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09 de Abril de 2014 - 07:00

Cinco escolas visitadas pela Tribuna sofrem de problemas estruturais e são alvos de queixas quanto a superlotação e falta de professores

Por Camila Caetano e Kelly Diniz

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Laboratórios e bibliotecas fechadas, janelas sem vidros, pisos soltos, paredes com infiltração e mofo, banheiros sem portas, mato alto, quadros danificados, além da falta frequente de professores e profissionais nas instituições. Esse é o retrato desalentador de grande parte das instituições da rede estadual de ensino da cidade. É possível observar que quanto mais precária é a escola, pior é o desempenho dos estudantes em provas de avaliação, como o Enem, por exemplo (ver quadro). A necessidade de uma boa infraestrutura é apontada por pedagogos como primordial para o desenvolvimento dos alunos, pois influencia na motivação. O coordenador do curso de pedagogia da UFJF, Paulo Dias, afirma que a qualidade de todos os elementos de uma instituição interfere no aprendizado. "Ter um pátio e uma fachada, por exemplo, tem um significado. Eu vejo como de extrema importância o que você tem dentro do espaço, até mesmo uma pintura adequada."Reuniões já foram realizadas com a Superintendência Regional de Ensino, mas as soluções não aparecem. "Voltamos à superintendência para expor os problemas de superlotação e infraestrutura. Como sempre, só recebemos promessas", conta uma professora da Escola Batista de Oliveira, do Costa Carvalho, região Sudeste.

Para conhecer a realidade local, a Tribuna esteve em cinco escolas e, depois de conversas com estudantes e professores, adotou critério de pesquisa realizada pelas universidades de Brasília e Federal de Santa Catarina, em 2013, que propõe uma escala de categorias desenvolvida para avaliar a infraestrutura escolar. Os estudos consideram que uma instituição elementar tem que ter água, banheiro, esgoto, energia elétrica e cozinha. A adequada ainda deve apresentar biblioteca, sala de professores, laboratório de informática, quadra esportiva, parque infantil, acesso à internet e máquina de cópias. Já a avançada, além dos itens acima, tem que possuir laboratório de ciências e instalações para estudantes com necessidades especiais. A maior parte das escolas estaduais visitadas possui apenas o básico, e ainda assim, com diversas falhas.

Yago Ferreira da Silva Nunes, 15 anos, aluno do segundo ano do ensino médio da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, conhecida como Polivalente de Benfica, na Zona Norte, sente-se lesado no aprendizado devido a atual situação. "Um exemplo disso é a falta de portas nas salas de aula. Você está concentrado, e alguma turma de educação física passa no corredor, perde-se toda a concentração. Até os professores se distraem". Além disso, os alunos da mesma escola também reclamam que as salas são pequenas para comportar o número de estudantes que, em alguns casos, as salas chegam a ter 53 alunos. Segundo a superintendente Regional de Ensino, Belquis Furtado, realmente houve transferências de turmas para o turno da manhã devido à lei estadual para redução das turmas do noturno. No entanto, ela ressalta que a superintendência fiscaliza o número de alunos em sala e, quando identificada a superlotação, é autorizada a abertura de novas turmas.

Yago também conta que a reforma do colégio ficou pela metade. "Deixaram o esgoto com problemas na cozinha, quase sempre ele transborda. Quando vamos lanchar, sentimos aquele cheiro horrível. E a cozinha nova ainda não está pronta." A superintendente explica que a obra no Polivalente de Benfica não foi paralisada. "A escola recebeu cerca de um milhão de reais para fazer a reforma, que ainda está em andamento. Houve uma pausa administrativa, mas está tudo dentro do contrato. A empresa não está fora do prazo."

Já a Batista de Oliveira enfrenta ainda o desmoronamento de um barranco. Segundo uma professora do colégio, o muro de contenção está cheio de buracos. "O barranco está deslizando, principalmente atrás da cozinha. Uma sala não vai ser utilizada esse ano porque o muro está ameaçando cair. Está muito perigoso." Belquis conta que uma forte chuva em janeiro acarretou no deslizamento do barranco no terreno vizinho. "Foi construído um muro de arrimo. Por isso, a escola não foi atingida pelo deslizamento. A Defesa Civil foi ao local e verificou que não há comprometimento nenhum. Também já foi providenciada a retirada da lama que ficou em frente a uma sala."

A quadra de esportes é outro ponto de questionamento. Na Escola Estadual Marechal Magalhães de Moraes, o Polivalente de Teixeiras, Zona Sul, os estudantes se queixam da falta de cobertura. Já no caso do Duarte de Abreu, a reclamação é acerca da ausência da mesma. As aulas de educação física são dadas no pátio.

Segundo Belquis, todas as escolas citadas passaram por reformas. "Todos os anos são feitos diagnósticos da estrutura física das escolas e definidas prioridades para que a equipe de reforma da superintendência atue. Também estamos trabalhando com os diretores em projetos de preservação do ambiente escolar."

 

Delfim Moreira

Fechado em julho do ano passado para reforma e restauração, o Palacete Santa Mafalda, onde funcionava a Escola Estadual Delfim Moreira, ainda não deu sinais de obras. Segundo um professor que preferiu ter o nome preservado, o prédio tombado está com a estrutura destruída. Enquanto isso, o vandalismo vai deixando as suas marcas. De acordo com uma ex-funcionária do colégio, os muros estão sendo usados para colar cartazes, enquanto as janelas quebradas se tornaram lixeiras. "Os buracos no chão existem desde 2004. Teve aluno e professor que se machucaram caindo e prendendo a perna neles."

Alguns dos problemas estruturais acarretam em outros danos. "No prédio novo (imóvel alugado na Rua Santo Antônio, Centro), chove na sala da secretária, na sala da direção e onde tem os computadores. O forro todo já chegou a cair em dia de chuva", relata o professor.

A SEE informou, em nota, que o prédio tombado pelo patrimônio municipal passará por uma reforma geral e restauração. "O programa está em fase de elaboração. Por se tratar de um imóvel tombado, é mais complexo. Logo na elaboração do projeto, orçado em R$ 199.988,00, já é necessário o acompanhamento de órgãos de preservação do patrimônio." A assessoria da pasta acrescentou ainda que mesmo antes do início das obras, os mais de dois mil alunos atendidos na instituição foram remanejados para outro imóvel.

 

 

Projeto pedagógico ligado à infraestrutura

O aluno Yago Ferreira da Silva Nunes, 15 anos, do Polivalente de Benfica, concluiu o ensino fundamental na Escola Estadual Professor Lopes, também no Bairro Benfica, Zona Norte e conta que nessa instituição ele tinha mais ânimo para estudar. Segundo o aluno, ela é bem cuidada, com o pátio limpo, os banheiros e as salas com portas, a pintura nova, e uma biblioteca melhor. A Tribuna esteve na escola e constatou que a biblioteca é ampla, com cantinho para leitura e televisão para exibição de filmes, e que o colégio ainda possui um laboratório de informática e uma sala destinada ao atendimento especial para alunos com deficiência.

O colégio está com novas mudanças previstas, como a inauguração de um laboratório de ciências. Este já está com a construção pronta, e no momento falta a compra dos equipamentos. Também haverá melhorias na quadra, que será coberta e com arquibancada.

Segundo o pedagogo Paulo Dias, a edificação de uma instituição transmite a sua essência e mostra a sua proposta de ensino. Desta forma, o projeto pedagógico deve estar interligado com o espaço físico. "Uma arquitetura precisa traduzir a concepção de educação que a instituição está defendendo. Por mais que você diga que dá para levar o ano, trabalhar com condições precárias, em minha opinião, não dá. Compromete demais o trabalho pedagógico."

 

 

Déficit de professores também é problema

Déficit de profissionais e de professores de diversas disciplinas é pauta constante na educação, como mostrado em reportagens anteriores pela Tribuna. A Escola Estadual Marechal Magalhães de Moraes, o Polivalente de Teixeiras, Zona Sul, está com falta de professores de arte e filosofia desde o início das aulas, em fevereiro. No Instituto Estadual de Educação, conhecido como Escola Normal, a aluna Amanda Delphin, 14 anos, também conta que frequentemente há ausência dos educadores. Como não há substitutos, os alunos ficam sem conteúdo. Já o estudante Yago Nunes, do Polivalente de Benfica, na Zona Norte, declara que chegou a ficar dois meses sem algumas disciplinas. "Como o Governo dispensou muitos professores, ficou um tumulto no início do ano. Nos primeiros meses não tivemos aulas. Eles tiveram que recontratá-los, e agora eles ainda querem passar o 9º ano da tarde para o turno da manhã."

A superintendente Regional de Educação, Belquis Furtado, declara que as escolas são muitos grandes e por isso há movimentação de professores. "Os professores exercem o direito deles de pedir licença ou transferência para outras instituições."

 

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