançado. tá sempre pegando fogo (sic)."

Para o especialista Wedencley Alves, "a pior coisa que um Estado pode fazer por uma sociedade é excluir certas pessoas e dizer que não têm nada a perder. Alguns grupos sociais de resigam, outros se revoltam. Isto é sintoma de uma sociedade que valoriza pouco a vida."

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