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02 de Setembro de 2012 - 07:00

Apesar de projeto ter sido iniciado em julho, muitos não têm conhecimento do serviço e continuam sem separar material

Por KELLY SCORALICK

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Material é encaminhado para usina em Nova Benfica
Material é encaminhado para usina em Nova Benfica

 A falta de informação sobre o novo projeto que envolve a coleta seletiva de lixo em Juiz de Fora é um dos entraves para que a população separe os resíduos em suas residências. O programa piloto está funcionando há mais de um mês, mas ainda é desconhecido por moradores das ruas que estão incluídas nestes trajetos. A Tribuna acompanhou uma das rotas do caminhão e ouviu pessoas de vários bairros dos dois trajetos da coleta de porta em porta para verificar o funcionamento.

 Na região Sul, moradores do Bom Pastor mostram desconfiança. "Antes desse projeto, era público que não existia nem horário nem rota definida. Mas agora continuo observando a mesma coisa. Pretendia desenvolver um trabalho com minha filha de 12 anos, para separação do lixo. Por conta desses problemas, não tenho mais separado o lixo", desabafa um morador, que prefere não se identificar. A funcionária pública Ana Paula de Araújo, também residente no bairro, conta que se preocupa com a destinação correta do material reciclável, mas diz que só irá retomar o cuidado quando perceber compromisso do Poder Público com o programa. "Sempre separei meu lixo. Como o caminhão não passava, tinha que voltar com ele para casa e dar destino junto com a coleta comum. Para mim, é dolorido, porque tenho consciência ambiental, e a coleta seletiva é o melhor a ser feito. Mas a Prefeitura tem que ter assiduidade." Ana Paula afirma não ter visto campanha, como distribuição de panfletos, informando a volta do projeto no bairro e ainda reclama da frequência. "Da outra vez, o caminhão passava duas vezes por semana. Agora será somente uma. A distância entre uma coleta e outra é grande." 

 Na Zona Norte, a população do Fontesville afirma não ter conhecimento sobre o retorno do recolhimento de recicláveis pelo Demlurb. "Se esse caminhão está passando, nunca foi visto. Estou com seis vidros de azeitonas que poderia encaminhar ao lixo reciclável. Como não há coleta, coloco junto com os demais materiais", fala o morador Laerte Barros. Situação semelhante vive a aposentada Célia Gomes, que mora em Santa Terezinha, Zona Nordeste. Ela continua a separar caixas de leite, garrafas PET, latas, potes plásticos, papéis velhos. Mas a destinação final é sempre no dia em que passa a coleta comum. "Acho que temos que ter a consciência de separar o lixo mesmo. Minha esperança é que um catador de papel pegue esses materiais antes da passagem do lixeiro, porque não vejo esse caminhão da coleta seletiva, nem mesmo propaganda informando."

 Para o coordenador do curso de especialização em gestão ambiental de resíduos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas, Hiram Sartori, deixar de reduzir o impacto ambiental é hoje uma ideia inquestionável. "A reciclagem é o esforço de colocar materiais de volta ao ciclo produtivo. Entretanto, ela só pode ocorrer se houver coleta seletiva. E esta só acontece se houver segregação na fonte, na casa das pessoas." Hiram argumenta, entretanto, que não basta convencer a população da importância da reciclagem se não houver uma estrutura do município para receber esses materiais.

   

Impacto ambiental

 Independentemente de projetos públicos, algumas pessoas mantêm os esforços individuais. É o caso da artesã Vera Andrade, que faz o que pode para destinar corretamente os resíduos (ver quadro). Há pelo menos três anos, ela separa vidros de maionese, latas de molho de tomate, caixinhas de leite, garrafas PET, papéis, jornais velhos, potes de iogurte e tudo o que pode ser reaproveitado. O lixo reciclável chega a ser maior que o comum. "Não coloco nada sujo. Sempre lavo antes. Procuro fazer a minha parte. Contribuímos, assim, para o desenvolvimento das pessoas e do planeta." No condomínio onde mora, na região do São Pedro, Cidade Alta, a coleta é realizada às sextas-feiras em uma caminhonete. A moradora conta que antes o recolhimento ocorria duas vezes por semana. Depois, o local ficou desassistido, até a retomada há mais de um mês. "Coloquei um cartaz na portaria avisando aos moradores. "Hoje quem não faz a separação é por preguiça. Antigamente, era por desconhecimento."

 

Parceria realizada com os catadores

 A retomada da coleta seletiva, após dois meses sem o serviço, se deu a partir de 23 de julho. O trabalho é uma parceria com a Associação Municipal dos Catadores de Materiais Recicláveis e Reaproveitáveis de Juiz de Fora (Ascajuf) e o Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR). O projeto-piloto, segundo o trajeto repassado pelo Demlurb, atendia 54 bairros, além da região central, a partir das 8h. São duas rotas realizadas diariamente, cada uma acompanhada de um caminhão, em regiões distintas. O serviço é feito uma vez por semana, em dia em que não há coleta do lixo normal. Todo material recolhido está sendo encaminhado ao Centro de Triagem da Ascajuf, na Usina de Reciclagem, em Nova Benfica, na Zona Norte.

 A Tribuna acompanhou a rota que começa pela Ladeira Alexandre Leonel, seguindo pelo Bairro São Mateus. Na Rua 21 de Abril, após quase três horas de trabalho, o veículo estava carregado de materiais recicláveis, principalmente papelão. "Estamos enchendo o caminhão todos os dias, mas ainda precisa de mais divulgação. A população ainda não sabe os dias que a coleta seletiva passa", afirmou o responsável pela rotarização Everton Marques.

Dona de um comércio na Rua 21 de Abril, Cynira Menezes confirma desconhecer a novidade. "É a primeira vez que estou vendo a coleta aqui. O lixeiro não gosta de pegar o papelão, e vamos deixando aqui na porta, sem destino. Catador também não vem aqui, vai no lixo normal mesmo. Se continuar a coleta, vai ser bom."

 Usina

 Enquanto boa parte dos juiz-foranos reclama do serviço, na Usina de Reciclagem de Lixo, em Nova Benfica, na Zona Norte, para onde está sendo encaminhado o material recolhido, o aumento do material é perceptível. Em um mês, foram feitas duas vendas conjuntas de todos os produtos recebidos, totalizando mais de 13 toneladas, entre papéis, papelão, jornais, plásticos, garrafas PET e sacos de cimento. "Nunca fizemos duas vendas em um mesmo mês, nunca chegamos nem na metade desse montante", contabiliza a coordenadora geral da Ascajuf, Maria Aparecida Oliveira.

  Entretanto, nem todo o material recebido pode ser aproveitado. No meio dos recicláveis, ainda são achados restos de comida, fraldas sujas, restos de materiais de construção, lâmpadas fluorescentes. "Infelizmente, ainda está vindo muito material sujo e está faltando as pessoas saberem o que é reciclável" (ver quadro), diz a coordenada da usina Vanilda Ribeiro. Para isso, a campanha dando informações à população é essencial.

  

Lixo tratado com inteligência

 O consultor de meio ambiente e mestre em ecologia Theodoro Guerra aponta que há municípios desenvolvidos na questão ambiental nos quais o percentual da coleta seletiva é maior do que a convencional. "Hoje precisamos tratar o lixo de maneira mais inteligente. Se tem a possibilidade de fazer reciclagem, tem que ser feita, inclusive do material orgânico, que pode ser transformado em adubo. O foco da Prefeitura na coleta seletiva precisa aumentar."

  A coordenadora do projeto-piloto de coleta seletiva no Demlurb, Juliana Pereira Nejaim, afirma que a ação é prioridade para o município e segue orientações do Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR). "Não temos como começar e já atingir toda a cidade. Queremos ampliar o projeto, mas precisamos ter cautela, inclusive para acompanhar o trabalho da Ascajuf. Se a demanda for muita, podem não dar conta de fazer a triagem." Ainda de acordo com a coordenadora, após avaliação do trabalho, foi verificada a urgência de algumas mudanças, que serão implantadas a partir desta segunda-feira. "Identificamos a necessidade de retirada de alguns bairros, onde não foram recolhidos nenhum tipo de material, como o Centro. Percebemos que a população deixa os produtos da coleta seletiva no período da noite, quando catadores de papel fazem a coleta. Portanto, vamos destinar o tempo gasto nesses locais, acrescentando outros bairros que não eram atendidos", explica Juliana.

 Além da região central, foram excluídas as avenidas Brasil e Itamar Franco, pelos mesmos motivos. Outros sete bairros e sete condomínios residenciais foram incluídos nas duas rotas (ver quadro). Os novos locais passam a fazer parte do trabalho, já que a população procurou o órgão por haver demanda de materiais recicláveis que são separados pelos moradores. Solicitações semelhantes podem ser feitas ao Demlurb pelo telefone 3690-3502 e 3690-3537.

 
 

Demlurb promete reforçar campanha

 Em relação à reclamação da população sobre a falta de esclarecimento sobre os horários e as datas da coleta seletiva, a coordenadora do projeto-piloto do Demlurb, Juliana Pereira Nejaim, concorda que a panfletagem realizada no início dos trabalhos não surtiu efeito. "Vamos colocar um aviso sonoro nos próprios caminhões. Estamos tentando definir os horários, dividindo entre o turno da manhã e da tarde. A população será avisada." Os caminhões seguem as rotas sempre a partir das 8h ou a partir do meio-dia, que são os horários iniciais para os moradores colocarem o lixo na rua.

  Sobre o uso de uma caminhonete na coleta seletiva de um condomínio na Cidade Alta, a assessoria de comunicação do Demlurb informou que alguns residenciais têm um grande volume de materiais recicláveis e, como não estavam incluídos nas rotas anteriores, o projeto era desenvolvido com veículo diferenciado. Com as mudanças atuais, esses locais serão mantidos em um dos trajetos dos caminhões destinados à coleta seletiva.

 Moradores de bairros ainda desassistidos pelo projeto-piloto podem recorrer ao trabalho dos catadores de resíduos, que atuam em diversos pontos. Os descartes ainda podem ser enviados aos três pontos de coleta da associação: na Rua do Monte, no Vitorino Braga, região Sudeste, na Rua Senhor dos Passos, no São Pedro, Cidade Alta, e na Rua Maria Cândida de Jesus, na Zona Norte. A coleta também pode ser solicitada nestes endereços. De acordo com a presidente da Ascajuf, Janaína Silva, o recolhimento no imóvel é feito quando há quantidade de materiais com peso superior a 150kg.

 De acordo com a assessoria de comunicação do Demlurb, a partir de outubro, alguns bairros, ainda não contemplados serão atendidos.

 

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